Faz sucesso livro publicado após autora submeter-se a eutanásia

A escritora francesa Anne Bert, 60, sofrendo de esclerose lateral amiotrófica, buscou a própria morte numa clínica

Maya Santana, 50emais

Uma história comovente, contada por Álvaro Sanchez no jornal El País. A escritora francesa que, diagnosticada com uma doença incurável, decidiu por fim à própria vida, com ajuda médica. A escritora francesa Anne Bert, 60, sofrendo de esclerose lateral amiotrófica, buscou a própria morte numa clínica. Essa é uma doença neurodegenerativa fatal de causa desconhecida que acomete os neurônios motores, responsáveis pelos movimentos voluntários. Aos poucos, a pessoa vai perdendo a força muscular, o que afeta os movimentos, a fala e a deglutição, causando paralisia toral. É duas vezes mais frequente em mulheres. Como não existem clínicas que façam eutanásia na França, onde a prática é proibida, ela cruzou a fronteira e foi para a Bélgica. Lá, internou-se numa clínica e submeteu-se à eutanásia. Dois dias depois de sua morte, chegava às livrarias francesas seu livro, no qual relata seu drama a partir do momento em que ouviu do médico que seus dias estavam contados.

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Em outubro do ano passado, a escritora francesa Anne Bert cruzou a fronteira de seu país com a Bélgica, entrou pela porta de um hospital e deu o consentimento final ao médico que há meses supervisionava seu pedido de eutanásia. Era o fim de uma longa batalha: a tentativa fracassada da autora em convencer as autoridades francesas da necessidade de acabar com o sofrimento de doentes incuráveis legalizando a ajuda médica para morrer, proibida na França, mas permitida desde 2002 na vizinha Bélgica. Dois dias depois de sua morte em uma cama belga chegou às livrarias seu legado póstumo, Le Tout Dernier Été – O Último Verão, só disponível em francês. “Gosto de me levantar antes que amanheça, como se assim pudesse adiantar a chegada do dia. Nesta manhã acordei cedo. A noite foi curta. Há dois anos que a ELA rouba meus sonhos e corta em pedaços minhas noites vazias, já nunca tranquilas e profundas”, começa a narração.

Sua nova obra é um percurso emocional em que transita pelo angustiante momento em que o médico lhe informa que sofre de esclerose lateral amiotrófica, em 2015, e o leitor a acompanha pelo último verão, o de 2017, em que já tomou a decisão de encerrar sua vida com ajuda médica. No meio, a frustração diante da progressiva deterioração de seu corpo, momentos agradáveis com sua filha na praia com a eterna sombra da doença pairando a cada instante, e uma enorme impotência e incompreensão frente ao sistema de saúde francês, que só permite a sedação profunda até a morte, mas não aceita a eutanásia. “Adormecer um doente para deixá-lo morrer de fome e sede é realmente mais respeitoso à vida do que encerrá-la administrando um produto letal?”, disse em uma carta aberta aos candidatos presidenciais em um de seus últimos pedidos antes de se render à evidência de que morreria em terra estrangeira.

Como a maioria dos escritores, Anne Bert, de 59 anos, era pouco conhecida fora das fronteiras de seu país, e sua obra não foi traduzida. Romancista do “íntimo”, definição que preferia à habitual denominação de autora erótica com a qual era descrita, suas palavras não foram muito mais longe do que as prateleiras do estilo. Também não o fazem agora, mas com a notícia ainda quente de seu falecimento em um hospital belga, a centenas de quilômetros do lugar onde teria desejado morrer, seu livro entrou nas listas de mais vendidos da França com uma primeira edição de 40.000 exemplares e uma reimpressão de outros 30.000.

Bert não queria fugir para morrer. A ideia de estar em um local estranho em um momento de tanta vulnerabilidade emocional a horrorizava. Queria se despedir em seu país. “É escandaloso que na França precisemos ir ao estrangeiro para morrer com dignidade, como na época em que as mulheres precisavam fugir para abortar”, comparou. Batalhou contra essa obrigação de colocar quilômetros de distância para conseguir um médico que cumprisse sua vontade. Em seu último verão manteve uma longa e infrutífera conversa com a ministra francesa da Saúde, Agnès Buzyn, antes partidária da eutanásia, mas nos últimos tempos alinhada à posição do presidente Macron, que não considera a legalização da eutanásia uma prioridade.

A última publicação de seu blog, dez dias antes de seu adeus, foi dedicada a responder a um médico que a acusava de fazer turismo de eutanásia. “Confirmo que sim. Que diante de uma doença incurável e a morte que se aproxima, procurei – e encontrei – médicos profundamente humanistas que não me deixaram de lado”, respondeu. Clique aqui para ler mais.

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