Em “Me Diga Quem Eu Sou”, jornalista narra como é ser bipolar

Helena Gayer, a autora, fala das dificuldades de conviver com a doença

Maya Santana, 50emais

Náo conheço ninguém que sofra de bipolaridade. Mas sei que a doença afeta 1% da população e que as pessoas diagnosticadas com o transtorno bipolar sofrem muito, porque. de uma maneira geral, nem mesmo parentes e amigos entendem o comportamento errático dos afetados pela doença. Helena Gayer, jornalista gaúcha, recebeu o diagnóstico quando tinha 21 anos de idade. De lá para cá, precisou ser internada várias vezes e vive em tratamento. Especialistas afirmam que na terceira idade o transtorno bipolar é mais comum nas mulheres, talvez porque elas vivam mais, numa proporção de 2 a 3 mulheres/homem. Na sua autobiogra, Diga Quem Eu Sou”, Helena conta o seu drama particular, convivendo com a doença desde muito jovem.

Leia o depoimento da jornalista publicado na revista Donna, do jornal Zero Hora:

Hoje, é comum ouvir piadinhas sobre bipolaridade. Mas o que significa ser bipolar? Talvez eu possa ajudar contando um pouco do que tenho passado até aqui. Em meu livro Me Diga Quem Eu Sou, falo um pouco de como é a minha experiência com este transtorno de humor. Fui diagnosticada aos 21 anos, mas já sofria de depressão intercalada com períodos de uma alegria sem razão de ser desde os 14. Tudo começou com a separação de corpos de meus pais; no entanto, desde muito pequenina, eu era bastante introspectiva. Na adolescência, mesmo passando por episódios de depressão em que afundava em minha cama, consegui ser a melhor de minha turma na escola.

Quando o médico me deu o diagnóstico de bipolar, disse que o meu caso era bastante sério. Contrariando qualquer timidez, meu primeiro surto (aos 21 anos) foi bombástico, com direito a prisão e dias e noites em claro pela paradisíaca Florianópolis, experimentando o delírio de me achar uma enviada divina. Inspirada no livro Do Jardim do Éden à Era de Aquarius, que lera aos 19 na casa de um colega do curso de Oceanologia em Rio Grande, me imaginava numa sociedade evoluída onde eu exterminaria o mal. Foram dias de um cansaço descomunal, em que perambulei insana pelas praias me envolvendo em situações perigosas e inusitadas.

A autobiografia de Helena

Eu morava em Canoas e viajara com uma vizinha para Floripa. Ela, apavorada, chamou meu pai e ele foi me buscar de carro com uma amiga. Minha família não entendia o que estava acontecendo comigo e me internaram no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Depois de tudo, viria o retorno à realidade dentro do setor psiquiátrico e o recomeço. Assim aconteceu por inúmeras vezes. Era só observar os sintomas: pensamento acelerado, falta de sono e ideias absurdas recorrentes. Várias vezes, eu me expus sem a mínima noção de perigo e só saí ilesa nem sei como. A cada exposição, uma nova internação e um novo recomeçar. Assim foi em Florianópolis, onde, depois de tudo, até os policiais ficaram meus amigos.

Teve a vez em que dormi na praia de Canasvieiras e algumas amigas só foram me encontrar no outro dia pela manhã; o Carnaval em Pelotas, onde fui expulsa de um retiro espiritual e jogada na rua sozinha em plena madrugada; a noite em que escapei de três homens mal-intencionados por uma fração de segundos na praia do Cassino; ou quando, em surto, busquei pela minha sobrinha imaginária entre os jovens que se divertiam na noite de um final de semana em uma avenida movimentada da cidade. Meus surtos eram intercalados por períodos de sanidade em que eu voltava à faculdade de Jornalismo e me envolvia com questões sociais, como meio ambiente, direitos humanos e comunicação alternativa. Também nesses momentos eu buscava um mundo ideal e acabava me perdendo mais adiante em meus devaneios pelo fato de a realidade não corresponder ao que eu almejava.

Em certa ocasião, fui ao Rio de Janeiro e lá conheci uma turista alemã. Passeamos pela cidade sem que ela percebesse que eu estava surtada. Tempos depois, ela me mandou um cartão-postal. Respondi no meu inglês macarrônico, dizendo que na época eu estava maluca. Acho que ela não entendeu nada. Talvez porque eu estabelecia diálogos internos: explicando melhor, eu não falava dos meus pensamentos absurdos. Guardava-os para mim. Já imaginei que poderia me transformar num cavalo ou que entabulava um diálogo com uma baleia que, na realidade, era um imenso tronco de árvore. Já experimentei desde o frio numa cela de um hospital público até o conforto de uma piscina numa clínica particular. Os dois me privaram da liberdade. Tomei uma quantidade absurda de remédios, entre os quais o lítio se destacou. Passei por 10 internações e mais duas recentemente, com um intervalo de 10 anos.

Nesse intervalo, conheci meu marido, que tem sido meu grande companheiro nesta caminhada. As duas internações mais recentes foram muito doloridas, e ele sempre esteve ao meu lado. Fizesse chuva ou sol, nunca faltou a nenhuma visita. Precisei trocar de medicação, porque o lítio estava me intoxicando. Meu humor ficou instável e acabei discutindo com uma colega no trabalho. Aquele acesso de raiva ia contra tudo o que eu buscava naquele momento, inspirada em ideias de amor e compaixão do budismo. Eu passara por um intervalo de 10 anos em uma condição estabilizada e achava que tudo estava se encaminhando para um futuro de sanidade. Mas, de repente, tudo mudou. Clique aqui para ler mais.

Um comentário

  1. Quem nasce diferente….ADN a funcionar. Pior com economia débil!

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