Coabitação, uma outra opção de moradia para quem passou dos 50

A artista plástica Mari Pini em sua casa, que compartilha com mais cinco pessoas Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Maya Santana, 50emais

Com o envelhecimento da população, um dos temas que mais se discute é moradia. Como deve ser a casa ou apartamento de uma pessoa que passou dos 50 ou 60 anos? Como evitar a solidão que a chegada da idade vai impondo, quando os filhos vão embora de casa? E se ele ou ela morre? Quem fica vai morar sozinho(a)? Diante do dilema, surgiu na Dinamarca o conceito de moradia compartilhada – coabitação ou cohousing, em inglês. A ideia já ganhou muitos adeptos na Europa e nos Estados Unidos. Em estágio inicial no Brasil, esse tipo de habitação incentiva laços afetivos, troca de experiências e serviços entre vizinhos.

Leia a reportagem de Cláudio Marquesa, do Estadão.

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Um conjunto de casas no mesmo entorno, com áreas comuns que aproximam os moradores. A ideia se assemelha a condomínios convencionais, mas ganha outra dimensão por causa do caráter quase filosófico do cohousing: estabelecer os vínculos afetivos entre pessoas e incentivar a troca de experiências.

Consolidado na Europa e nos Estados Unidos, o modelo começa a entrar no radar do mercado imobiliário no Brasil . Grupos de diferentes Estados tentam dar forma a essa espécie de comunidade neohippie, na qual a busca pelo coletivo não exclui nem diminui o indivíduo.

O arranjo espacial e a dinâmica de funcionamento defendidas estão em sintonia com a tendência moderna da chamada economia compartilhada. Além disso, o cohousing se apresenta como uma opção viável de moradia para idosos, por se adequar a algumas das necessidades características da faixa etária.

Professor de Gerontologia da USP, Jorge Félix alerta que o envelhecimento da população mundial amplia o número de pessoas dependentes. No entanto, as novas configurações de famílias, com menos filhos, e a inserção da mulher no mercado de trabalho, quem usualmente desempenhava a função de cuidadora, reduzem a tradicional rede de suporte do idoso.

Daí a urgência de discutir novos modos de habitação. Adaptações da construção civil não são suficientes, defende. “Modelos baseados no compartilhamento permitem a criação de laços. Isso é importante porque as condições de convivência interferem muito no envelhecimento, tanto nos aspectos físicos quanto emocionais.”

Quando a arquiteta Lilian Lubochinski se interessou pelo tema, há quase três décadas, ela tinha 40 anos. De lá para cá, algumas alternativas surgiram, mas, na sua opinião, poucas entendem as demandas do público grisalho. A “arquitetura socioafetiva” dos co-lares, como prefere chamar a modalidade, seria uma resposta que tem apelo.

A convivência entre os moradores se dá nos espaços coletivos, como cozinha – algumas comunidades fazem refeições juntas –-, biblioteca e lavanderia. Atividades em grupos são incentivadas, bem como a troca de serviços. Um casal de idosos pode, por exemplo, ajudar a cuidar das crianças dos vizinhos.

Não é só isso. Os processos de decisões – lembre-se de que não há uma convenção de condomínio– dão espaço a discussões em que a experiência dos longevos é bem-vinda. Numa sociedade que tende a “infantilizar e esvaziar a potência” de resolução de conflitos dos idosos, o cohousing surge como uma possibilidade agregadora, afirma Lilian.

Mercado. Ela diz ter certeza de que o cohousing pode ser lucrativo. “O desafio, aqui, é que não estamos falando de uma mercadoria pronta. Até porque isso já temos, são os condomínios.” Para a arquiteta, é necessário levar em conta o desejo de vínculos e o processo de formação dos grupos de interesse.

Félix faz ressalvas. Segundo ele, existem questões dentro do modelo que dificultam a atuação do mercado, como a definição de novos moradores. Para entrar na comunidade, o interessado precisa se adequar às normas combinadas. Acontece que é a coletividade que julga se ele se encaixa ou não.

Para o seu livro Viver Muito (editora Leya), que aborda o envelhecimento a partir de diferentes temas, o professor pesquisou a implantação do modelo em outros países. Com exceção dos Estados Unidos, as iniciativas encontradas geralmente vêm do Estado.

Um dos casos mais bem-sucedidos é o de uma cidade alemã que, por meio de um banco de dados, aproximou idosos já conhecidos. “Eram indivíduos que em algum momento da vida conviveram, seja na faculdade ou em outro espaço.” A preocupação em formar um grupo coeso e com um mínimo de afinidades é importante, diz.

Na avaliação do corretor Leo Ickowicz, há 29 anos no mercado americano, a possibilidade comercial do cohousing é pequena, mas cresce se o negócio focar em clientes idosos. “Essas comunidades surgem espontaneamente, por pessoas que têm um estilo de vida muito parecido. Mas acredito que dê para adaptar o conceito.”

O ideal, afirma, seria preservar a estrutura física e parte da dinâmica, que privilegia o convívio. Os grupos, porém, seriam formados por faixa etária, em vez de interesses particulares. Já a comercialização poderia ser feita por locações. Ou seja, seriam projetos construídos para locação.

Segundo Ickowicz, algo parecido já acontece e tem boa aceitação nos Estados Unidos, as chamadas “55+ Communities”. Elas costumam ser direcionadas a pessoas acima dos 55 e não permitem crianças. Gerontólogos criticam a restrição por considerá-la segregadora.

A coordenadora de Políticas para Idosos da Prefeitura de São Paulo, a fonoaudióloga e gerontóloga Sandra Regina Gomes, lembra que as nações europeias primeiro enriqueceram e, depois, chegaram à madurez. “O desafio do Brasil é maior, porque estamos envelhecendo rapidamente e ainda somos um país pobre. A maioria de nossos idosos vive com um salário mínimo.” Clique aqui para ler mais.

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