“Envelhecer, essa chegada do outono, ficou mais amena”

Se eu tivesse de resumir em uma frase, eu diria que envelhecer é um presente

Artista plástica gaúcha Heloisa Crocco: Se eu tivesse de resumir em uma frase, eu diria que envelhecer é um presente

Maya Santana, 50emais

Veja que texto mais elegante e envolvente a designer gaúcha Heloísa Crocco escreveu, a pedido da revista Donna, do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, sobre como vê seu próprio envelhecimento. Confesso que sabia muito pouco sobre esta reconhecida artista – já participou de várias exposições coletivas, salões e bienais na Alemanha, Áustria, Hungria, EUA, França, México, Uruguai. Heloísa também viajou pelo Brasil pesquisando sobre as fibras, suas transformações e aplicações, principalmente em suas visitas à Floresta Amazônica e à Ilha do Sol, no Piauí. A artista se revela também no campo da escrita, com sua maneira delicada, quase poética, de relatar sua caminhada pela vida até agora, na plenitude de seus 67 anos.

Leia:

“A opção de envelhecer da forma mais natural possível não é algo isolado. Tem a ver com aquilo a que tu te propões como estilo de vida. Tem a ver com a forma como tu te colocas no mundo, te pensas no mundo. Pensar quem tu queres ser, para onde tu queres ir, o que tu queres fazer. Tem muita gente que passa pela vida sem se questionar sobre isso. Mas eu me questionei, e a resposta veio nesse despojamento, nessa liberdade.

O meu cabelo, por exemplo. Eu fiquei grisalha muito cedo. Com 30 e poucos anos. Então, se eu pintasse, seria diariamente aquela saga. Aquele pedacinho de raiz mal pintada me incomodaria. Então, para mim, foi preferível assumir a passagem do tempo do que me tornar escrava disso. É a liberdade da gente. Agora, não pensa que viver assim é fácil. Não é nada simples. Dá trabalho, mas é outro. Uma pessoa com a cabeça branca que se vestisse de outra forma, por exemplo, que não fosse igualmente despojada, não combinaria. Aí, sim, eu ficaria uma velha. Eu que tenho apenas 67 anos (risos). Outra questão é o corte, a forma de arrumá-lo, que requer bastante cuidado e atenção a uma sofisticação no todo.

Claro que há situações engraçadas que decorrem dessa opção. Lembro de uma vez que eu e um colega fotógrafo trabalhamos até as 11h da noite. Estávamos arrasados, e saímos para tomar uma cerveja e comer na pizzaria de uns amigos dele. Não sei se ele chega a ter 10 anos a menos do que eu. Chegando lá, o garçom quis ser simpático: “Que legal, trouxe a mãe hoje!” (risos). E como essa, teve outras tantas. Mas a gente se diverte. Aprende a rir disso.

Agora, é importante salientar que a minha opção visual: grisalha, sem maquiagem, sem plásticas, não é necessariamente melhor que a do outro. Cada um é um. Tem gente que acredita que arrumando por fora arruma por dentro. Tem quem ache que, sendo bonita por dentro, acaba ficando bonita por fora. Então, ninguém é melhor do que ninguém.

Acho bem interessante analisar como certas pessoas vão envelhecendo e como levam essas etapas. Tem pessoas que vão ficando velhas e se veem em volta de uma penumbra de medo. Agora, se tu ficares entre os jovens, tu te encorajas. É por isso que as etapas da vida têm as idades certas. Tu só podes gerar filhos jovem, por exemplo. Porque não temos esses temores todos.

Faço a ressalva de que essa velhice de espírito pode chegar para quem é bem novo. Tem pessoas de 50 anos que estão em tal estado de desânimo que só falta deitar, né? E tem pessoas com 60, com 70, enamoradas pela vida. Realizando e mirando os cem anos. Esses tempos, vi uma entrevista da Fernanda Montenegro. Como não valorizar uma mulher com aquele fogo, com aquela pulsão? E ali parece que o fato de ser velha é o que torna ela ainda mais interessante.

Via de regra, o envelhecer, essa chegada do outono, ficou mais amena. Quando a revista me propôs esse papo, lembrei da minha avó. Ela morreu com 84 anos. Mas, por anos, eu chegava na casa dela, e ela estava sempre no quarto, deitada ou na cadeira de balanço. Hoje, uma mulher de 84 anos está pegando um avião para visitar o neto. É outra dinâmica, outra mirada.

Sobre a questão da visibilidade do idoso, especialmente da mulher, eu atribuo a uma questão cultural. Na Europa, por exemplo, se vê, sim, pessoas mais velhas na televisão, no palco, atendendo em lojas… Se não aparecem aqui, é talvez porque ainda seja novo para nós. Mas estamos ficando mais velhos como país, então essa valorização há de chegar.

Se eu tivesse de resumir em uma frase, eu diria que envelhecer é um presente. Tenho de agradecer que eu estou mais velha, que estamos aqui conversando. Agradecer cada dia que chega para nós. E brindar esse dia. Que a gente está bem, que a gente está lúcido. Eu acho o máximo! O ser humano não se dá conta de que a passagem é muito fugaz, muito rápida. Agora é o tempo de colheita. Vamos tratar de vivê-la com luz, saúde e muita alegria.”

Conheça um pouco de Heloísa Crocco e de seu trabaho:

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2 comentários

  1. Maravilhoso esse texto!! Penso assim tbm!!

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