Idosos reclamam: nunca foi tão difícil ser velho no Rio

Senhora faz exercícios diante do cenário espetacular de Copacabana, o bairro com mais velhos do país

Maya Santana, 50emais

O Rio de Janeiro, seguido de Porto Alegre, é a capital brasileira com maior número de velhos. Dentro da cidade, os bairros com concentração mais elevada de pessoas acima dos 60 anos são Copacabana e Tijuca. Com seu clima quente e sua paisagem deslumbrante, o Rio atrai gente mais velha de todo canto. Eu mesma, mineira, depois de aposentada, fiz a opção de viver na cidade, perto do mar. Mas, hoje, está mais difícil circular pelas suas ruas, principalmente para quem já não é tão jovem. Há muito medo, insegurança. E nem sempre os velhos são tratados com o respeito que precisam e merecem, como mostra este artigo de Maria da Luz Miranda, do portal G1,

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Rio de Janeiro já foi mais amigável com seus velhos. De Copacabana ao Vidigal, da Tijuca a Jacarepaguá, circular é tarefa cada vez mais árdua. E os olhares, para quem é alvo, cada vez mais desafiadores. Se nos ambientes domésticos e privados a acolhida não é garantida, envelhecer por essas ruas e avenidas e praças está longe de ser tarefa fácil.

Tão bom que era circular e ir e vir quando bem se entendesse, diz a carioca Maria Luiza, 73 anos, moradora do Catete, na Zona Sul. Foi-se esse tempo. É a violência que está nos impedindo, costuma ouvir de parentes. Não, não é só a criminalidade que cresce e apavora a todos quase indistintamente que nos impede, garante ela, que foi professora até bem pouco tempo, quando, aposentada, deixou as salas de aula após 50 anos de magistério. Uma limitação aqui outra acolá, mas o corpo ainda reage bem a rotinas puxadas, afirma. Falta vontade de conviver nos espaços públicos, avança ela, mirrada e encolhida como se não pudesse mais muito.

É a ignorância, Adália Santos, que tem 67 anos, empunha o termo para explicar a discriminação a que gente da idade dela é submetida. Rotineiramente, diz ela, que é psicóloga e mantém o consultório aberto em Campo Grande, Zona Oeste, principalmente, para quem precisa de suporte extra quando os anos avançam. No imaginário social, os vehos sempre foram associados a uma carga econômica para a sociedade e a família; decrépitos e decadentes, um entrave a mudanças. Sem o mínimo de doçura no olhar que o mundo nos dispensa, que esperança teremos todos nós, velhos subtraídos, que se enclausuram quando poderiam estar plenos também nas ruas?, questiona ela.

Confinamento é um termo que Joana, aos 71, conhece bem. Moradora da favela do Vidigal, quase nunca está por lá. Sobe e desce, longe do morro, atrás de espaços e projetos que ofereçam ginástica, oficina de memória, bailinhos. Não são alternativas só para ela. Pense em envelhecer entre ruelas e becos, fácil não é, as pessoas precisam de algum alento além daqui. Joana é viúva, sem filhos e usa o próprio exemplo como argumento para convencer as demais moradoras também idosas de que uma voltinha lá embaixo pode fazer bem. Tarefa árdua, ela reconhece que as limitações de quem vive no lugar são muitas. Ainda assim, sempre tem alguma companhia. Resistência é outro termo que Joana domina.

Mas a maré em Copacabana também não está para velho, diz Sheila Bezerra, moradora do bairro desde que nasceu, há 69 anos. Até um tempo atrás, eu, que gosto de vestidinho de alça e saia curta, andava cheia de orgulho e exibia o corpo como eu bem entendia. O calçadão permitia, conta ela, sem ranzinzice. É a realidade, meu bem, já não se pode mais o que se podia, e ponto, seja lá quem sentencie o que vira regra inequívoca de como os velhos devem ser tratados, diz ela. O bairro mais apinhado de velhos do Rio já não é mesmo mais o mesmo. A oferta de atividades não é a queixa de Sheila, funcionária pública federal aposentada. Há o que fazer. Mas e o medo?

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Falta empatia, prega Roberto Macieira, advogado aposentado e ex-colega de Sheila em um curso de teatro, também em Copacabana. Há uma oferta ainda grande de atividades para as pessoas mais velhas. A rua, no entanto, não é mais nada nada convidativa, lamenta ele. Não basta que as vagas sejam reservados, que as filas para idosos sejam obrigatórias nas farmácias e bancos e casas lotéricas, é preciso mais educação e mansidão no trato, resume.

O Rio precisa mesmo ser mais amigo dos seus velhos.

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