A morte da velha senhora

Tônia Carrero no último filme do qual participou,”Chega de Saudade, de Laís Bodanzky, lançado em 2007, mesmo ano em que parou de atuar. A entrevista de Beth Cataldo com a atriz foi feita um ano mais tarde, em 2008

Beth Cataldo, 50emais

A notícia da morte de Tônia Carrero no domingo, 3 de março, reavivou na memória a entrevista que fiz com ela, em 2008, para a primeira publicação da Tema Editorial – uma revista dedicada ao teatro e às atrizes, em particular.

Difícil resistir à apropriação de pelo menos um trecho do título da peça “A visita da velha senhora”, que marcou seu retorno aos palcos, na altura dos 80 anos de idade. Uma montagem irrepreensível, aliás, que tive a oportunidade de assistir em São Paulo.

Há dez anos, entrei na casa dela, então no Jardim Botânico, no Rio, para fazer a entrevista previamente negociada com sua assessoria de imprensa. Pois lá estava a velha senhora sentada ao fundo de uma sala ampla, sozinha, de frente para a televisão, assistindo a um capítulo de novela.

Depois dos cumprimentos de praxe, ela continuou atenta ao que se passava na tela. “Exagerou”, exclamou, com o olho clínico, sobre a performance de uma atriz.

A revista traz a entrevistta com Tônia

Impressionou-me a fragilidade física que já exibia, ao mesmo tempo em que mostrava dificuldades de relembrar detalhes e nomes. Mas ainda tinha muita vivacidade e conversava com entusiasmo sobre os temas que foram surgindo na conversa.

“Eu queria ser Cacilda Becker”, contou, ao mencionar a grande estrela do teatro brasileiro que marcou o início de sua carreira. “Ela era extraordinária”. Talvez por isso a sua peça preferida, entre as inúmeras em que atuou, tenha sido “Seis personagens à procura de um autor”, de Pirandello, em que fazia o papel da enteada.

“Foi a que eu mais gostei, sobretudo porque várias pessoas que trabalharam com Cacilda disseram assim: ‘Agora você está melhor do que ela’. Pronto!” No cinema, elegeu “Tico-tico no fubá”, que filmou no auge da beleza e juventude.

Em contraste, foi na velhice que encontrou o segundo papel de sua preferência no cinema, em “Chega de Saudade”, um retrato sensível e triste do envelhecimento e os afetos que encerra. “Cumpriu aquilo tudo que a gente esperava, não decepcionou”, comentou sobre o filme em que foi dirigida por Laís Bodanzky.

“O meu grande papel na televisão? Stella, a minha personagem em ‘Água Viva’ (novela da TV Globo). Teve muito impacto na época. As pessoas adoravam! Discutiam na praia, discutiam em todo lugar”. Em meio às lembranças evocadas na entrevista, ela mencionou a mãe, que enfrentou a doença de Alzheimer por longo tempo.

Quando ia visitá-la, Tônia disse que a mãe ficava intrigada por receber flores da filha. “Quem é você? Por que está me trazendo flores?”, perguntava. É o tempo e o manto cinzento do esquecimento, como diria um verso de Chico Buarque.

O depoimento de Tônia Carrero e de outras atrizes podem ser lidos na revista publicada pela Tema. Mais precioso ainda é o DVD do filme “O Crime da atriz”, que está à venda juntamente com a publicação. Trata-se de uma comédia ambientada no final do século 19, em Minas, e que homenageia esses seres luminosos que vivem da arte de interpretar.

Acesse www.temaeditorial.com.br para conhecer mais sobre esse trabalho e visitar loja virtual da editora.

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