Juntas vamos envelhecendo

 Como eu, Frida está envelhecendo, mas não sabe que a idade traz riscos


Como eu, Frida está envelhecendo, mas não sabe que a idade traz riscos

Déa Januzzi

Frida também está envelhecendo. Ela não conhece as estatísticas sobre o envelhecimento populacional, mas neste momento ela está internada em uma clínica se recuperando de uma cirurgia de retirada do útero e dos ovários. Com muitos miomas nos órgãos reprodutores que nunca foram usados, Frida sofre por causa de uma cirurgia de risco, que exigiu assinatura dos responsáveis em papéis que falavam até em óbito.

Com os olhos melancólicos, de súplica, ela cortou o meu coração quando a deixei na clínica. Uivou como uma loba. Afinal, no dia 29 de outubro vai completar 10 anos, o que na linguagem dos seres humanos quer dizer mais de 70. Da raça Lhasa Apso, Frida, minha cachorra, é companheira inseparável por todos esses anos. Nunca a abandonei nem ela a mim. Digo que às vezes, ela até atrapalhou as minhas viagens. Preferi não ir a deixá-la só, porque Frida é brava, sistemática, apesar de arrancar admiração das pessoas na rua. Com os pêlos longos e dourados, ela caminha todas as manhãs como uma dama.

Como eu, Frida está envelhecendo, mas não sabe que a idade traz riscos, doenças e problemas, inclusive, está mais cansada, menos disposta a andar quilômetros como antes. Frida está com nuvens nos olhos que indicam catarata. Em um dos olhos só vê vultos, mas ainda assim prossegue altiva.

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Frida está recebendo soro e não quer comer. Vomitou hoje de manhã, só água, segundo informes diários da doce veterinária que tem o nome de Natália – e que está tratando dela. Disse que Frida só se acalma, ou melhor, levanta a cabeça quando ouve o nome “Déa”. Minha cachorra está passando pelo ritual da velhice, mas só quer saber de ir para casa e de ver a dona entrar para que a sua alegria volte. Ela me procura aflita pela clínica toda.

Enquanto isso, eu a procuro pela casa, ouço seus latidos, vasculho a cama solitária dela. É estranho, mas dói a falta dela, como se fosse humana. Nunca tive cachorros, mas a partir da chegada de Frida sinto como se fosse da família. Eu e meu filho a consideramos como parte integrante desta micro-família contemporânea, onde até um animal tem lugar de afeto. Nós adotamos Frida afetivamente, apesar de ser um animal e, às vezes, responder com rosnados e mordidas quando é contrariada – ou se assusta com algo.

Frida é assim: deixa um vazio estranho pela casa, porque é grudada comigo. Vou para o banheiro, ela vai também. Vou para o quarto, ela me segue, assisto televisão, ela se deita ao meu lado. Só falta falar. Enquanto espero a hora de visitá-la na clínica, lembro-me da música “Diana”, de Toninho Horta e Fernando Brant, de 1979, que diz assim: “ Velha amiga eu volto à nossa casa/Já não te encontro alegre, quase humana/Corpo pintado de branco e marrom/E uma tristeza no olhar/Como se conhecesse dor milenar/Já não te encontro à espera ao pé da porta/Correndo viva e bela ou descansando/Tanto vazio por todo lugar/Tanto silêncio sinto ao chegar/Ao nosso território de brincar”. Escuto a música até afogar a saudade que estou sentindo de Frida. (Assista ao vídeo com a música):

Foi assim também que Frida conviveu com minha mãe Amélia, até ela partir em 2008, aos 91 anos. Frida era a guardiã de dona Amélia. Ficava ali em vigília aos pés da cadeira de balanço dela. Quando Amélia se levantava com a ajuda da bengala, Frida a seguia, cuidava dela, como se entendesse a linguagem espiritual dos mais velhos, o halo de luz dos que estão se despedindo. Ela seguia os passos trôpegos de Amélia por toda a casa.

Depois que Amélia se foi, Frida entristeceu, como se entendesse a dor que envolvia os moradores da casa. Meses depois, resolvi mudar de casa, mas em uma das andanças diárias, passamos pela portaria do antigo prédio. Ela cheirou, parou e não queria sair dali. “Empacou” na porta do prédio. Por mais que eu pedisse, puxasse a coleira, Frida não arredava dali, como se, de repente, a porta fosse se abrir – e dona Amélia ressurgir para a alegria de todos.

Nesses dias de internação, todos perguntam por ela. Rosina, minha irmã, liga duas vezes ao dia querendo saber como anda a recuperação de Frida. Pois a sua cachorra Luli também passou pela mesma cirurgia. Rosina entende porque esses seres são tão especiais, deixam um buraco tão grande na casa. Celeste, minha amiga, também liga, se preocupa, pois já teve duas cachorras que envelheceram e partiram. Boyuna e Yoko não estão mais em sua companhia.

Frida está envelhecendo. Agora mesmo vou à clínica, que tem até horário de visitas. Vou levar um de seus brinquedos, a ração preferida dela e dizer que em breve ela estará de volta, para seguir envelhecendo junto com a sua dona.

Déa Januzzi é jornalista e escritora

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Um comentário

  1. Dea, com 10 anos, Frida é ainda muito jovem! Os animais tb estão vivendo bem mais. Se ela já foi medicada, não é melhor leva-la pra casa pra ela ficar perto de vc? Seria o melhor remédio e ela se recuperaria + rápido. Se ela não come, dá pra aguentar alguns dias. Mas Frida precisa beber muita água, nem q vc tenha q dar de colher. Traga a bichinha pra casa, durma com ela a seu lado.. Meses atrás minha gatinha teve q abrir a barriga. Assim q saiu da anestesia, eu a trouxe pra casa. E haja carinho!

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