Fiz cirurgia de catarata e os meus olhos se acenderam

Acenderam os meus olhos, por meio de uma cirurgia que não dura nem meia hora em cada olho

Acenderam os meus olhos, por meio de uma cirurgia que não dura nem meia hora em cada olho

Déa Januzzi

A luz voltou, depois de um tempo no lusco-fusco da vida, com tombos, tropeções em pequenos buracos, mas praticamente invisíveis para quem nasceu míope. Sempre usei óculos de grau, até que descobri as lentes de contato e um mundo menos embaçado. Nasci com olhos míopes, mas me acostumei a pôr e tirar os óculos e as lentes de contato a cada noite, toda manhã. Não sabia o que era acordar enxergando.

O tempo passou, até descobrir que, além da miopia, a catarata – doença típica do envelhecimento – cobria tudo em névoas. Pedi socorro aos oftalmologistas, Ricardo e Márcia Guimarães, do Hospital de Olhos, fontes de muitas reportagens e depois amigos por admiração e respeito mútuo. Muito antes que o casal não pudesse mais exercer a missão de operar seus pacientes, por causa de um violento acidente aéreo. Quatorze anos depois, eles dirigem o hospital, fazem pesquisas e colocam em prática projetos inovadores sobre distúrbios visuais.

Eles vieram em meu socorro e acenderam os meus olhos. Agora tudo é luz, com cores vivas, palavras com todas as letras, sem que uma engula a outra ou deixe outra capenga, sem cedilha ou acento circunflexo. Eles acenderam os meus olhos que estavam apagados, escuros, turvos, com névoas. Inacreditável o que uma cirurgia de catarata pode fazer com os seus olhos. Ainda mais com correção de uma miopia de nascimento e que já avançava para os 9 graus.
Impossível acreditar no novo mundo que estou vendo. Parece que trocaram toda a iluminação da minha casa, que acenderam candelabros, velas e lâmpadas de LED ao meu redor. Apresentaram-me ao cirurgião Leonardo Tibúrcio, de 47 anos, que me devolveu a qualidade de vida.

Escrevo agora diretamente do meu front, – o computador, ferramenta de trabalho imprescindível na minha profissão. Vejo vírgulas, pontos, interrogações, no corpo 11, fonte calibri. Não fico mais com o rosto colado no computador. Nem com a cadeira grudada na tevê para tentar ler as legendas dos filmes. Vejo tudo, até o que não precisava, como a poeira dos móveis, a sujeira das frestas do piso. As cores agora pulam aos meus olhos da janela do meu quarto. Vejo os ipês depois da chuva em tons de rosa e amarelo. Vejo o presépio que é a Vila Marçola, no Bairro Serra, com suas casas coloridas, morro acima. Vejo tudo.
Tem horas que eu corro atrás dos óculos escuros, à la Steve Wonder, que me deram depois da cirurgia. Penso que estou sonhando, então, tiro os óculos e vejo luz por todos os lados. Mas também percebo novas rugas, a curva do tempo que coloca o meu rosto entre vírgulas. Vejo que a pele começa a ficar mais pálida e flácida, que tenho que me inscrever em uma academia com urgência. Vejo mais cabelos brancos do que imaginava ter. Vejo tudo, até a saudade escondida no canto do olhar.

Acenderam os meus olhos, por meio de uma cirurgia que não dura nem meia hora em cada olho. Ela tem um nome complicado: microcirurgia por facoemulsicação ou de catarata, que também faz a correção do grau. Dr. Leonardo Tibúrcio tem os olhos verdes. Ou serão azuis, agora que enxergo tudo? Ele diz que tem aumentado esse tipo de cirurgia. Primeiro, por causa do envelhecimento populacional – e que realiza de 35 a 40 cirurgias por semana. Também pela superexposição aos raios ultravioletas, além do uso do computador, tablete, celular e toda a parafernália tecnológica do mundo contemporâneo. E dá um exemplo. Ponha um papel branco tomando sol direto. O raio ultravioleta muda biologicamente o material que é o cristalino do olho.

Transportei-me para 30, 40 anos antes, quando passava férias em Salvador (BA) e não temia o sol do meio-dia. Ficava bronzeada ao sol das duas da tarde e depois descascava tudo e voltava a me queimar nas águas do mar da Bahia, sem filtro solar. Fora as idas ao clube, às cachoeiras, às piscinas, sem qualquer proteção. Ao contrário. Era moda ficar com o corpo quase fritando com os óleos à base de cenoura que tostavam tudo, como se eu fosse um peixe dentro da frigideira. Pois foi assim durante muitos anos, tostando ao sol, até que descobriram os efeitos prejudiciais dos raios ultravioletas. E a gente, que era engolida viva pelo sol a pino, se escondeu dentro de casa, tomando banho diário de protetores solares, números 20, 30, 40 e até 50.

Ainda bem que a oftalmologia evoluiu para os que têm mais de 60 anos e sofrem com perda de qualidade de visão. Um exame muito simples, de sensibilidade ao contraste, pode indicar a necessidade ou não da cirurgia de catarata.

Olha que o cirurgião Leonardo Tibúrcio não vê restrições à idade. Já operou pacientes de 90, 98 e mais de 100 anos . Ele tem pacientes com a doença de Alzheimer, que se beneficiaram com a cirurgia de catarata, apesar do estágio avançado da demência senil. De não reconhecer nem mesmo os mais próximos, como os filhos. Mas que não vão ficar na escuridão terrível da cegueira.

Por suas mãos mágicas e precisas, já passaram também portadores da síndrome de Down que voltaram a enxergar. Como eu, que agora escrevo sem máculas, sem vendas nos olhos. Ele acendeu os meus olhos, porque como diz a doutora Márcia Guimarães, ”a matéria prima da visão é a luz”. Hoje acordei sem óculos, sem lentes e observei tudo à minha volta, como criança que investiga o mundo, pela primeira vez. Como fez minha mãe depois dos 90. Começou a ler todos os letreiros das lojas e placas de sinalização. Soletrando, como se estivesse aprendendo a ler.

11 comentários

  1. Amiga Déa, agora com seus olhos “desvendados” pelo Dr Leonardo e enxergando as cores do mundo, aguardamos mais do que nunca as suas crônicas. Um grande abraço, Judy

  2. Déa, gostei do seu depoimento e gostaria de obter o endereço e telefone do Dr Leonardo Tibúrcio. Uma das lentes (colocada há 22 anos )soltou-se dentro do olho e já fui submetido a 3 cirurgias. Agora estou sem usar lente e o cirurgião não sinaliza nada quanto à recolocação de nova lente , apenas diz que lente externa é impraticável e que que o olho apresenta fragilidade embora nos exames com graus 8 + 3 dê para ler até letras pequenas. Doante disso está vindo a idéia de conseguir mais um parecer a respeito do meu caso.Agradeço desde já sua mensagem que chegou até mim, é que não deverá ser por acaso.

  3. lindo seu texto . Encorajador!!!

  4. Déa, que lindo e gratificante ler suas palavras, sua descrição do que é o “VER”, deixar a luz entrar pelos olhos novinhos em folha depois da cirurgia e ir reabrindo, cerebro adentro os mistérios da percepção visual tão firmemente atrelada à percepção de formas, contornos, cores, contrastes e movimentos, direção, equilibrio e integração com novos sons, texturas e referências visuais um pouco adormecidas pela catarata e outros obstáculos do trajeto fundamental olho e cerebro!
    Você, com este dom de transformar em palavras os sentimentos e angustias que “ser e estar” humano representam para cada um de nós, faz do nosso trabalho como oftalmologistas uma tarefa honrosa e extremamente gratificante! Obrigada por compartilhar o que é ver de novo !

  5. minha mae fez a cirurgia faz umas 11 horas e esta vendo só cor rosa e vulto é normal?

    • Querida Nadir, também fiz cirurgia de catarata, mas não saberia dizer se é normal o fato de a sua mãe estar vendo só rosa e vultos. O melhor é mesmo consultar o médico dela. Torço para que tudo fique bem com você e com a sua mãe. Grande abraço e volte sempre ao 50emais.

  6. Seu comentário está aguardando moderação.
    Que LINDO POEMA!
    O sentir HARMONIOSO ,
    Tal qual uma MELODIA,
    Toca no fundo d’ALMA…

    Como disse a Dra. Márcia Guimarães,
    Bem refletes,
    O puro SENTIR…

    PARABÉNS DÉA JANUZZI!

  7. Estou precisando de uma cirurgia dessas apesar dos meus 56 anos…vejo tudo embaçado quem dera ter a sorte de operar com esses profissionais. É o seu relato é maravilhoso…sonho com isso de olhar tudo sem óculos e poder enxergar tudo nítido. Bjs

Deixe seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos marcados com asterisco são obrigatórios. *

*