Fugiu do nazismo e, no Brasil, tornou-se campeã de natação aos 90

Nora Rónai, 93: exemplo de mulher longeva ativa e ativa

Maya Santana, 50emais

Já falei de Nora Rónai no 50emais. É uma senhora por quem tenho profunda admiração, pela sua determinação, firmeza, capacidade de superação, já que é uma fugitiva do nazismo, e pela grande atleta que é: conquistou o título mundial de natação na sua faixa etária. E mesmo agora, quando já passou aos 90 anos, ela conserva a disciplina. Por que nadar, especialmente na velhice, não só lhe dá prazer, mas energia para enfrentar a dureza da vida. “Tem situações que são enlouquecedoras. Se a gente sabe nadar, é só nadar 200, 300 metros, que aí já não sente mais nada. Não fica triste, não precisa chorar. É como se tivesse lavado o cérebro por dentro” – diz ela nesta entrevista a Renata Mendonça, da BBC Brasil. Nora Rónai serve de estímulo para todos nós.

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Em mais uma manhã de muito calor no Rio de Janeiro, Nora Ronai veste seu maiô, prepara seu café e pega a bolsa para sair. Da porta de casa, ela caminha por 20 minutos em pleno sol até o Clube de Regatas Guanabara, deixa os pertences no armário e vai direto para a piscina. Ali, vai nadar seus 1,6 mil metros diários até sair da água revigorada. Uma rotina comum a qualquer atleta – mas bem rara quando se trata de uma pessoa de 93 anos.

Nora encara a velhice como uma realidade, mas em meio a uma vida repleta de desafios, ela a leva como apenas mais um – e não como impeditivo para deixar de fazer o que gosta. Nascida judia na Itália de Mussolini, a menina foi banida da escola, virou fugitiva de guerra, viu o pai ser sequestrado pelos nazistas e viveu uma coleção de traumas – mas hoje prefere colecionar medalhas. Na piscina, ela diz que fica em paz.

“Vamos colocar isso em termos de natação. É como se na vida eu estivesse nadando, nadando, nadando, enfrentando ondas muito altas. Estou sendo acuada para cá, tendo complicações para lá. Mas quando entro na piscina, é como se eu tivesse chegado numa praia. Ensolarada, bonita”, conta.

“Na piscina, eu estou descansando moralmente. Claro que fisicamente não, mas moralmente sim. A piscina me salva de muitas situações opressoras. Ninguém nasce com garantia de eterna felicidade, isso não existe. Então tem situações que são enlouquecedoras. Se a gente sabe nadar, é só nadar 200, 300 metros, que aí já não sente mais nada. Não fica triste, não precisa chorar. É como se tivesse lavado o cérebro por dentro.”

Somente aos 69 anos Nora decidiu competir em nível internacional, para buscar um novo ânimo. Hoje, exibe com orgulho as dezenas de medalhas conquistadas desde então – sete delas de ouro no último Mundial, em 2014, quando já comemorava seu nonagésimo aniversário

Filha de atletas na Itália – o pai era remador e esgrimista, e a mãe jogava tênis -, Nora teve contato com o esporte desde cedo. No país europeu, suas modalidades preferidas eram o esqui e a esgrima, mas quando veio para o Brasil, na juventude, passou a se dedicar aos saltos ornamentais – onde também desenvolveu a prática da natação.

Somente aos 69 anos decidiu competir em nível internacional, para buscar um novo ânimo. Hoje, exibe com orgulho as dezenas de medalhas conquistadas desde então – sete delas de ouro no último Mundial, em 2014, quando já comemorava seu nonagésimo aniversário. Além disso, ela sustenta seis recordes mundiais – cinco conquistados em 2014, um em 2011. E já avista novos pódios para o Mundial de 2019, na Coreia, quando estará com 95 anos.

“Comecei a competir na natação com 69 anos, mas já estava acostumada a competições porque eu fazia saltos ornamentais quando nova. Eu não fico nervosa numa competição, nunca. No último Mundial de Montreal, eu ganhei sete medalhas de ouro. As que eu tenho mais orgulho são a dos 400m medley, 200m borboleta e 100m borboleta.”

O período em que Nora começou a nadar coincidiu com um dos mais difíceis de sua vida. O marido, o escritor Paulo Ronai, estava bastante doente, com câncer de laringe, havia alguns anos – já não conseguia nem mesmo falar ou andar. Os treinos de natação, então, se tornaram um momento sagrado para que ela conseguisse relaxar e aliviar a dor de ver seu companheiro passar por tudo isso.

“Meu marido estava muito doente quando eu comecei a nadar. A médica que tratava dele virou minha amiga, doutora Regina, que também tinha sido nadadora do América. Eu disse a ela que gostava muito de nadar, que a natação me fazia tão bem. Quando eu me sentia triste, cansada, eu ia nadar”, conta. Clique aqui para ler mais.

Um comentário

  1. Adoro esta história da Nora Rónai. Devíamos todos ir para a água…rsrsrs…

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