Carta da filha à mãe que partiu para a sua derradeira viagem

Ela veio ao mundo com alma de artista. Dançou balé no colégio e dança de salão com meu pai. Fez teatro no colégio e dirigiu peças infantis com seus alunos da Escola Cinderela. E, imaginem, teve um violino e o tocou algumas vezes antes que ele empenasse, depois de ter ficado inadvertidamente esquecido debaixo de uma goteira…

Gislayne Avelar de Matos

Minha mãe era dada a belezas! Nos últimos anos que passamos juntas, pude compreender isso: que minha mãe era dada a belezas. Estivemos tão próximas e experimentamos tantos estados de alma em seus últimos anos de vida…! Tivemos ambasmomentos de grande alegria, de risos soltos, e também de profunda tristeza.

A vida costuma mudar suas formas de tempos em tempos, assim como as estações, que tanto podem encher-se de verde quanto de cinza, tanto podem trazer as águas quanto a secura.Não foram fáceis os primeiros anos em que ela precisou adaptar-se a uma nova casa, com outras pessoas a habitarem seu entorno e, até então, desconhecidas. Para mim não foi fácil não trazê-la de volta a minha casa, ao final de cada um dos nossos encontros, em sua nova morada. Mas, aos poucos, fomos construindo, para ela e para mim, uma rotina própria a esses novos tempos.

Nas manhãs de domingo passeávamos à beira da Lagoa da Pampulha e tomávamos água de coco na pracinha. O assunto de sua preferência era sempre o mesmo: o neto Guilherme. Depois, Olívia, a bisneta recém chegada ao mundo, também passou a fazer parte do nosso assunto preferido nas manhãs de domingo.Tudo que eu dissesse a ela a respeito dos dois era motivo de orgulho ou de preocupação. Claro! Afinal, para ela o neto era o ser o mais encantador, o mais inteligente, o mais talentoso e bonito que Deus colocara no mundo! E agora a bisneta, criança mais encantadora nunca vira!”Também… com uma mãe tão linda como a Karine e um pai como meu neto não poderia ser diferente”, ela dizia.

Mas, além do orgulho,havia também as preocupações. Essas sempre referiam-se à mesma temática: trabalho.”Ele está trabalhando?” , “É um bom trabalho?”, “Ele está mantendo bem a família?”, “Ele gosta do que faz?”,“O chefe aprecia seu trabalho?”, “Não está faltando dinheiro?”É bem verdade que ela situava o neto nos tempos em que ela própria vivera e nas experiencias que ela mesma tivera, com trabalho, com sobrevivência, com falta ou com abundância…

As fofocas e as maledicências não desciam-lhe bem, claro! Ela era dada a belezas e esse tipo de conversa além de inútil, de beleza, nada tem.

Fora as caminhadas, tínhamos os almoços no Restaurante Xapuri. Para esse programa era indispensável convidarmos a Dalvinha. Também agradava-nos assentarmo-nos nas cadeiras de balanço da varanda em dias de chuva, para sentirmos o cheiro da terra molhada. Foi assim, num dia de chuva, no jardim, que ela adotou três mantras que repetia incessantemente, enquanto as palavras ditas ainda lhe pareciam importantes. Os mantras eram:”Deus é muito bom para mim!”, “Que beleza!”, “Que delícia!”.

Passei a tratá-la um pouco à maneira como as mães fazem com suas crianças para ensinar-lhes sobre os sentidos. Mostrava-lhe cada nova flor que aparecia no jardim. As rosas eram suas preferidas, sobretudo as vermelhas, que ela dizia serem da qualidade “Príncipe Negro”. Sempre me relembrava de que essas rosas, de vermelho escuro, pétalas suculentas e perfume delicado, tinham esse nome. Ela as cultivara em seu jardim, lá em Lagoa Santa. “Que beleza!”, dizia a cada flor do jardim. Mas o perfume mais apreciado nem era o das rosas, era o dos cachos de pequenas flores e das folhas do pé de mirra.“Que delícia!”, era o que dizia depois de fechar os olhinhos, que já começavam a ficar pequenos e aspirar profundamente o perfume. “Que delícia!” era também o mantra para a água de coco e para o picolé que eu levava sempre ou que tomávamos na lanchonete da esquina.

Aos poucos nossa vida a duas foi delineando-se em outros moldes.Depois de uma queda devida a fraqueza dos ossos já envelhecidos, mesmo com a fisioterapia, as caminhadas ficaram difíceis e dolorosas. Mudamos para os passeios em cadeira de rodas. O trajeto era o mesmo, várias voltas pelo jardim e, depois, pela varanda em torno da casa.

As conversas deixaram de ser interessantes. Passamos aos cantos. Ela tinha predileção pela cantiga: “… A treze de maio, na cova da Iria…” e pela música “…Índia, teus cabelos nos ombros caídos…” Cantávamos juntas, eu fazia soprano e ela contralto. Depois as palavras musicais também deixaram de ter importância, então, apenas solfejávamos.

O silêncio começou a ocupar nela o lugar das palavras faladas ou cantadas. Agora só eu falava, cantava ou solfejava. Introduzi um novo repertório musical que ia da Bossa Nova à Edith Piaf passando pelas músicas “Amazing Grace” e “La Golondrina”. Ela parecia relaxar nesses momentos musicais. Fiz então uma seleção de músicas clássicas e levei para que pudessem colocar no quarto dela para que ela ouvisse.

As rosas eram suas preferidas, sobretudo as vermelhas, que ela dizia serem da qualidade “Príncipe Negro”

Nossa comunicação em modelo convencional, ou seja, conversas, cantorias, solfejos foi desaparecendo aos poucos. Ela fazia sons, às vezes incompreensíveis, como resmungos e às vezes fazia dueto em grunhidos agudos e graves, com Rosemberg, um colega da casa. Vez por outra dizia coisas que as cuidadoras compreendiam e contavam-me entusiasmadas.

Ela já não sabia mais quem eu era, ao menos pelos modos convencionais, mas os afetos não desapareceram. E se ela não sabia mais quem eu era, isso pouco importava-me, pois eu sabia quem era ela, e isso bastava-me.

Nossa comunicação passou a ser essencialmente física. Eu acariciava os seus cabelos, segurava as suas mãos, massageava os seus pés e as suas pernas, acariciava o seu rosto. Às vezes ela relaxava com o toque, às vezes ficava brava e me empurrava.

Introduzi a oração em nosso contato: ao mesmo tempo em que a acariciava, rezava. Não foi com ela que aprendi a rezar, foi com minha avó Dos Anjos e isso desde pequena. Sentia-me muito importante cumprindo o nosso ritual de ir à missa das seis. Levava debaixo do braço magrinho meu missal de criança – que tinha mais desenhos que orações – meu tercinho de madrepérola e o véu. Esse, de todos os apetrechos sagrados, era para mim o mais fascinante.

Comecei a perceber que minha mãe tornava-se, pouco a pouco, essência pura.Imagino que a essência pura não precisa de palavras, e às vezes nem de toque, mas de oração, sim, mesmo que eu a fizesse em silencio, tocando alguma parte do seu corpo, ela ficava mais serena. Deduzi, então, que a essência aprecia mais o silencio. E a oração silenciosa passou a ser-lhe um deleite. É como levar a alma para beber água quando ela sente sede em seus desertos. Nosso contato passou a ser basicamente por meio do silencio.

E numa comunicação de essência a essência resolvemos nossas diferenças, porque, claro, mães e filhas costumam ter suas diferenças. E pude descobrir de verdade, que elas foram indispensáveis ao crescimento de ambas. Afinal para que servem as desavenças senão para praticarmos o perdão? E se há algo que aprendemos, é que, o vôo das almas em seu regresso ao lar de origem requer leveza nas asas. Seguimos, assim, perdoando-nos, em silêncio, e agradecendo pela oportunidade de termos vindo a este mundo como mãe e filha.

Chegou ao mundo seu segundo bisneto, Oscar. Ela o conheceu numa foto no celular: “Veja seu outro bisneto, ele se chama Oscar e é lindo”,eu disse. Ela arrebatou de minha mão o celular, o beijou e o abraçou e assim, com ajuda da tecnologia, ela abençoou, em silêncio e ternamente, seu segundo bisneto.

Já que agora o silêncio era-nos mais prazeroso, aproveitava os momentos que passávamos juntas para buscar, em minha própria infância, os melhores exemplos que dela recebi. E também para lembrar-me do seu jeito, dos seus modos, das suas singularidades.

Assim, trouxe da memória mais remota a cor dos xampus que ela comprava na Perfumaria Lourdes, quando vinha a Belo Horizonte, o cheiro bom dos cremes de beleza que trazia junto… Lembrei, com encanto, dos vestidos novos que Lia de Orcalina costurava para que ela estreasse a cada baile no Lord’s Club.

A mim, ela também fazia questão de enfeitar com arcos, brincos, meinhas brancas com rendas e sapatinhos de verniz, completando a toalete com vestidos de organza, de fustão ou de cambraia, sempre bordados.Claro! Minha mãe era dada a belezas.

Pudera! Ela veio ao mundo com alma de artista.Dançou balé no colégio e dança de salão com meu pai. Fez teatro no colégio e dirigiu peças infantis com seus alunos da Escola Cinderela. E, imaginem, teve um violino e o tocou algumas vezes antes que ele empenasse, depois de ter ficado inadvertidamente esquecido debaixo de uma goteira…

Se não pode desenvolver em plenitude seus talentos artísticos, pois naqueles tempos isso não era apropriado a uma moça de bem, os guardou em um canto da alma e os liberou agora, ao final de sua vida, vendo o belo em tudo e em todos. “Que beleza!”

Alma de artista tem inquietações e quer transformar tudo. Alma de artista quer reinventar o mundo, enchê-lo de belezas, consertar o que não parece bom e denunciar o que limita, impede, oprime.

Bem, ela não pode ser artista, no sentido estrito da palavra, mas o foi como educadora. Educadora, claro, pois esse ofício também é para artistas! Os educadores transformam o ser humano o elevando de uma condição de ignorância a uma outra, de conhecimentos. Educadores mudam o mundo. Sua matéria prima é o espírito humano aprendiz. Há muitas formas de se exercer essa arte. Dependerá de cada educador. Haverá sempre os que são tiranos, os que são desleixados, os que são incompetentes, esses não fazem arte, eles cumprem tarefas.

Mas minha mãe, não, pois ela era dada a belezas. Muitos dos seus alunos dirão que foi severa. Claro que foi, pois viver é uma arte e aprender que a vida pode ser severa faz parte dessa arte! Um professor com alma de artista tem, sim, o dever de ser severo, quando isso parece-lhe necessário para a transformação do seu aluno no melhor ser humano que ele possa vir a ser.Outros dirão que ela era carinhosa.Claro, isso também é importante, pois a vida, às vezes, mima-nos também. Educar é uma arte para aqueles que tem a beleza na alma.E minha mãe era dada a belezas.

Os últimos momentos que passamos juntas, antes da sua última viagem, foram de uma paz absoluta. Rezei e cantei para ela, a acariciei, contei-lhe uma linda história: “A lenda das Areias”, para ajudá-la a partir em paz e em confiança. Lembrei-me dos nossos melhores momentos e agradeci por tudo que, com o seu exemplo, ela ensinou-me sobre trabalho, honestidade, dignidade, inteireza, amizade, perdão, generosidade…

Obrigada, querida, voce regressou a seu lar de origem, depois de tão longa jornada! Tenho certeza de que ele é feito de beleza. Certamente, você agora está envolta em pura beleza.E talvez esteja dançando, dançando, dançando e alegrando os anjos que também habitam seu lar de origem…! Tenho a certeza de que o vôo de sua alma foi tranquilo, pois voce trabalhou pela leveza de suas asas.

Até um dia, meu amor, quando estaremos novamente juntas e você poderá ensinar-me sobre como comportar-me na eternidade do espírito e na essência divina. Continuarei amando-te, querida, e lembrando-me do que de melhor voce me deu.

4 comentários

  1. Ficou melhor com as rosas Maya. Legal você ter publicado, pois as catarses poéticas nos confortam e ajudam a superar. Outras pessoas poderão se aproveitar tabém
    Beijão
    Gis

  2. Neuza vieira de oliveira

    Fiquei emocionada. com o lindo texto da Gislayne. Conheci sua mãe. Fomos colegas em alguns cursos sobre Contacao de histórias.
    Acredito na paz do outro lado e que ela a encontrou.
    Carinho da Neuza

  3. Gislayne é uma excelente contadora de histórias e sabe com maestria encontrar as palavras certas que dão textura, cor e sabor a narrativa.
    O texto está profundo e delicado. Fiquei emocionada com a generosidade de poder ler algo tão pessoal, mas que de uma certa forma, de todos nós.

  4. Linda história. Lembrei de quando a minha mãe partiu…e eu não tive esta ideia de lhe agradecer por tudo o q aprendi com ela.

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