Finalmente, os Estados Unidos se rendem a Tarsila do Amaral

Tarsila pintou Abaporu, talvez sua obra mais famosa, em 1928 – um presente para o marido Oswald de Andrade

Maya Santana, 50emais

Excelente este artigo de Sandro Pozzi e Tom C. Avendño para a versão brasileira do jornal espanhol El País, sobre o fato de, pela primeira vez, um museu americano expor o trabalho de Tarsila do Amaral, a venerada pintora que figura entre os maiores nomes das artes plásticas brasileiras. Mas, 45 anos após sua morte, a chegada de Tarsila aos Estados Unidos será grandiosa: uma retrospectiva com toda a sua obra (coisa rara), realizada no prestigioso MoMa, Museu de Arte Moderna de Nova York.

Paulista de Capivari, Tarsila nasceu numa família milionária. Com a crise na bolsa de NY, em 1929, os pais perderam a fortuna. E ela passa por dramas que marcam sua vida: perde a fazenda onde morava, o marido, Oswald de Andrade a deixa para se casar com a ativista Patrícia Galvão, Pagu; é presa pela ditadura Getúlio Vargas, acusada de subversão. Mais tarde, fica paralítica em consequência de um erro médico durante uma cirurgia de coluna e, no ano seguinte, 1966, perde a única filha, Dulce, consumida pela diabetes. A “artista símbolo do Movimento Modernista Brasileiro” morre em janeiro de 1973, aos 87 anos, em consequência de depressão. Difícil pensar numa morte triste assim de quem pintou quadros tão cheios de vida, com cores tão fortes e vibrantes.

Tarsila do Amaral morreu aos 87 anos, em 1973, na capital paulista

Leia mais sobre a exposição no MoMa de Nova York:

“Quero ser a pintora do meu país”. Com essa frase começa a retrospectiva que o Museu de Arte Moderna de Nova York dedica este mês à mulher que escreveu essa frase em 1923: a brasileira Tarsila do Amaral (1886-1973). A exposição é uma viagem de ida e volta entre São Paulo, seu estado natal, e Paris, onde a artista estudou na famosa escola internacional Académie Julian e misturou as ideias da arte moderna com a estética de seu país. Quando terminou o experimento, ela tinha se tornado uma das pintoras mais importantes da história do Brasil e, por extensão, de toda a América Latina.

Operários é o maior quadro da pintora, que o considerava sua obra mais importante

A amostra tem o valor especial de ser a primeira vez que a autora chega aos Estados Unidos. Já havia sido reconhecida em outras partes da Europa, como quando a Fundação Juan March dedicou-lhe uma exposição em 2009, em Madri, que foi o grande sucesso da temporada. Mas esta é uma das poucas retrospectivas que mostram toda a obra e como sua linguagem visual amadureceu, desde que em Paris aprendeu lições de André Lhote, Albert Gleizes e Fernand Léger até fazê-las suas com as cenas cotidianas e as cores brasileiras.

Luis Peréz-Oramas, ex-curador de arte latino-americana do MoMA, aponta um quadro que, segundo ele, sintetiza a exuberância pela qual se pode reconhecer Tarsila: A Cuca, de 1924. Alude a uma criatura que no folclore brasileiro se dedica a assustar crianças (como o coco espanhol). No quadro, é um bicho inquietante, mas nem um pouco grotesco, que também se encaixa perfeitamente na paisagem, estilizada no estilo cubista, mas a combinação é a mais brasileira possível: linhas curvas e cores fortes.

Cuca, criatura que no folclore brasileiro se dedica a assustar crianças

“Ela inventou uma nova forma de figuração para a arte moderna brasileira”, aponta. Outra imagem arquetípica da artista é A Negra, que mostra uma mulher negra inexistente, extraída das (geralmente racistas) lendas brasileiras: alguém com lábios e braços enormes, olhar estático e seios caídos. Atrás dela, as formas abstratas que Alfredo Vopi aperfeiçoaria mais tarde e que se tornariam a norma da arte brasileira a partir da década de quarenta. “Evoca a emancipação racial e política”, diz o curador da exposição.

A Negra “evoca a emancipação racial e política”

Também faz parte da retrospectiva aquela que talvez seja sua obra mais famosa, Abaporu, pintada em 1928 como um presente para o marido, o poeta Oswald de Andrade. Representa – por meio de um humanoide desproporcionado, com um pé grande como uma montanha – uma criatura que come carne humana. A antropofagia era uma obsessão da avant-garde parisiense da década de 1920, obcecada com as práticas do canibalismo. “Nasceu assim um estilo distintivamente novo e distintivamente brasileiro”, explica Pérez-Oramas.

Mas no Brasil, o quadro foi decisivo para o lugar que Tarsila ocuparia no imaginário coletivo. Como o trabalho pretendia ser um símbolo de como a cultura brasileira ressurgia da “digestão” das influências externas, o célebre sociólogo Sérgio Buarque de Holanda escolheu essa imagem para a capa de seu livro fundamental, Raízes do Brasil, ainda hoje o compêndio definitivo das psicoses do país. Oitenta anos e inúmeras edições com o Abaporu na capa depois, Tarsila é, por irremediável associação, a retratista oficial da alma brasileira. Clique aqui para ler mais.

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