Alexandre Kalache: É assim que tornaremos a vida muito melhor

A vida deixou de ser uma corrida de cem metros para se transformar em uma maratona. Para chegar bem ao final, é preciso ter estratégias, preparo, resistência e superação

Maya Santana, 50emais

Neste primoroso artigo para o site vivaalongevidade.com.br, Dr. Alexandre Kalache, 72, um dos especialistas mais importantes do Brasil na questão do envelhecimento, referência no país, fala de como o fato de as pessoas estarem vivendo mais vem mudando o mundo. E do que precisamos fazer para aumentar a nossa qualidade de vida, a medida em que envelhecemos. O respeitado especialista estabelece quatro pontos imprescindíveis, a seu ver, para se chegar bem à velhice. Entre eles, cito um, que para mim desde criança foi meu guia: “aprender, sempre, ao longo da vida.”

Leia:

Vivemos a revolução da longevidade. A expectativa de vida ao nascer no Brasil era de 48 anos em 1950. Hoje, supera 75 e ultrapassará 80 antes de 2050. Já são mais de 20 os países que alcançaram este patamar. A vida deixou de ser uma corrida de cem metros para se transformar em uma maratona. Para chegar bem ao final, é preciso ter estratégias, preparo, resistência e superação. Tudo isso contribui para termos mais resiliência – dispormos de reservas para reagir positivamente aos desafios impostos pela vida, adaptando-nos a eles e, no processo, tirando lições.

É preciso também ter uma atitude positiva – afinal, pense na única alternativa ao envelhecimento e decida qual você prefere? Mas não basta a atitude positiva: é necessário agir, investir na qualidade de nossas vidas mais longas, acumulando quatro capitais:

Capital da saúde: valor universal, – envelhecer com boa saúde, em grande parte, depende de nós.
Capital de conhecimentos: aprender, sempre, ao longo da vida.
Capital social, de relacionamentos: chega uma hora em que podemos precisar de quem nos cuide.
Capital financeiro: dinheiro não é tudo, mas, claro, facilita.

Com a Revolução da Longevidade torna-se indispensável adotar uma perspectiva de curso de vida: quanto mais cedo nos prepararmos para bem envelhecer, melhor – porém nunca é tarde demais.

Alexandre Kalache
é presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-Brasil, da sigla em inglês para International Longevity Centre) e da Aliança Global de ILCs. É doutor em Saúde Pública pela Universidade de Oxford, membro do World Economic Forum e embaixador global da organização HelpAge International. Kalache foi, ainda, diretor do programa de envelhecimento e saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS) entre 1995 e 2007 e é consultor para a longevidade da Bradesco Seguros desde 2008.

Um mundo diferente
“Vejam a minha neta Annabelle, de cinco meses. Pensem na vida que essa menina vai ter. Ela é nascida em Londres e vai, ao longo da sua vida, morar em quatro, cinco cidades – no Rio, em Londres, em Nova York, em Xangai. O marido dela ainda nem nasceu, mas, sei lá, ela vai se casar com um chinês. Este mundo em que a gente está vivendo é muito diferente: é um mundo longevo, de novas experiências, em que a gente tem de estar o tempo todo se adaptando a novos conhecimentos. A quarta revolução industrial está aí para ficar, e não estamos falando mais só de digitalização – é uma simbiose de tecnologias que nos obriga a estarmos alertas.”

Mais futuro pela frente
“A Annabelle vai ter que ter saúde para fazer três mestrados, cinco doutorados, seis carreiras. O primeiro filho dela vai nascer aos 43, o segundo aos 47, e isso vai ser normal. Aos 54 anos, ela vai tirar um ano sabático para refletir sobre o que vai fazer no futuro. Ela vai começar a se aposentar aos 87 anos…”

A revolução da longevidade
“Este mundo longevo vai exigir que a Annabelle envelheça de uma maneira mais saudável – é o primeiro capital fundamental, que é a saúde e que a gente já está prolongando, pois é uma das revoluções da longevidade que ela vai usufruir. Eu também sou resultado dessa revolução. Quando eu nasci, a expectativa de vida no Brasil era de 43 anos. Hoje, a expectativa é de 77. São 30 anos a mais de vida, não são 30 anos de velhice.”

Brasil, o novo Japão
“É revolucionário termos hoje em torno de 25 milhões de pessoas com mais de 60 anos e sabermos que, em 2050, teremos mais de 64 milhões. Vamos sair dos 13%, 14% de hoje, para virarmos um Japão, o país mais envelhecido de hoje. E se vocês acham que 2050 é um futuro muito distante… vocês, que têm entre 27 e 57 anos, são os idosos de 2050. E há que preparar o futuro de vocês.”

Capitais acumulados
“A Annabelle vai chegar aos 104 anos com saúde. Ela vai chegar a essa idade com um segundo capital fundamental acumulado, que é o conhecimento. Mas ela vai precisar de outra coisa, que é viver dentro de uma comunidade onde possa socializar, estar em contato com outras gerações, fazer academia, fazer boas refeições, usufruir da beleza. E não há dúvida nenhuma: para isso, é preciso dinheiro. E é o conjunto desses capitais – saúde, conhecimento, social e financeiro – que nos fará resilientes.”

Resiliência é fundamental
“Não há dúvida nenhuma: com essas vidas mais longas, vamos sofrer embates, desafios, vamos ter de ultrapassar barreiras e sofrer perdas. Mas aquele que vai adiante é aquele que tem reserva para ser resiliente. Ser resiliente é a ordem fundamental. É dar a volta por cima, encontrar um caminho pelo lado e ir adiante com a certeza de que viver mais é o melhor que nos pode acontecer.”

Uma vida cheia de propósito
“Precisamos cuidar desses quatro capitais, mas eu lembro a vocês que também é preciso outro ingrediente fundamental para ter qualidade de vida à medida que envelhecemos: é ter propósito de vida, acordar todos os dias sabendo que temos muitas coisas para realizar. É assim que vamos fazer uma vida muito mais plena, muito mais ativa, muito mais feliz.”

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