Professora negra, 77, rouba a cena em Paraty falando do racismo

A professora estava na platéia. Tomou o microfone e fez muita gente chorar

A professora estava na platéia. Tomou o microfone e fez muita gente chorar

Maya Santana, 50emais

Impossível não se emocionar ouvindo o relato da professora Diva Guimarães, 77 anos, moradora de Curitiba, no Paraná, de como foi vítima do mais odioso racismo desde os cinco anos de idade, quando começou a trabalhar. A mesa da Feira Literária de Paraty era coordenada pelo ator Lázaro Ramos. Diva estava na platéia. Venceu a timidez, pegou o microfone e contou, chorando, sua amarga história (que você pode ver no vídeo, no pé desta página). Neta de escravos, ela foi aplaudida quando disse que, para os negros, a libertação ainda não veio. Comovido,Lázaro Ramos chorou abertamente. E, ao final, abraçou Diva. A professora ganhou notoriedade instantaneamente, como mostra este artigo de Liv Brandão, para O Globo.

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Diva Guimarães virou celebridade em Paraty, ofuscando até os escritores convidados da Flip. Após dar um emocionante depoimento sobre racismo na mesa que uniu o ator Lázaro Ramos e a jornalista Joana Gorjão Henriques para discutir o tema, a paranaense não consegue dar mais que dez passos pelas ruas do Centro Histórico sem ser abordada. Pessoas pedem fotos, abraços e até autógrafos. Na internet, o vídeo com o registro de sua participação foi visto mais de cinco milhões de vezes. E isso porque ela diz que coisa boa não dá ibope.

— Estou assustada! — confessa ela, admitindo estar também empolgada com a repercussão de sua fala. — Não me preparei para isso, se tivesse pensado, não teria levantado da cadeira, sou muito tímida. Naquela hora quis representar quem não pôde estar aqui. Falei ali pela minha mãe, pelos meus antepassados. Foi um renascimento, uma libertação.

A história que a fez vencer a timidez para narrar “com a alma” um episódio de racismo sofrido num internato católico de São Paulo (e que a levou para o espiritismo, por “pavor” do catolicismo), poderia ter sido tristemente substituída por outra, que viveu dias antes, em Paraty.

— Eu estava passeando pela rua, quando uma mulher me chamou de forma agressiva e disse: “aposto que esse cachorro que vem aqui e faz cocô em tudo é seu!”. Por que aquele cachorro tinha que ser meu? Ele poderia ser de qualquer outra pessoa. Eu apenas disse: “eu sei porque você está dizendo que esse cachorro é meu”. É racismo. Às vezes eu ignoro, às vezes eu respondo de forma cínica, dessa vez falei no mesmo tom — explica. — Isso aconteceu aqui, na Flip, quando estão homenageando quem? Lima Barreto, que é negro. Nem todo mundo tem essa capacidade de compreensão — completa ela, dona de uma ironia fina, no melhor estilo do homenageado da festa.

Alfabetizadora e professora de educação física aposentada após 40 anos de trabalho, ex-velocista e ex-jogadora de basquete, esporte que ainda acompanha com paixão, Diva é neta de escrava com português, filha de uma lavadeira, que trabalhava em troca de material escolar para que a filha pudesse estudar. Adora ir ao cinema e ao teatro (“quando o preço do ingresso permite”) em Curitiba, onde mora, mas principalmente gosta de ler. Também se diverte contando suas histórias. Diva é muitas, mas não é vítima. E nem “dona” Diva. Só Diva. “Sou também uma sobrevivente”, enfatiza.

— Eu descontava a raiva pelo que acontecia comigo no esporte. Acho a melhor coisa para educar. O esporte disciplina, e ensina até mesmo a lidar com as frustrações e as injustiças. Educação física não é festinha – conta ela, que foi treinada por Almir Nelson de Almeida, “basquetebolista” que representou o Brasil nas olimpíadas de 1952, e considera Pelé o maior atleta de todos os tempos – Mas como pessoa influente, que poderia ter nos ajudado, ele falhou. Ele diz que não existe preconceito, é uma decepção.

Fã de Jorge Amado, escritor que “as pessoas leem como historinha, mas não captam as denúncias que ele faz”, veio para ver as participações de Lázaro Ramos e de Edimilson Pereira de Almeida, negros como ela (“me reconheço em todos”). Sempre quis vir à Flip e não reclama do chão de pedras “que contam seu passado”. Ela, que ajuda familiares, só conseguiu juntar dinheiro para participar da festa este ano, por insistência da sobrinha, Maitê, que veio na edição passada. Ao lado de Maitê e das amigas Elizabete e Maria Alice, a quem chama de “irmã”, pegou um avião que fez escala em São Paulo, parou no Rio e encarou as 5 horas de estrada feliz e contente.

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Diva queria também conhecer Conceição Evaristo, escritora carioca que, no ano passado, levantou a voz contra a falta de negros na programação oficial da Flip. Avessa à tecnologia (“Google é nada, meu negócio é dicionário”), não acompanhou a polêmica que originou mudanças profundas no evento, que pela primeira vez em 15 edições traz mais convidadas que convidados e aumentou a participação de negros em 30%. Chorou copiosamente ao abraçar a nova amiga (“são lágrimas de resistência”, disse Conceição).

O ator Lázaro Ramos, que coordenava a mesa, não conteve o choro. No final, abraço a professora

O ator Lázaro Ramos, que coordenava a mesa, não conteve o choro. No final, abraço a professora

Conta en passant que passou frio e passou fome, mas hoje vive bem e já não se deixa abater pelo racismo. Quando percebe que está sendo seguida por um vendedor em uma loja, gosta de “dar nele uma canseira”, andando de um lado para o outro. Levanta a voz contra a hipersexualização da mulher negra e, com segurança, conta que não quis ter filhos para que eles não passassem pelo sofrimento que ela passou. Fica ofendida quando perguntam se ela tem uma cuidadora (“a cuidadora de mim sou eu mesma”). Diz que, se ganhasse R$ 1 a cada visualização de seu vídeo, construiria casas populares. No fim das contas, apesar do susto, admite se divertir com o carinho recebido dos novos fãs.

— As pessoas estão falando que eu virei verbo! Eu divei, tu divaste, ele divou. Mas eu divei mesmo — ri, envergonhada.

Veja o que Diva Guimarães disse na Feira Literária de Paraty na sexta-feira, 28 de julho. O vídeo virou febre e já foi visto por mais de cinco milhões de pessoas:

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4 comentários

  1. Vânia sabatier de Oliveira Simões

    Precisamos de levar isto a todos os brasileiros para que vejam que há união, raça, coragem, fé e determinação, que nada pode deter o poder da educação, dos estudos e da vontade própria.

  2. Depoimento maravilhoso… Muito triste mas que ao mesmo tempo demonstra garra, sabedoria e o racismo ainda tão presente nos detalhes. Merece todo o reconhecimento… Com certeza a Diva divou!!!!!

  3. Um depoimento emocionante e que escancara para nós a escravidão pseudamente extinta, o racismo que graça pelas ruas,ao mesmo tempo que nos mostra a beleza da força, da humildade, da clareza de lugares e posição e ainda, a necessidade urgente de uma boa educação para todos. Viva Diva e a força da nossa ancestralidade.

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