Bibi Ferreira chega aos 95 anos de vida em plena atividade

Ela está completando 95 anos de vida nesta quinta-feira, primeiro de junho

Bibi está completando 95 anos de vida nesta quinta-feira, primeiro de junho

Maya Santana, 50emais

Bibi Ferreira já deu entrevista dizendo que não fará festa para comemorar seu nonagésimo-quinto aniversário. Será com um jantar discreto, como sempre foi sua vida privada, que ela fechará esse dia extraordinário. Tudo bem, as pessoas estão vivendo mais mesmo. Mas só uns poucos privilegiados conseguem se aproximar de seu centenário cantando, se apresentando para grandes plateias, sendo aplaudido de pé depois de cada show. Bibi é um dos grandes símbolos da chamada longevidade ativa.Trabalha duro até hoje, com a agenda constantemente lotada. Talvez esse seja o seu grande segredo para estar tão bem: trabalhar continuamente com o que ama. Nunca parar. O artigo que você vai ler agora, de Adriana Lima para O Globo, resume bem a vida gloriosa dessa ilustre nonagenária.

Leia:

Atriz, cantora, diretora teatral e compositora com um talento singular, Bibi Ferreira coleciona sucessos ao longo de seus mais de 70 anos de carreira, numa das mais bem-sucedidas trajetórias artísticas do país, dedicada quase que exclusivamente ao teatro. A grande estrela da dramaturgia brasileira, ainda em atividade, fez apenas cinco filmes e nunca atuou em novelas ou minisséries, embora tenha apresentado vários programas na TV.

Bibi com os pais,  ator Procópio Ferreira e da bailarina espanhola Aída Izquierdo, em 1924

Bibi com os pais, ator Procópio Ferreira e a bailarina espanhola Aída Izquierdo, em 1924

Filha da corista espanhola Aída Izquierdo com o renomado ator Procópio Ferreira, Abigail Izquierdo Ferreira, apelidada Bibi, teria nascido em 1º de junho de 1922, no Rio No entanto, duas datas também aparecem como referência de seu nascimento: seu pai falava em 4 de junho, e na certidão de nascimento consta 10 de junho. Bibi nunca soube ao certo a data, comemorada no dia 1º. A sua estreia aconteceu aos 19 anos, ao lado de Procópio, protagonizando a comédia “La locandiera”, de Carlo Goldoni. No entanto, havia estado no palco pela primeira vez aos 20 dias de nascida, segundo o “Dicionário Cravo Albim da Música Popular Brasileira”, nos braços da madrinha, a atriz Abigail Maia, na peça “Manhãs de sol”, de Oduvaldo Vianna, pai do também dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho. Bibi substituiu uma boneca, que havia sumido em meio aos objetos cenográficos.

Ainda criança, segundo o dicionário, Bibi adaptava letras de composições de Noel Rosa e Lamartine Babo às melodias de óperas de Verdi e Rossini, entre outros. A experiência seria utilizada por ela muitos anos mais tarde ao compor a “Operabrás”, mesclando letras de Dorival Caymmi e Lamartine Babo às músicas de Rossini e Gounod. Dos 7 aos 14, participou do Corpo de Baile do Municipal, além de ter estudado piano e violino. Mas aos 9, foi impedida de estudar no tradicional Colégio Sion, pelo fato de ser filha de artistas, que eram mal vistos pela elite da época.

Momento sublime na peça Gota D’água, de Chico Buarque de Holanda, em 1977:

Nos anos 40, Bibi montou sua própria companhia teatral, por onde passaram Cacilda Becker, Maria Della Costa, Sérgio Cardoso e Nydia Licia, entre outros grandes nomes do teatro brasileiro, sendo uma das pioneiras na direção teatral no país. Bibi dirigiu seu pai em “Fizemos divórcio” (1947), um sucesso estrondoso, que marcou sua estreia como diretora, logo depois de estudar e trabalhar com cinema, na Royal Academy of Dramatics Arts, em Londres. Na montagem, Procópio, conhecido pelas comédias, mostrou que também sabia fazer papéis dramáticos. Entre seus maiores sucessos dessa época está “A herdeira”, de Henry James, na qual também fez o papel principal.

Na década de 60, Bibi Ferreira comandou o programa o “Brasil 60”, na TV Excelsior, em São Paulo, e a seguir o “Bibi sempre aos domingos”. Na TV Tupi, apresentou o musical “Bibi ao Vivo” (1968), com direção de Eduardo Sidney. Alternando interpretações e direção, Bibi assinou “Brasileiro, profissão: esperança” (1970), inicialmente com o ator Ítalo Rossi e a cantora Maria Bethânia, e, mais tarde, transformado em grande espetáculo no Canecão, no Rio de Janeiro, com Paulo Gracindo e Clara Nunes.

Interpretando a magnífica francesa Edith Piaf:

Com uma voz única, a atriz também é conhecida pelo humor e inteligência. Em entrevista ao GLOBO, publicada em 7 de novembro de 1993, ela admitia ser um fenômeno vocal, que ganhou dimensão maior ainda com o passar das décadas. Nos muitos musicais de sua carreira, Bibi Ferreira interpretou canções célebres nas vozes de Edith Piaf, Amália Rodrigues, Carlos Gardel, Dolores Duran, Chico Buarque, Frank Sinatra, entre tantos outros. Em “Cidade Mulher” (1936), filme de Humberto Mauro, Bibi cantou o samba “Na Bahia”, de Noel Rosa e José Maria de Abreu. Também pode ser vista nos longas “O fim do mundo” (1947), do inglês Derek Twist, e “Almas adversas” (1949), do diretor sérvio Leo Marten.

Seus musicais sempre ficaram em cartaz por longas temporadas, sendo levados em excursão para as principais cidades do país. Nos anos 60 e 70, Bibi estrelou versões de musicais americanos, como “Minha querida dama” (“My fair lady”), de Frederich Loewe e Alan Jay Lerner, ao lado de Paulo Autran e Jayme Costa, e “Alô, Dolly” (Hello Dolly), adaptado de Thornton Wilder, com Hilton Prado e Lísia Demoro. A década seguinte foi marcada por “O homem de La Mancha”, de Dale Wasserman, ao lado de Paulo Autran e Grande Otelo, com direção de Flávio Rangel, e “Gota D’Água”, de Chico Buarque e Paulo Pontes, com quem foi casada. Voltou aos palcos em “Piaf – A vida de uma estrela” (1983), interpretando a cantora francesa, e por sua atuação Bibi recebeu diversos prêmios e foi condecorada pelo governo francês.

Com Lisa Minelli, em Nova York, em abril de 2013:

Em 1991, a atriz produziu o espetáculo comemorativo dos 50 anos de carreira, “Bibi in concert”. Bibi cantava trechos de óperas com letras da MPB que marcaram sua vida. O espetáculo era acompanhado pela Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro, regida pelo maestro Henrique Morelembaum, no Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, no Rio. Certa vez, com sessões lotadas, foi preciso colocar um batalhão de choque da PM na porta do teatro para conter a multidão que queria ver o show. Três anos depois, Bibi voltou com “Bibi in concert II”, com o mesmo sucesso.

Em 2001, levou ao palco a cantora de fado portuguesa Amália Rodrigues, em “Bibi vive Amália”, no Teatro Ribalta, no Rio. Após anos dedicados aos espetáculos musicais, a atriz protagonizou “Às favas com os escrúpulos” (2008), de Juca de Oliveira, dirigida por Jô Soares. Em 2016, aos 94 anos, surpreende retornando aos musicais e apresentando-se nas principais cidades brasileiras “Bibi Ferreira canta repertório de Sinatra”. No mesmo ano, brilhou em “4x Bibi”, para comemorar seus 75 anos de carreira, interpretando sucessos de Amália Rodrigues, Carlos Gardel e Edith Piaf.

Cantando Frank Sinatra:

A dedicação e o talento da atriz lhe renderam uma coleção de prêmios, como Molière (1983) e Mambembe (1983) de melhor atriz, Jardel Filho (1984), o Teço (1984), e o Apetesp (1984), Pirandelo (1985), como personalidade teatral, o Prêmio Sharp de Teatro (1996). Em 2001, Bibi Ferreira foi a grande homenageada do Prêmio APTR de Teatro, por sua contribuição à cultura brasileira, entregue pela amiga Fernanda Montenegro. Bibi foi homenageada também pela Escola de Samba Unidos de Viradouro, com o enredo “Viradouro canta e conta Bibi – Uma homenagem ao teatro brasileiro” (2003). Bibi desfilou na Marquês de Sapucaí, como destaque no último carro alegórico, que também homenageava Procópio Ferreira.

Com uma vida amorosa discreta, Bibi teve uma única filha, Teresa Cristina, fruto do relacionamento com Armando Carlos Magno.

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