Arquiteta cria cemitério-parque que imita centro de arte Inhotim

Desde 2014, o Memorial Parque das Cerejeiras vem passando por um processo de revitalização com foco no conceito de ‘arquitetura de sentimentos’, termo criado pela arquiteta Crisa Santos Foto: Hélvio Romero/Estadão

Maya Santana, 50emais

Achei esta matéria bem apropriada para este Dia de Finados, quando prestamos homenagem aos nossos mortos. Como cemitério é sempre um lugar triste, que traz tantas lembranças das pessoas que amamos e já se foram, uma ideia maravilhosa é transformá-lo numa espécie de parque, com muitas obras de arte, como no Instituto Inhotim, o extraordinário museu a céu aberto, em Brumadinho, no coração de Minas Gerais. O Memorial Parque das Cerejeiras, no bairro Jardim Ângela, em São Paulo, vem sendo revitalizado com base na “arquitetura dos sentimentos”, criada pela arquiteta Crisa Santos, que vai transformando o local em um “Inhotim dos cemitérios.”

Leia a ótima reportagem de Juliana Diógenes para o Estadão:

As pessoas passam cada vez menos tempo em velórios e enterros. Se antes as cerimônias de despedida duravam até 24 horas, hoje a média do ritual é de 6h32, segundo pesquisa do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep).

Para driblar o distanciamento, criar um ambiente menos depressivo e tentar atrair visitantes, um cemitério-parque no Jardim Ângela, na zona sul da capital paulista, trabalha para construir um “Inhotim dos cemitérios”.

No Memorial Parque das Cerejeiras, jazigos dividem espaço com 22 esculturas em madeira do artista Hugo França, responsável pelos bancos do parque Instituto Inhotim, um centro de arte a céu aberto em Brumadinho, na Grande Belo Horizonte.

Entre as construções, há uma praça de chapas curvilíneas de aço, o mirante de madeira voltado para a Represa Guarapiranga, o orquidário com captação de água pluvial vertical, a capela – vencedora do prêmio inglês International Property Award 2017-2018 -, além de bancos, mesas e esculturas de França e de Sérgio J. Matos, e obras da artista plástica Alessandra Bufe.

Desde 2014, o espaço vem passando por um processo de revitalização com foco no conceito de “arquitetura de sentimentos”, termo criado pela arquiteta Crisa Santos. Segundo ela, a ideia é que as construções reflitam sentimentos, com desenho mais livre, orgânico e fluido.

“Elas refletem formas mais orgânicas que remetem até a partes do nosso corpo. Temos um toldo cerimonial que é a curvatura de um abraço. A capela é a alma que sobe aos céus, levanta voo. Trabalhamos de forma a dar movimento, nunca a estagnação”, explica.

Em 90% das obras do Memorial Parque das Cerejeiras, o material é de madeira Foto: Hélvio Romero/Estadão

Focadas nas propostas de acolhimento, as construções no Memorial Parque das Cerejeiras começaram a ser concluídas em 2015. No ano passado, por exemplo, ficou pronta a Praça da Eternidade, onde são colocados os nomes dos entes queridos, como um espaço para homenagear os falecidos.

Em 90% das obras, o material é de madeira. Na Praça da Eternidade, foi usado o aço, mas com uma roupagem diferente.

“Fizemos um tratamento para que tenha características mais quentes. O aço é um material muito frio. Essa é outra característica que a gente coloca, que é trazer essa coisa mais quente, que lembra coração, que não seja frio”, explica Crisa.

A pesquisa do Sincep mostra ainda que a maioria dos brasileiros relaciona morte a sentimentos negativos, como dor e tristeza. Essa relação faz com que 73% tratem a morte como tabu.

Animais
A iniciativa de estimular o uso do cemitério como espaço de troca entre frequentadores, enlutados e natureza é o que motivou a direção do espaço, por exemplo, a colocar animais para circular livremente. Por lá, caminham, entre os enlutados e jazigos, 30 galinhas d’angola e oito pavões.

A ideia é criar um espaço mais parecido com parque e menos com cemitério. O local, além de jazigos, tem espaços parecidos com os de um parque, como Mirante – com vista para a Represa de Guarapiranga – e Orquidário, que servem à comunidade do Jardim Ângela e do Jardim Capela. O projeto prevê a construção, nos próximos anos, de anfiteatro e borboletário. Mais um mirante também está na mira.

Em 90% das obras do Memorial Parque das Cerejeiras, o material é de madeira Foto: Hélvio Romero/Estadão

Nesta semana, foi entregue o espaço “velório-jardim”, um local a céu aberto para velar os corpos. É uma cobertura de madeira, aberta, similar a uma gedésica.

“Sem dúvida é pretensioso dizer que queremos que seja parecido com Inhotim. Mas Inotim é uma das inspirações”, admite Daniel Arantes, diretor do Memorial Parque das Cerejeiras. Outra inspiração é o Parque del Recuerdo, no Chile, que também traz a proposta de ser um local aberto próximo à natureza.

De acordo com Arantes, a revitalização contribuiu para que o número de visitantes aumentasse, por mês, de 5 mil para 10 mil por causa dos velórios. Ainda segundo a direção do cemitério, o número de pessoas que visita o local a lazer passou de 30 para 1 mil por mês.

Luto infantil
Nesta sexta-feira, 1º, como programação especial para Dia de Finados, os cemitérios do Grupo Primaveras, em Guarulhos, na Grande São Paulo, terá um espaço para crianças com oficinas infantis sobre a vivência do luto. Os pequenos serão atendidos por uma equipe de psicólogos que vão propor dinâmicas com mensagens escritas e desenhos, além da apresentação de filmes e documentários que provoquem a reflexão sobre a perda.

A presidente do Sincep e do Grupo Primaveras, Gisela Adissi, diz que o luto infantil – assim como o geral – é muito “negligenciado”. “Não se trata de recreação, mas de uma forma de construção do entendimento sobre a perda”, afirma.

Familiares e fãs dos Mamonas Assassinas levarão a antiga e famosa Brasília amarela para homenagear a banda – as sepulturas dos integrantes mortos em um acidente aéreo, em 1996, estão no Primaveras.

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