Depois dos 60 anos, não se faz sexo pelo prazer do momento

Depois dos 60 anos, os olhos querem, trocam, mas já compreendem que a sedução é mais do que o ato em si

Depois dos 60 anos, os olhos querem, trocam, mas já compreendem que a sedução é mais do que o ato em si

Déa Januzzi –

Por um momento nossos olhos se cruzaram. Um único instante, depois de tantos anos de acusações, de farpas, de culpas engasgadas na garganta. Por um momento nossos olhos se cruzaram sem a presença de outras pessoas para vigiar, disciplinar, julgar. Nossos olhos se cruzaram por um rápido instante e quase se engoliram. Nossos olhos fizeram sexo como se ainda fôssemos jovens. Mas se desviaram a tempo, porque não há mais chance para os olhos do passado.

Depois dos 60 anos, não se faz sexo pelo prazer do momento nem pelo tesão descontrolado dos hormônios, porque há muito eles se foram. Depois dos 60, o sexo vira amor e os olhos querem mais do que fúria. Querem calmaria. Depois dos 60, os olhos querem delicadeza, ternura, compartilhamento. Os olhos não se enganam mais, sabem vasculhar a alma, enxergam os erros, veem as consequências dos atos tresloucados do sexo sem cumplicidade.

Depois dos 60 anos, os olhos querem, trocam, mas já compreendem que a sedução é mais do que o ato em si. Os olhos querem ser abraçados, tocados, compreendidos em sua vastidão, em toda a sua profundeza. Não há mais tempo do sexo fugaz que pode pesar a vida da mulher. Depois de tudo, ela vai carregar um filho no ventre e nas costas por toda uma vida. O filho é a parte saudável e não pesa tanto quanto o momento de prazer sem compromisso. Afinal, o filho é a prova de que por um instante os pais se amaram. Ou fizeram sexo com paixão.

Mas depois dos 60 anos, os olhos não se enganam mais, estão acostumados com a falta de compromisso e de compaixão do outro, com o amanhã da solidão, com o anteontem das separações, brigas e falta de amadurecimento para ser pai e mãe de verdade.

Tenho amigas que descobriram o beijo na boca depois dos 60– e chegaram às nuvens. Nesta nova fase da vida, sexo tem que fazer cafuné na alma. E sabem onde fica o Ponto G dessas mulheres? Fica no coração, que tem de ser tocado com maestria, talento e competência, como se fosse uma música de Vivaldi, de preferência uma das Quatro Estações. As preliminares depois dos 60 podem durar a noite inteira, até acordar em gozo, gemendo de amor.

Por um momento nossos olhos se cruzaram e se reconheceram. Os olhos se lembraram das tentativas, do projeto de formar uma família, de viver junto, de construir uma vida em comum. Por um momento, os olhos se lembraram da primeira vez, da emoção de ter um corpo dentro do outro. Das lágrimas derramadas pela primeira e ardente vez. Da paixão que fulminou a razão.

Mas os olhos não mentem e se desviam rapidamente, sem outra chance. Os olhos se lembram de que foram aqueles mesmos olhares que seduziram uma mulher de 20 anos, que foi abandonada, sem gentileza, sem escrúpulo, sem resposta para toda a vida. Que foi degredada e teve que aprender sozinha a criar filho, mas com o apoio de outras mães sozinhas, de uma rede de solidariedade feminina.

Depois dos 60 anos, os olhos compreendem que é melhor não cair em tentação. E que é hora do adeus. Os olhos se cruzaram, se desviaram e se despediram.

Essa crônica de Déa Januzzi foi publicada pela primeira vez no 50emais em 2014.

3 comentários

  1. Gosto muito dessa crônica. Ela é verdadeira, sabe que o amor romântico tem o seu tempo.

  2. …“amor de outono”.
    É aquele que, depois de anos vividos,
    Alegres, laboriosos e sofridos,
    Qual Fênix renascida
    Surge das cinzas do passado.
    Não é ressurreição: é vida nova…
    Não é saldo de balanço: é formosa novidade.
    Não é consolo, é a alegria que ressurge.
    Para alguns, perda de tempo __ o tempo já passou…
    Para outros, senil desfaçatez.
    Mas todos erram: o amor não tem idade,
    Idade tem, a maneira de vive-lo.
    A cabeça prateada bem sabe o que lhe convém,
    E se o amor encontra, vive-lo somente importa.
    “Não é bom que esteja só”,
    Disse o Criador olhando a criatura.
    Por isso é no outono
    Que acaba a solidão das estações,
    Ao se unirem, definitivamente,
    Maduros corações!

    Dea, esses versos são pedaços de um poema de um conhecido/escritor, que também como voce elegeu Vivaldi, de preferencia Outono para “Amores de Outono”.
    Fiz um lindo power point com o poema e a musica e caso queira receber me envie seu email, para que possa desfrutá-lo.
    Abraço de Genoveva

  3. laudicenia soares de almeida

    sabe, eu ja me observei este modo de olhar, e rapidamente passar, ainda não tive o prazer de viver esse amor de outono, mas tem alguma coisa dentro de mim, que diz, esse é o melhor de todos, como disse muito bem o texto, passar a noite, embriagada de carinhos, e acordar ainda melhor, lindissimo e riquissimo texto, da para pensar que a vida de verdade começa aos 60, muito livre, bom, conciente,

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