Reconhecida só aos 71 anos, escritora negra lança livro em Paris

A escritora mineira, 71, ganhou o Prêmio Jabuti de 2017

Maya Santana, 50emais

Daqui a pouco tempo, em maio, completará 130 anos da abolição da escravatura no Brasil (1888). “São 130 anos de uma abolição inconclusa. Inconclusa porque nós – a população pobre em geral, e mais ainda as mulheres negras – ainda não conquistamos uma cidadania plena no que diz respeito a habitação, emprego, condições de vida.” A autora dessas palavras é a escritora Conceição Evaristo, 71, que viajará para Paris em breve, para lançar a versão em francês de seu livro “Insubmissas lágrimas de mulheres” e participar de discussões literárias. Nesta excelente entrevista a Júlia Dias Carneiro, da BBC Brasil, Conceição reclama do que é ser mulher e negra, do preconceito explícito que impede mulheres negras de mostrarem seu talento na literatura. “É preciso questionar as regras que me fizeram ser reconhecida apenas aos 71 anos”, diz ela.

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Em 2003 a estação abrigava um centro cultural e o armazém, uma oficina de artes e artesanato.

Em junho de 2012, um incêndio destruiu parte da estação e fez ceder o telhado.

A escritora Conceição Evaristo mal se lembra de ter referências masculinas ao seu redor em seus anos de formação, crescendo cercada de mulheres negras que trabalhavam como cozinheiras, lavadeiras e empregadas, profissões tão humildes como a casa pobre em que vivia com a mãe e os nove irmãos e irmãs na favela do Pendura Saia, em Belo Horizonte.

Foi com essas mulheres, que completaram a alfabetização junto com a nova geração de filhos e sobrinhos que chegava, que ela teve sua formação – e aprendeu a lição de fortaleza.

Não a fortaleza folclórica que por vezes se atribui a “um povo negro que não sente dor, que está sempre a cantar, que tem uma alegria já por herança”, critica, e sim a fortaleza da resiliência “que nos agrega” e “que nos salva”.

A escritora mineira, que hoje vive em Macaé (RJ), está prestes e embarcar para Paris, onde vai lançar a edição francesa do livro Insubmissas Lágrimas de Mulheres e participar de mesas literárias no Salão do Livro de Paris.

Em conversa com a BBC Brasil, Conceição questiona as dinâmicas que tornam a ascensão social e profissional tão difícil para mulheres e para negros no Brasil.

Leia os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil – Depois de 130 anos da abolição da escravatura, como a mulher negra é vista hoje no Brasil?

Conceição Evaristo – Acho que são 130 anos de uma abolição inconclusa. Inconclusa porque nós – a população pobre em geral, e mais ainda as mulheres negras – ainda não conquistamos uma cidadania plena no que diz respeito a habitação, emprego, condições de vida. A sociedade brasileira ainda tem essa dívida histórica para com a população negra, e mais ainda para com as mulheres negras.

As mulheres já enfrentam interdições por questões de gênero. No caso das negras, as interdições estão fundamentadas na questão de gênero e na questão de raça. Para as mulheres negras, a conquista de determinados direitos e de determinados espaços é muito mais difícil.

“Em todas as áreas, os poucos negros que conseguem uma ascensão social são vistos como histórias de exceção” | Foto: Joyce Fonseca

BBC Brasil – A senhora levou 20 anos para publicar sua primeira obra. Por que demorou tanto, quais foram os obstáculos?

Conceição Evaristo – A primeira obra que eu escrevi, Becos da Memória, ficou guardada durante 20 anos. Eu mandei para várias editoras. O texto literário, no caso da autoria negra, carrega a nossa subjetividade na própria narrativa. A temática negra, principalmente quando trabalha com identidade negra, não é muito bem aceita.

Quando a temática negra trata do folclore, ou não é tão reivindicativa, aí interessa. Mas quando questiona as próprias relações raciais no Brasil, é quase um tema interdito. Principalmente se isso é colocado pela própria autoria negra.

Até então, os brancos podiam dizer a nosso respeito. Mas quando a gente se apropria do nosso discurso, da nossa história, isso é motivo de interdição.

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BBC Brasil – A senhora usa a expressão “escrevivências” para falar na sua escrita, feita a partir de suas vivências como mulher, negra, de origem pobre. Acha que está aí a força de sua obra?

Conceição Evaristo – Não é que o homem não possa escrever sobre a mulher. Pode. Não é que o branco não possa escrever sobre o negro. Pode.

Mas quando esse discurso falado ou escrito carrega a nossa subjetividade, justamente porque ele nasce num lugar social, num lugar de gênero, num lugar racial diferente, ele traz determinadas peculiaridades que aquele que escreve de fora, por mais que seja competente do ponto de vista intelectual ou emocional, não vai trazer. Ele não traz uma carga de quem escreve de dentro.

Aqui não tem nenhum juízo de valor, de querer dizer qual texto é mais bonito. Não é isso não. Mas trata-se de apontar esse local diferente onde esse discurso nasce e é desenvolvido. Clique aqui para ler mais.

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