Cada um tem uma. Qual é a trilha sonora da sua vida?

Maria Bethania  cantando “Tocando em frente”, de Almir Satter e Renato Teixeira

Maria Bethania cantando “Tocando em frente”, de Almir Satter e Renato Teixeira

Déa Januzzi –

O vídeo de Maria Bethânia cantando “Tocando em frente”, de Almir Satter e Renato Teixeira, surgiu certa manhã no facebook, compartilhado por alguém que não conheço. Nem está na minha lista de “amigos”. Automaticamente, liguei o som do vídeo que me levou para o ano de 2008, quando minha mãe, de 91 anos, estava internada num hospital de Belo Horizonte. Sem televisão, presa à cama, pedi à burocrática equipe médica para levar um aparelho de som para que minha mãe pudesse ouvir a música, uma das que ela mais gostava nos últimos tempos da sua vida.

Hesitante, a equipe clínica do hospital cedeu, depois de muita negociação. “Ando devagar/Porque já tive pressa/E levo esse sorriso/Porque já chorei demais/Hoje me sinto mais forte/Mais feliz, quem sabe/Só levo a certeza/De que muito pouco sei/Ou nada sei/Conhecer as manhas/E as manhãs/O sabor das massas/E das maçãs…”. Os olhos de Amélia se acenderam, suplicaram por repetições do último verso: “Todo mundo ama um dia/Todo mundo chora/Um dia a gente chega/E no outro vai embora/Cada um de nós compõe a sua história/Cada ser em si/Carrega o dom de ser capaz/E ser feliz”.

Os olhos de Amélia esqueceram a dor e o medo, apesar de não aguentar mais viver, depois de muitos martírios.Mas o efeito da música foi imediato. Recorrer à música foi um santo remédio, depois que a medicina tradicional não podia mais oferecer outro caminho para aliviar a dor de Amélia que estava sofrida demais para lutar pela vida.
Ah, um parênteses só para dizer, que a música cantada por Bethânia ganhou centenas de curtidas e compartilhamentos nas redes sociais.

Hoje, a medicina já sabe que a música é um poderoso aliado. Um remédio que não precisa ser comprado em nenhuma farmácia nem tem efeitos colaterais ou contra-indicações. A editora-chefe do site Jolivi, FernandaAranda, citou o poder da música com outro exemplo. Os versos da música “Fascinação”, gravada por Elis Regina. “O teu corpo é luz, sedução/Poema divino cheio de esplendor. Teu sorriso prende, inebria e entontece. És, fascinação, amor”. Ao lado da mulher e da enfermeira chefe e já em estado grave, um paciente acompanhou a trilha sonora, entoando em forma de declaração de amor.

A pesquisadora explicou que a música pode proporcionar o gerenciamento do processo de dor – propriedade de atuação fundamental para controlar este sintoma – mas que não está disponível em nenhuma caixa de medicamentos.

Nesses casos, é preciso fazer com que a pessoa tenha acesso a recursos de manejo da dor, conseguindo identificar o que pode resultar em mais ou menos sintomas, desviando o cérebro desse percurso dolorido e liberando substâncias que contribuam para que o corpo fique em situação de bem-estar. “Em uma analogia, podemos dizer que as melodias desempenham o papel de verdadeiras “gerentes” da dor, proporcionando a organização da causa do problema e não tentando apenas reverter as sequelas.”

Pois é: comprovado cientificamente o uso da música como terapia para dor, vou fazer a própria lista de músicas. Confesso que amo as “Quatro Estações”, de Vivaldi, mas a minha dor física e espiritual pode passar também com algumas músicas de Caetano Veloso, Chico Buarquee principalmente “Se eu quiser falar com Deus”. De Gilberto Gil.

Peço ao meu filho e aos amigos que toquem músicas ciganas para mim quando estiver doente, no hospital – e até no dia do meu sepultamento. Quero música na minha despedida. No dia em que estiver indo embora para outro mundo, quero ouvir as canções que compuseram a trilha sonora da minha vida. Pois para mim as drogas mais poderosas, que me viciam, que me tornam dependentes são literatura, música, arte e cinema.

Não satisfeita, fiz ontem uma enquete musical com amigos que participavam de um ritual sagrado no Espaço Arte e Vida, da artista plástica Juçara Costa, de 63 anos, que foi a primeira a responder, sem pensar. “A minha música é “Ave Maria”, de Gounod”.

Depois foi a vez de Kalluh Araújo, de 54, que é diretor de teatro, cenógrafo, figurinista, iluminador e cantor. “Minha vida é muito musical”, disse Kalluh, que escolheu, entre todas, “Rosa dos Ventos”, de Chico Buarque, “por ser apocalíptica e ter o poder de acordar a humanidade”.

https://youtu.be/ogDKrVL0aHQ

A terapeuta francesa Julie Monin, de 36, disse que a música capaz de fazê-la transcender a dor é “Forgiveness” cantada por Enrique Iglesias.. A psicóloga e pedagoga Ana Rita de Macedo Moura, de 61, não teve dúvida. A música que faz curar as suas dores vem de uma cantiga da roda, “Se essa rua fosse minha”. A astróloga e arte-terapeuta, Sônia Duarte, de 60, diz que é “Jesus, Alegria dos Homens”, de Bach. O músico Chico Pottier, de 57, nem piscou para responder: “Evie”, de Johnny Mathis. Ele gosta tanto dessa música que a sua neta também se chama Evie.

A música faz milagres. É capaz de despertar emoções até em pacientes com a doença de Alzheimer, que não reconhecem mais nem os filhos. A Academia Americana de Alzheimer divulgou no jornal científico The Lancet que a música, especialmente a que marcou a vida do paciente, pode acalmar, equalizar batimentos cardíacos, organizar pensamentos e auxiliar na localização de tempo e espaço. Tenho uma amiga psicóloga que nasceu no Uruguai, mas vive há tempos no Brasil.Marisa Sanabria comprovou que a música é remédio para pessoas com Alzheimer. “A última vez que estive com meu pai, em 2014, antes de sua morte, nós dois escutamos um senhor cantando tangos. Ele amou e se emocionou. Tinha a doença de Alzheimer e não me conhecia mais”.

E você, qual é a sua playlist para as horas de dor, capaz de prevenir até a demência senil?Conte para mim. Vamos fazer a trilha sonora de nossas vidas?

Essa crônica de Déa Januzzi foi publicada pela primeira vez no 50emais em novembro de 2015.

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Um comentário

  1. Sempre acreditei que música alivia dores e até cura enfermidades. Muitas músicas citadas acima fazem parte de minha trilha sonora. Amei esta crônica,Déa; Você é D+++++

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