Aos 65, ela se lança na sua primeira e bela aventura literária

Maria Cristina Bahia Vidigal lendo um conto no lançamento de seu livro “Excessos”

Maya Santana, 50emais

Alguém já disse que “todo mineiro é um contista”. Há muito de verdade nesta afirmação. Mas, claro, nem todo mineiro se distingue pela escrita, porque nem todo mineiro carrega o talento e a sensibilidade de uma Maria Cristina Bahia Vidigal. Aos 65 anos, esta mineira de Curitiba (nasceu na capital do Paraná. Cresceu, formou-se em jornalismo na UFMG, casou-se, teve os filhos Flávia, Lucas e Laura, e continua vivendo em Minas Gerais) se lança em sua primeira “aventura na ficção.” É assim que ela própria se refere a Excessos, o livro de contos que acaba de lançar no Festival Artes Vertentes, cuja 6ª edição foi encerrada no final de setembro, em Tiradentes.

Com capa e ilustrações do artista plástico francês François Andes, o livro é composto de 20 contos

Logo abaixo, você vai ler O Violinista, um dos 20 contos que compõem Excessos. Vai ter um gostinho do estilo elegante e profundo de Maria Cristina Bahia Vidigal que, juntamente com o marido, o empresário Antônio Vidigal, divide seu tempo entre Belo Horizonte e Tiradentes. Antes, leia a apresentação do livro, feita pelo escritor Evandro Affonso Ferreira, elogiado autor de, entre outros, o maravilhoso O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Roterdã:

“Maria Cristina Bahia Vidigal é escritora que sabe, à semelhança dos grandes mestres, alternar assuntos, oscilar os temas entre os dois extremos, sim, sem abrir mão da maestria narrativa e do encantamento e da arte de contar histórias. Cristina nos salva do naufrágio, nos salva do esquecimento nos levando para tempos pretéritos, aqueles nos quais curávamos feridas com mercúrio cromo; e, de repente, nos traz para os tempos que correm, o agora mesmo do poliamor. E depois nos fala, nos surpreende, nos coloca diante da janela mineira pela qual podemos bisbilhotar luxuriosidades padrescas; e depois, num piscar de olhos, com a rapidez de um fogo-fátuo, nos leva para o cemitério para mais um desencontro, para mais uma e última tentativa inútil de terminarmos aquele diálogo com nosso próprio pai. Ah, Cristina Bahia Vidigal! Você sabe entretecer palavras e histórias umas nas outras com comovedora maestria; você sabe descrever a traços largos, descer em detalhes, falar sobre a difícil, e muitas vezes comovedora, tarefa de viver. Bravo.”

O violinista:

Ele entrou na nossa vida como uma folha seca cai da cerejeira para anunciar a florada. Trazia um violino, uma mala pequena, um corpo magro onde os ossos despontavam, um sorriso largo. Ajeitou-se na casa como se dela fizesse parte a vida inteira. E ocupou nosso cotidiano com leveza, uma presença diáfana, arrastando uma luz que talvez os de fora não vissem prateada, mas que marcava a passagem dele como o rastro de um cometa.

Sentou-se à mesa e deliciou-se com as frutas e os queijos. Sorria sempre e falava em francês. Perguntou sobre a nossa vida e falou das coisas que trazia na bagagem: um retrato da avó amada, a medalha da Legião de Honra conquistada pelo avô na primeira guerra, os prêmios que ganhara em concursos de música. Depois, tocou violino sob a cerejeira, embalando o instrumento com os braços compridos e finos: Schumann, Tchaikovsky, antigas e lindas canções francesas.

Enquanto ele tocava, as folhas da cerejeira interromperam o inexorável movimento de queda. A melodia fazia-nos esquecer as dores deste mundo. Fechávamos os olhos e apenas ouvíamos. Ainda hoje não sei se aquele momento durou minutos ou o dia inteiro. Só sei que quando abri os olhos, algum tempo depois, as cores translúcidas das flores da cerejeira iluminavam o fim da tarde.

“Preciso tomar banho para me apresentar no concerto”, ele disse, e eu estranhei que se ocupasse de coisas tão mundanas. Ele saiu do banho mais alto e mais magro, vestido de preto, o violino à mão. Fomos juntos para a igreja, ele nos deu um beijo e disse: “A bientôt”. Nós nos sentamos nos bancos e aguardamos o concerto.

O programa anunciava a sonata para violino e piano de Leos Janácek. Ele começou a tocar de olhos fechados, o rosto sereno, o porte altivo. O som encheu a igreja e pude observar que a maioria das pessoas também fechava os olhos. Mantive os meus abertos, na ânsia de absorver cada movimento, cada nota. Foi assim que pude ver como duas asas negras despontaram das omoplatas do violinista e como ele se ergueu uns dez centímetros do chão, sem interromper a melodia. A luz prateada envolveu a igreja e a mim, e eu chorei, feliz como poucas vezes, pela existência do violinista em minha vida.

Dois ou três dias depois, ele partiu. No mesmo dia, as flores da cerejeira começaram a cair. Meses mais tarde, tive notícias por um amigo comum que ele tentara suicídio e estava se tratando numa clínica. Dele, guardo nítida a imagem do concerto na igreja. Além disso, as asas negras ficaram esquecidas num armário. De vez em quando, tenho que limpá-las para tirar as teias que pequenas aranhas tecem entre as penas aveludadas.

O livro Excessos pode ser adquiro através da produtora Ars et Vita, pelo e-mail info@artesvertentes.com. Toda a renda obtida com a venda do livro será revertida para a Ação Educativa que o Festival Artes Vertentes promove junto a crianças de Tiradentes. São oficinas de desenho, música e teatro realizadas não só durante o Festival, mas o ano inteiro.

Deixe seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos marcados com asterisco são obrigatórios. *

*