Fernanda Montenegro: uma beleza que transcende a velhice

Walcyr Carrasco: “Sempre fui pessimista em relação à velhice. Meu olhar sempre se voltou para os problemas, as doenças. No entanto, diante de Fernanda Montenegro, descobri que a velhice pode ser uma fase intensa, cheia de vida, de emoções”

Maya Santana, 50emais

Este é um tributo do autor de novelas e escritor Walcyr Carrasco a uma das grandes mulheres desse país: Fernanda Montenegro, que acaba de completar 88 anos, e cai feito uma luva no conceito de longevidade ativa. No próprio dia do aniversário – 16 de outubro -, ela estava trabalhando, gravando a sua parte na novela O Outro Lado do Paraíso. O 50emais reproduz aqui o texto do autor, porque também acha que, se existe uma pessoa no Brasil que encarna o bem, a correção, a integridade de caráter, a civilidade e o saber envelhecer, esta pessoa é Fernanda Montenegro.

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Já admirava Fernanda Montenegro havia muitos anos. Era jovem quando assisti a sua magnífica interpretação em As lágrimas amargas de Petra Von Kant. Saí impactado. Fernanda pertence a uma geração de atores formada nos palcos. Nunca fez questão de ser a mais bonita, a exuberante. Ao lado do marido, Fernando Torres, já falecido, investiu sempre na carreira teatral. Surgiram a televisão, o cinema. Foi finalista do Oscar por Central do Brasil. Feio fez a Academia, ao não lhe dar o prêmio. Há pouco tempo, ganhou o Emmy por uma série da TV Globo.

Ainda vive em mim algo do menino de interior de São Paulo que fui um dia. Fico tímido diante de quem admiro. Em um evento da Globo, há dois anos, ela me abordou. Para minha surpresa, disse que gostaria de trabalhar comigo. Quase me ajoelhei. Explicou que já tinha mais de 80. Seria bom não demorar muito tempo, avisou. Óbvio, criei um papel para ela na minha novela atual, O outro lado do paraíso. Um personagem especial, inspirado em uma vidente que conheci no interior do Tocantins. Dia desses, fui visitar as gravações. No camarim, Fernanda, orgulhosa, se contemplou no espelho.

– Estou sem maquiagem.

Aviso. Ouvir isso de uma atriz, ainda mais de uma estrela como é Fernanda, é raríssimo. Não só de atrizes. Eu mesmo gostaria, quando dou entrevistas, de passar pelas mãos mágicas de um maquiador. Uma boa maquiagem elimina sinais de idade. Diante da iluminação, torna os rostos muito mais atraentes. Para uma atriz, abrir mão da maquiagem é o mesmo que expor todos os sinais do tempo, as marcas da vida. Fernanda, como a vidente Mercedes, não usa nenhum artifício. Também a observei nas entrevistas. Lúcida, com um raciocínio exato e conciso, ao fazer declarações sobre os recentes ataques a exposições de arte. Surpresa! Justamente no dia da minha visita, era seu aniversário. Haveria um bolo em sua homenagem. Coisa simples, apenas com o pessoal que estava no cenário, não mais de seis ou sete pessoas.

Cantamos “Parabéns”. Cortamos o bolo. Oferecemos um buquê de flores. Alguém comentou sobre o fato de estar trabalhando justo no dia do aniversário. Ela disse:

– Só tenho a agradecer por estar com 88 anos, aqui, gravando. Ser atriz é o que quis fazer toda a vida. Possuir condições físicas para trabalhar é uma dádiva. A oportunidade de ter um papel, de viver meu personagem, é a melhor comemoração que posso ter. Existe felicidade maior?

Cortou o bolo, ofereceu. Depois se retirou emocionada e majestosa. Porque uma grande atriz, mesmo nas roupas simples da vidente Mercedes, continua a possuir uma aura. Uma beleza especial que transcende a velhice, a passagem dos anos.

Sempre fui pessimista em relação à velhice. Meu olhar sempre se voltou para os problemas, as doenças. No entanto, diante de Fernanda Montenegro, descobri que a velhice pode ser uma fase intensa, cheia de vida, de emoções. No dia da estreia da novela, chovia. Também teve tiroteio no Rio de Janeiro, o que se tornou, lamento, habitual. Houve uma festa, perto dos Estúdios Globo, para atores e equipe assistirem ao primeiro capítulo juntos. Eu demorei uma hora e meia para chegar. Fui avisado. Fernanda não viria. Havia gravado o dia inteiro e voltado para casa. Precisava descansar.

Um comentário

  1. Ela nunca foi bonita, sexy, “aparecida”.
    Ela sempre foi culta, inteligente, majestosa.

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