40 anos após a foto que se tornou símbolo da luta das mulheres

Gloria e Dorothy na foto que se tornou símbolo da luta pelo empoderamento da mulher

Feministas Gloria Steinem e Dorothy Pitman-Hughes na fotografia

Maya Santana, 50emais

Em 1971, duas das feministas mais aguerridas e respeitadas dos Estados Unidos, Dorothy Pitman-Hughes, então com 33 anos, e Gloria Steinem, 37, posaram para o fotógrafo Dan Wynn de punhos erguidos, mostrando sua solidariedade com outras mulheres, na árdua luta pela igualdade entre os sexos. A foto foi publicada naquele ano pela Revista Esquire e atravessou o tempo como um dos mais notáveis símbolos do movimento feminista, da longa batalha pelo empoderamento da mulher.

Mais de 40 anos depois, as duas, 79 e 83 anos, se encontraram e posaram novamente para recriar a famosa foto. Desta vez, com um ligeiro sorriso, registrado pelo fotógrafo Daniel Bagan. Para o autor da nova foto, “Gloria e Dorothy foram sensacionais compartilhando este momento, ficando lado-a-lado novamente.”

Em um depoimento gravado em vídeo, Gloria Steinem diz que, no início, o movimento feminista era “ridicularizado.” Levou muito tempo, segundo ela, “até que fôssemos levadas a sério.” Menos conhecida do que Gloria, Dorothy também é feminista de primeira hora e uma das fundadoras da Revista Ms, primeira publicação declaradamente feminista.

As duas fotografadas novamente, mais de 40 anos depois

As duas fotografadas novamente, mais de 40 anos depois

Quando se fala da luta incansável para que homens e mulheres sejam iguais em qualquer parte do planeta, o nome de Gloria Steinem vem no alto. A jornalista e escritora figura entre as pioneiras do que se convencionou chamar de segunda onda do feminismo, movimento iniciado na década de 50, que vem reverberando até hoje.

Juntamente com a francesa Simone De Beauvoir e a também americana Betty Friedan, Gloria Steinem, com suas ideias e ativismo, provocou uma revolução. Na trepidante década de 60, anos de intensa pressão pelos direitos civis, a jornalista e escritora desempenhou papel fundamental. Foi outra das fundadoras da Revista Ms. Ao longo de todos estes anos, Gloria Steinem nunca parou de defender a causa do feminismo.

Leia trechos da entrevista que ela concedeu à Teresa Perosa, da revista Época, a propósito de seu livro de memórias “My life on the road”, lançado no final de 2015, ainda não traduzido no Brasil (A Bertrand Brasil está prometendo lançá-lo, com o título “Minha Vida na Estrada”:

Livro de Memórias da lendária feminista

Livro de Memórias da lendária feminista

ÉPOCA – O ativismo feminista dos dias de hoje se concentra muito na internet?
Gloria – Não posso generalizar, eu acho que depende do lugar. Mas acho que precisamos entender que nem toda mulher no mundo tem acesso à tecnologia. Entre os iletrados do mundo, as mulheres são 70%. E muitas pessoas no mundo ainda não têm acesso à eletricidade ou à tecnologia. Então, precisamos lembrar que tecnologia pode ser um fator de divisão, nem sempre união e inclusão. Existem muitas formas de comunicação e precisamos recorrer a todas.

ÉPOCA – Há também quem diga que o feminismo não é mais necessário, que as mulheres já conseguiram todos os seus direitos.
Gloria – As mesmas pessoas que há 30 ou 40 anos diziam que o feminismo era impossível, era ir contra a natureza, contra Deus, Freud etc., hoje dizem que “agora acabou, vocês já venceram”, o que é ridículo. Há tanta violência contra as mulheres… Temos, atualmente, pela primeira vez, menos mulheres do que homens no planeta.

ÉPOCA – Qual é a principal causa para as mulheres hoje?
Gloria – A principal luta é aquela que seja a mais danosa na vida de uma mulher em particular, não cabe a mim escolher para ela. Ela terá mais energia e poder lutando contra aquilo que a afeta mais em sua vida. Em termos estatísticos, o que mais afeta as mulheres é exatamente a violência. Há menos mulheres do que homens no mundo por causa da violência. Fico com raiva porque uma coisa é ser a vítima de uma violência e outra é ser uma vítima invisível. O que acontece com as mulheres é trivializado, ainda que sejam formas básicas de violência, como controlar a reprodução.

ÉPOCA – Por que decidiu escrever um livro sobre suas jornadas?
Gloria – Percebi que escrevia sobre problemas individuais ou pessoas que encontrava no caminho, mas não sobre como eu passava meu tempo. Também percebi que movimentos sempre precisam de organizadores que estejam na estrada. Claro, nós temos a internet agora, que é ótima, mas não é um substituto para estar em um mesmo ambiente. E a estrada tem sido um domínio masculino. Por essas razões, eu pensei que escrever sobre minha experiência poderia tornar visível uma forma de trabalhar, de se organizar, de que nós precisamos mais. E também dar às mulheres uma posse mais igualitária da estrada.

ÉPOCA – Por que a estrada ainda é um domínio masculino?
Gloria – Qualquer coisa fora de casa é percebida como um lugar mais masculino do que feminino, especialmente a estrada, vista como perigosa e, de muitas maneiras, não acolhedora às mulheres. Enquanto eu escrevia o livro, percebi que, estatisticamente, era menos seguro para as mulheres ficarem em casa, local onde elas têm mais chances de ser espancadas ou até assassinadas. Sei que essa não é uma comparação justa, porque não há tantas mulheres na estrada, mas ainda assim é surpreendente. Pensei que dizer isso poderia nos tornar mais conscientes e nos levar a sair de nossas casas e tomar o mundo como nosso.

ÉPOCA – A senhora dedica seu livro ao médico que a atendeu na Inglaterra, quando decidiu fazer um aborto em uma época em que o procedimento ainda era ilegal no país. O que a fez dedicar seu livro a ele tanto tempo depois?
Gloria – Ir a uma audiência, no fim dos anos 1960, na qual as mulheres falavam sobre terem realizado abortos, antes de isso ser legal nos Estados Unidos, me fez consciente e levantou questões sobre por que era ilegal se uma em cada três mulheres americanas precisou de um aborto em algum momento de suas vidas. Percebi que era importante agradecer às pessoas. Achei que estava mais do que na hora de agradecer a ele.

ÉPOCA – Os Estados Unidos vivem um momento de retrocesso em relação a direitos reprodutivos. Por que isso está acontecendo agora, quando esses direitos pareciam já assegurados?
Gloria – Precisamente porque houve avanço. A maioria nesse país apoia os direitos reprodutivos. E isso significa que a minoria, vendo que a maioria se voltou contra ela, se torna mais desesperada e violenta. As religiões monoteístas lutam para que as mulheres não tenham o controle dos direitos à reprodução. Querem colocar o controle desses direitos nas mãos dos homens e determinar que qualquer forma de expressão sexual que não vise à reprodução é imoral.

ÉPOCA – Em entrevistas recentes e em diferentes passagens do seu livro, a senhora faz referências à cultura e sociedade indígena nativo-americana. Qual seu interesse no tema?
Gloria – As nações que estavam aqui antes dos europeus eram muito mais frequentemente igualitárias do que a cultura europeia, extremamente hierarquizada, monoteísta e racista. Nós somos levados a acreditar que é inevitável, é natureza humana ter uma hierarquia baseada em sexo, raça ou afins. Se Deus se parece com a classe dominante, então a classe dominante é Deus. É muito útil saber que existiam e que ainda existem culturas sobreviventes que foram baseadas em um círculo, não uma pirâmide. A ideia era de que as pessoas estavam ligadas, não ranqueadas.

ÉPOCA – A senhora discorre no livro sobre o tema dos estupros no meio universitário. Estatísticas que dizem uma em cada cinco universitárias nos Estados Unidos será agredida sexualmente durante seus anos de estudo. O que falta para solucionarmos esse problema?
Gloria– Precisamos parar de culpar a vítima e de pensar que se trata de natureza humana. Precisamos entender que não é só uma questão de “garotos serão garotos” e as mulheres são culpadas por tentarem os meninos seja porque estejam vestidas de alguma forma ou estejam bebendo. Colocar a ênfase no agressor, não na vítima. Os primeiros colonizadores da América do Norte escreviam cartas para suas casas chocados e surpresos, porque os nativo americanos “não estupravam nem seus prisioneiros”. As sociedades eram matrilineares, as mulheres controlavam a agricultura, os homens caçavam e todos tomavam decisões conjuntamente. As mulheres aqui do País Indígena (território que abrange reservas indígenas nos EUA) fazem piadas sobre isso: “o que Cristóvão Colombo considerava primitivo? Igualdade para mulheres”.

ÉPOCA – Em uma das passagens de seu livro, a senhora conta como, durante um momento de trabalho, o jornalista Gay Talese se referiu à senhora como uma “garota bonita” que “fingia ser escritora”. A senhora é uma das fundadoras da New York Magazine. Em algum momento, confrontou seus colegas sobre o machismo no ambiente editorial?
Gloria – Nós, juntos, fundamos a New York Magazine e, embora eu fosse a única mulher naquele grupo na época, eles tinham mentes bastante abertas. Isso ajudava bastante. E eu não precisei trabalhar com Gay Talese. O curioso é que, embora não tenha checado com ele essa frase antes de publicar o livro – porque eu tinha certeza de que ele havia dito –, a New Yorker, quando publicou um perfil sobre mim e mencionou esse incidente, ligou para ele para checar. Ele falou: “Sim, eu disse isso mesmo” (risos). Para ser justa, acho que ele achou que me chamar de “garota bonita” era um elogio.

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2 comentários

  1. bom demais ler sobre as memorias historicas de minha geraçáo.Acompamhei este processo na minha adolescencia.Passei a miliyar no feminismo em 1975.

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