Lya Luft: “Deixem a gente ter o privilégio de envelhecer em paz”

A escritora e tradutora gaúcha acaba de completar 79 anos de vida

Maya Santana, 50emais

Mais uma crônica de Lya Luft tratando da passagem do tempo, do envelhecer, um de seus temas preferidos. A escritora e tradutora gaúcha, que acaba de completar 79 anos – 15 de setembro -, escreveu durante anos para a revista Veja. Já há um tempo publica suas crônicas no Zero Hora, o principal jornal do Rio Grande do Sul. Neste texto, cujo título original é “O Rio do Tempo e Nós”, ela escreve que a passagem do tempo não apenas significa transformação e novidades, mas também perdas, e para muitos o terror do fim da juventude.

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Neste mês de setembro, ocorre a maioria dos aniversários de minha família: eu mesma, netas, filho, irmão, além dos que já se foram, como mãe e avó materna, sem contar os amigos. Suponho que tenhamos sido inventados nos cálidos meses de verão. Tenho, em relação ao correr do tempo, não amargura ou medo real, mas curiosidade – desde quando, menina mimada, bati o pé porque queria alguma coisa “agora”. Algum adulto presente achou graça e resolveu liquidar a minha manha:
“Deixa de ser boba, o agora nem existe”.

Iniciou-se um diálogo surreal: a menina curiosa e teimosa insistia em saber que história era aquela. Explicaram que o tempo passa constantemente, de modo que, quando pronunciamos a última letra da palavra “agora”, esse agora já é passado. Obstinada, várias vezes tentei pensar a palavra “agora” empilhando as letras numa coisa só – mas desisti.

Então, a cada momento, tudo passava, mudava e já era outro? Eu já era outra? Comecei a me angustiar, eu me angustiava com coisas que pouco tinham a ver com crianças, que, segundo adultos de então, deviam brincar, comer, dormir e se portar bem. Ainda por cima, alguém com humor macabro me alertou: “O tempo só para de passar quando a gente morre”.(Assunto para outra crônica.)

Sempre tive vontade de ser adulta: achava a vida e os assuntos dos “grandes” muito mais interessantes do que os infantis. Detestava ser comandada, numa época de educação bastante severa: por que ir para a cama às sete e meia? Por que só comer comidinha inocente, como purê de batata e carne de frango?
Por que não falar muito à mesa? Por que ter de aprender prendas domésticas como toda boa menina? Eu não queria ser uma boa menina: queria ser a Emília do Monteiro Lobato.

Aí fui vendo que a passagem do tempo não apenas significava transformação e novidades (parte boa para quem facilmente se entediava), mas também perdas, e para muitos o terror da perda da juventude. Tornou-se uma epidemia a busca desesperada por deter a qualquer custo os sinais do tempo: parecer trinta aos sessenta, ter lábios sensuais aos setenta – vale a pena?

A velhice (desde que não com o detestável nome de melhor idade) é uma fase natural da vida – um dom a ser curtido. Dor e doença não escolhem idade. Nem sempre a juventude é linda. No avançar do tempo, importa preservar certa elegância (quando dá…) e cultivar o bom humor (quando possível…). Tônia Carrero, ao fazer oitenta, respondeu a uma jovem jornalista que lhe perguntava como encarava a velhice: “Velhice? Eu acho ótimo! Porque a alternativa é morrer jovem”. E minha amada comadre Mafalda Verissimo, que sempre me faz falta, contou, fingindo-se indignada, que alguém ao telefone, sabendo que era ela, exclamou: “Dona Mafalda! A senhora, ainda tão lúcida!”.

Que se arrume o que nos incomoda, mas dentro de alguma normalidade. Deixem a gente ter o privilégio de envelhecer em paz, que a gente vai tentar não ficar ainda por cima rabugenta. E quem sabe o rio do tempo desemboca em algum mistério mais interessante do que nossas trapalhadas de agora?

20 comentários

  1. Nada mais nada menos do que palavras sinceras de uma pura realidade das nossas vidas….

  2. DIDÁTICO E TRANSPARENTE
    PONTO PARA ESCRITORA.

  3. E.S.P.E.T.A.C.U.L.A.R. !!!!!!

  4. Me identifico muito com seu modo de pensar!…
    Feliz por tê-la como tradutora dos meus sentimentos!

  5. Leonardo Jose de Araujo

    Uma grande lição de vida

  6. Fantástico!!! Adorei! Completei 70 em 14/08/2017 e me refugiei nas lindas praias de Porto Seguro! E foi muito bom, era tudo o que eu queria! Longe de tudo do cotidiano que seria nesse dia como, cumprimentos, etc., E aí meus setenta entrou silenciosamente, de mancinho, sem alardes hahaha, agradeço a Deus pela minha jovialidade interna e externa, sem extremos, claro, odeio falta de bom senso! Rsrs.

  7. Marilene do Carmo Doberstein

    Ser velha é pra quem deixou de sonhar. Conheço muita gente velha com 20 anos.
    E não me venham com aquelas de “senhoras devem ser recatadas e só apreciar o baile” … precisamos nos libertar de antigos padrões … afinal, todos queremos ser felizes e alegres, até os cento e tantos. Porque só quem está na faixa dos 20,30,40 e 50 pode sair pra dançar sem ser julgada? Vejo muita gente jovem julgar os demais muitoa … mas muitos mais que os mais adultos. Não servir de palhaços para outros, curtir uma boa música, dançar a música preferida quando toca, abraçar de verdade, amar sem cobranças nem julgamentos … porque amar interessa sim pra quem busca ser feliz … e felicidade é a busca desde que abrimos os olhos pra vida, até fecharmos eles para outro plano.

  8. Boa Tarde!
    Impossível deixar de escrever. Preciso aprender a ser livre dos meus próprios tabus que percistem a me incomodar, porém com vc Lya tendo a coragem de ser vc mesma através de textos tão llindos e verdadeiros me permito sair do meu casulo e ser feliz.
    Obrigado por tua coragem de escrever sobre velhos ou não velhos? Tudo questão de tempo ou não existe tempo, apenas questão de amor.

  9. Eu considero que a “idade” está na mente. Não me adequo à expressão velhice…. particularmente, acredito que ñ envelhecerei !SÓ PASSAREI P/OUTRO PLANO QDO CHEGAR A HORA .

  10. Parabéns Lya, sempre fui sua fã e tenho sentido muito a falta dos seus artigos na revista Veja! Por coincidência temos a mesma idade, completo 79 em novembro. Obrigada por tudo que aprendi com seus artigos durante todos estes anos e espero que continue nos agraciando com sua sabedoria por muito tempo.

  11. Maria de Fátima Lima de Holanda

    A vida é assim! Simples.

    • Julia Maria Gonçalves

      Nos meus 85 anos de vida, adorei seu artigo e entre linhas me encontrei com saúde, atenta às notícias global procuro me vestir com certa elegância e pronta para o agora.um abraço.

  12. Eu também faço 79 em Dezembro e me sinto normal, nem velha ,nem nova, mas vivida.
    Vi muita coisa chegar e passar, e com elas várias mudanças, umas boas, outras nem tanto.
    Vi que não adianta fazer birra, nem manha, porque certas coisas, mesmo que vc não tenha previsto, acontecem e vc tem que enfreta-las.
    E, feliz é aquele que, pode enfim dizer depois de muito amar e sofrer, vivi.

  13. ARMINDA MARIA PINHEIRO BORLIDO

    O viver é simplismente isto aí!!!Viver e sonhar sem preocupar com a idade…Enfrentar os obstáculos que são muitos e seguir em frente;;;Deixar tudo nas mãos de Deus Ele é quem sabe a hora de parar!!!

  14. Carmira Theodozina Pereira

    Simples assim e pronto.

  15. Marlene Madalena Possan Foschiera

    Sinto-me inteiramente contemplada, quero viver e fazer o que puder até o tempo parar.

  16. Adorei. Nem todos tem a nobreza e arte de envelhecer!
    Tenho 48 anos e cultivo a juventude no meu interior, mantendo sonhos sempre!

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