Para quem não quer ouvir o grito do silêncio

Tudo rodava à minha volta e sob meus pés. Fiquei sem chão e não possuía asas para voar

Tudo rodava à minha volta e sob meus pés. Fiquei sem chão e não possuía asas para voar

Déa Januzzi

Não, eu não quero o melhor convênio médico. Nem tenho como pagar caro porque tenho mais de 60 anos. E me obrigam a pagar o preço de estar envelhecendo. Não, eu não quero a medicina tecnológica com exames cada vez mais digitais. Máquinas que fazem diagnósticos precisos e elaborados. Não, eu não quero médicos que entopem os pacientes de pedidos de exames e de remédios. Não, eu não quero caixa de medicamentos para preencher a falta de diálogo médico/paciente. Nem o vazio de cada um de nós.

Não, eu não quero penar na fila interminável do Sistema Único de Saúde (SUS), onde os funcionários olham para os pacientes como se fossem bois no matadouro. Não, eu não quero mostrar que sou humilde e simples nas filas públicas dos postos de atendimento, cujos guichês revelam a precariedade de um sistema que não sabe nem ouvir o pedido de clamor da senhora que está há horas numa cadeira de rodas suplicando por atendimento, à espera de um tratamento menos hostil.

Ontem, fui exposta às intempéries e naufrágios da medicina moderna. Acordei tonta, com vertigens e enjoos que não me deixavam ficar de pé.Tudo rodava à minha volta e sob meus pés. Fiquei sem chão e não possuía asas para voar. Com a ajuda do meu filho pedi que ele ligasse para o meu cardiologista que há muito não vou. Ainda bem que ele não atendeu na mesma hora. Depois de um tempo, ele me retornou no WhatsApp. Estava em Paris participando de um congresso. Contei da labirintite que veio depois de um estresse emocional profundo. Ele sabia que eu não tinha mais convênio, depois da saída do emprego formal e de suas idiossincrasias que me impediram de continuar com o convênio. Mas essa é outra história.

Pois bem. Ele me disse, então, para procurar a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou, se preferirem, Unidade dos Pacientes Abandonados, na Região Centro-Sul. Ou, se tivesse condições, fosse ao pronto socorro de um hospital particular. De braços dados com o meu filho para não cair no chão de tonteira, nos dirigimos a um hospital particular próximo de casa. Só para ser atendida por um otorrino, teria que desembolsar R$ 300,00, fora os procedimentos seguintes que só o médico poderia dizer quais.

Certo. Desvio de rota para uma UPA, que de pronto atendimento não tem nada. Depois, a informação de que para ser atendida na UPA é preciso passar antes pelo Posto de Saúde, que está lotado com pacientes renegados e destratados, ok. No País de quem é amigo de quem e de quem indica lembro-me de um antigo conhecido que é provedor da Santa Casa.

Dra. Alba Sizenando:  amiga querida

Dra. Alba Sizenando: amiga querida

Atencioso, ele diz para procurar uma determinada médica na UPA do Ipsemg ao lado. A tal médica não tinha chegado ainda e ninguém sabia a que horas deveria comparecer ao trabalho. Perguntei se não havia um otorrino. A do guichê, depois de terminar a conversa e as risadas com a companheira ao lado, diz que não, que todos já foram embora.
Estaca zero – e o chão some sob meus pés. O que faço agora? Entro na farmácia e peço um remédio qualquer para labirintite? Enfio a minha cabeça no primeiro poste? Ou caio de vez no buraco em que me meti?

Resolvo ligar para a minha amiga do coração, Magui, lá do Sítio Sertãozinho que é conectada com as coisas do Universo, da alma e das ervas. Ela me diz para ir para casa, deitar e que ela vai me dizer o que fazer. Primeiro, um escalda-pés com flores de camomila e massageara parte de dentro e de fora do tornozelo por uns 20 minutos. A receita continua. Esquentar um punhado de sal grosso na frigideira, colocar num pano e depois nos ouvidos alternadamente. Se puder, tome um chá de folhas de laranja da terra.

Assim que termina o ritual, as tonteiras desaparecem e recupero o meu equilíbrio no mundo, para dizer: não, não quero convênios médicos nem a parafernália dos aparelhos modernos que conseguem entubar e fazer traqueostomia em pessoas velhas, até que elas morram sozinha num CTI, ou como prefere dizer um amigo, no Centro de Tristezas Indizíveis, em melhor tradução.

Quero acolhimento, ternura, alguém que me ouça, que tente ouvir a minha dor, qual seja ela, do corpo ou da alma. Tenho certeza que quase todos os doentes ficariam melhores se pudessem ser escutados. Que eles gritam em silêncio para que sejam bem tratados e atendidos em suas queixas. Se pudessem falar…

Não, eu não quero amigos cobradores que atormentam a sua vida, que não têm sossego enquanto não tiram o seu também. Quero amigos curadores, que percebem os sinais de fumaça que você envia, mesmo estando distantes de você em tempo e espaço, mesmo que um deles more na Ilha de Itaparica, na Bahia. Eusébio Lobo da Silva é assim, professor aposentado de dança, ele respondeu imediatamente aos meus sinais de fumaça. Quero médicos que saibam sobre a fragilidade da condição humana e que mostrem suas asas de anjo, mesmo que disfarçadas.

Ao longo da minha vida, sempre me sintonizei com esses anjos de carne e osso, mas muitos já partiram, outros envelheceram como estou envelhecendo e agora querem quietude. Foram tratar das próprias doenças e falhas e faltas, pois também são humanos. Foram tratar do último estágio da existência, sem estardalhaço, sem vitrine, sem mídia.
Mas não posso deixar de citar dois desses anjos: a médica Alba Pimenta Sizenando, que teve a coragem insana de colocar meu filho no mundo e de me acompanhar da ao longo da minha vida de mulher e mãe, que até hoje me acolhe com todo respeito. Mas ela também tem suas fragilidades.

Quero render tributo ao geriatra e gerontólogo Flávio Xavier Cançado, o primeiro que me falou sobre o envelhecer quando ninguém ainda prestava atenção no tema. Ele acompanhou até o fim as dores e alegrias de minha mãe Amélia, que se foi aos 91, mas sempre bem tratada, atendida por esse anjo que tem uma companheira à altura, VcitóriaFlexa de Lima. Eles formam um desses casais que vieram a Terra para fazera diferença. Até hoje, o doutor Flávio ainda atende ao meu clamor.

Conclusão: não, eu não quero adereços, mas uma fantasia de verdade até o fim dos meus dias e que eu morra entre amigos curadores. Ou como deseja Magui. Morando dentro de um vagão de trem, pintado com um céu de estrelas, para que a paisagem mude a cada estação.

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4 comentários

  1. Magdala Ferreira Guedes

    Déa,só você para ter a coragem de se revelar à margem por não ter infra estrutura ,para pertencer a um seguro de saúde,quer dizer, renda suficiente:Dinheiro!
    Querida,mesmo lendo todos os desencontros para um atendimento de emergência,consegui rir.
    Ri da ironia de uma poetisa,jornalista,ser humano como você,passar por uma situação dessa.
    Ri por te conhecer e saber que quando nos encontrar ,você dará boas risadas dessa epopéia.
    Mas ,no fundo,fundo,choro por aqueles que não têm acesso a seres alados como você mesma diz.
    Mas de uma coisa tenho certeza:
    O mundo está mudando,os paradigmas quebrando é um dia será assim:
    ‘ Nada para mim,tudo para todos.’
    Bjs

  2. Déa, O SUS é cheio de altos e baixos. Uso o SUS – para exames de rotina, clínico geral, exames como ressonância e tomografia, Papanicolau, etc. E uso ortopedistas e neurologista particulares. Se vc não tem convênio e precisa de um atendimento de emergência, tem que ir a um PS público. Aqui em SP há vários. O do HC é o melhor.

    Certa vez viajei para a Asia. Qdo cheguei em Hanói, no Vietnã, fui internada em um hospital com os mesmos sintomas q vc teve, ou parecidos: enjôos, dor de cabeça, moleza, não comia nem bebia. Depois de exames de imagem, os médicos vietnamitas disseram q tive enxaqueca. Fiquei no hospital por 4 dias, cancelei o resto da viagem e voltei ao Brasil. Nunca + tive nada parecido. Aleluia!

  3. Unidade de Pronto Atendimento (UPA), Unidade dos Pacientes Abandonados
    CTI, Centro de Tristezas Indizíveis
    ​”​Quero acolhimento, ternura, alguém que me ouça, que tente ouvir a minha dor, qual seja ela, do corpo ou da alma. Tenho certeza que quase todos os doentes ficariam melhores se pudessem ser escutados. Que eles gritam em silêncio para que sejam bem tratados e atendidos em suas queixas. Se pudessem falar…
    Quero médicos que saibam sobre a fragilidade da condição humana e que mostrem suas asas de anjo, mesmo que disfarçadas.​”

    ​É isso mesmo Dea e quando pudemos trabalhar nesses locais, onde sabemos dessa triste realidade, maior ainda a importancia de nossa disponibilidade profissional, mas também empatia com a dor do outro, não apenas para coloca-lo no colo, mas acolhe-lo nesse momento de tristeza, mas mantendo sua capacidade de pensar e decidir sobre suas dificuldades, problemas…
    E nesses locais encontrei também ANJOS/medicos/enfermeiros/fisioterapeutas/nutricionistas/assitentes sociais, que devido a essa sensibilidade especial foram os primeiros a ouvir esses pacientes, antes que eles chegassem em meu atendimento, em meio a toda turbulencia de um Centro de Saude, onde toda a população busca ser acolhida e ouvida e somos tão poucos para tantos e as condições de trabalho nem sempre adequadas. Além do profissionalismo desenvolvido na Faculdade temos que ser criativos, para encontrar caminhos e soluções e alem disso tudo suportar exigências, pressões e etc que também adoecem principalmente esses profissionais da enfermagem, que ficam na porta de entrada, pois quando dentro do consultório medico, o doente raramente irá criticá-lo.
    E também muitos profissionais vão desenvolvendo defesas estranhas frente a esse caos de sofrimento humano, se “robotizando” e dessa forma assim se protegendo…
    Mas…sabemos que o mal atendimento, a falta de sensibilidade e até a ausencia de perfil na escolha dessa profissão de cuidar do outro é que farão a má fama e aqueles que sabem que estão no lugar certo e gostam do que fazem, nem sempre se tornam conhecidos.
    Contudo continuam lá cuidando dos doentes e adoecendo…

    Sua cronica de hoje merecer ser imprimida e distribuída nos locais de Saude Publica, mas principalmente que chegue nas mãos daqueles que podem oferecer mudanças, que finalizem com esse sofrimento insuportável, que se acrescenta ao sofrimento fisico, num momento em que todos nós passaremos algum dia, enfrentando algum tipo de doença, que com certeza vai revelar toda nossa fragilidade humana…
    Meu abraço especial e gratidão por mais uma vez conseguir nos traduzir em palavras tão belas,
    Genoveva

  4. Obrigada a todas vocês por comentarem o meu texto, com tanto carinho e informação. À Magui, que sempre escuta o meu clamor, à Ana que me falou dos altos e baixos do SUS e à Genoveva que mostrou o lado humano e doloroso dos funcionários que tentam fazer o bem, mas não têm condições. Gratidão a todas vocês que me estenderam a mão.

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