Final triste de João Gilberto, o gênio criador da bossa nova

Aos 86, ele vive trancado em um apartamento no Leblon, não concede entrevistas, não fala com ninguém, não permite ser visto por ninguém. Segundo boatos, passa o tempo repassando obsessivamente as gravações máster de seus primeiros discos

Maya Santana, 50emais

Quando a gente termina de ler este artigo de Chema Garcia Martine para o El País fica a angústia de não compreender como João Gilberto, gênio reconhecido da música brasileira, chegou a essa situação. E como é que essa história profundamente triste vai terminar. João Gilberto, 86, é Patrimônio do Brasil. Na etapa final de sua vida, merecia dias mais tranquilos. O filho ilustre da Bahia passa por sérios problemas econômicos, vive trancado em um apartamento, no Leblon, no Rio.”Apenas poucos membros de seu círculo mais próximo têm acesso ao seu refúgio pessoal. Suas refeições são deixadas por um garçom na porta do quarto,” diz o artigo, acrescentando: “Não concede entrevistas, não fala com ninguém, não permite ser visto por ninguém. Segundo boatos, passa o tempo repassando obsessivamente as gravações máster de seus primeiros discos.”

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A história acaba no momento em que a cantora e compositora Bebel Gilberto se apresenta às portas da casa de seu pai, o também cantor e compositor João Gilberto, acompanhada de um oficial de Justiça. Nas mãos de Bebel, a notificação oficial da sentença que lhe outorga o controle dos bens e das contas de seu pai. Durante duas horas, ela esperará ser recebida por João, sem conseguir. Voltará dali a dois dias, com o mesmo resultado.

A interdição daquele que foi referência da música e da cultura brasileiras, já com 86 anos, coloca o ponto final em um drama sórdido como poucos. O Brasil, o mundo inteiro, assiste atônito. “Como chegamos a isso?”, pergunta Marcelo, dono de uma banca de jornal em um bairro da zona sul do Rio. “É como se tivessem declarado o Pelé como louco”.

Veja ele aqui com a filha Bebel Gilberto:

As origens do drama
Para entender o ocorrido, é preciso viajar longe no tempo. João Gilberto faz parte do núcleo fundador da bossa nova, que toda noite invadia o apartamento de Danuza e Nara Leão, em Copacabana. “João Gilberto implicava quando ouvia passarinhos cantando”, escreve a primeira em suas memórias. “Passarinhos, segundo ele, são muito desafinados”. A história mostra o que, para alguns, como Zuza Homem de Mello, cronista musical e amigo pessoal do cantor, é o sintoma de um desejo pela perfeição além de qualquer limite: “Minha imagem de João Gilberto é a de um quixote lutando para afinar um universo inevitavelmente desafinado”.

Pouco depois, o cantor emocionaria o mundo da música com sua interpretação de Chega de Saudade, composta por Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, editada como “samba-canção”, e considerada a primeira interpretação de bossa nova da história. “Aquele disco mudou a vida de várias gerações”, recorda Homem de Mello. “Sem ele, não existiriam Caetano, Gil ou Chico Buarque”.

Com os conterrâneos Caetano Veloso e Gal Costa

Do Rio a Nova York, na noite de 21 de novembro de 1962. A apresentação da bossa nova à sociedade tinha reunido “Manhattan inteira” no Carnegie Hall. Minutos antes de subir ao palco, João Gilberto entra em pânico. Sua participação no evento está por um fio, ou por uma linha. A de sua calça. Finalmente, tudo não passou de um susto… para a organização do evento. Vendido no Brasil como referência simbólica – “a música brasileira conquista o mundo” – o concerto do Carnegie Hall foi um fracasso de dimensões colossais, o que não impediu que alguns dos participantes – Sérgio Mendes, Jobim e o próprio João Gilberto – saíssem com a decisão tomada de se estabelecer nos Estados Unidos.

Um ano mais tarde, João Gilberto regressa aos estúdios de gravação junto com sua então mulher, a cantora Astrud Gilberto, para um tête-à-tête com o saxofonista de jazz Stan Getz. O disco, contendo as interpretações canônicas de Corcovado e Garota de Ipanema, vem abalar as estruturas de um mercado dominado pela beatlemania. Não importa que Astrud Gilberto não fosse, exatamente, a melhor cantora do mundo. O pianista Chick Corea, que passaria a fazer parte do quarteto de Stan Getz pouco tempo depois, contaria mais tarde: “De algum modo, o sucesso do disco foi uma maldição para seus dois protagonistas”.

Getz, a quem a bossa nova transformou no músico de jazz mais bem pago da história, investirá seu faturamento na compra de uma mansão em um bairro nobre de Nova York, à qual irá atear fogo em uma noite de vinho e algo mais do que rosas; pelo mesmo preço, viverá um sonhado romance extraconjugal com a mulher de João Gilberto, e continuará recebendo substanciosos royalties por conta de suas interpretações de bossa nova. Com uma particularidade: o saxofonista, que logo depois viria a eliminar qualquer referência à bossa nova em seu repertório, detestava o gênero. Clique aqui para ler mais.

2 comentários

  1. Muito triste…….

  2. Maria da Conceição Nunes

    Não conhecia esta parte da história de um dos mais intrigantes intérprete e compositor bahiano apesar de ser bahiana. Muito triste mesmo.

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