Reforma da Previdência: por que são todos radicalmente contra?

Têm sido constantes as manifestações contra as mudanças na previdência social

Têm sido constantes as manifestações contra as mudanças na previdência social

Vânia Cristino, 50emais

Com as manifestações tomando conta de todo o país, fico pensando se as pessoas realmente sabem do que estão falando quando se declaram contra a reforma da Previdência Social. Não pretendo entrar no ponto a ponto das medidas propostas pelo governo, algumas delas modificadas pelo relator, deputado Arthur Maia (PPS-BA), mas sim fazer uma abordagem mais cultural.

A nossa ojeriza ao trabalho, por exemplo. De onde vem? De tempos imemoriais, suponho. De quando quem trabalhava eram os servos, os plebeus e não os nobres, que se dedicavam às caçadas e às guerras. A colonização portuguesa trouxe essa divisão de classes para o novo continente. Reza a história que os índios nativos eram considerados preguiçosos e não davam para o trabalho pesado. Para isso tinham os negros escravizados.

O tempo do Brasil-colônia ficou para trás, mas parece que essa herança atávica se perpetuou. Ou seja: não trabalhamos porque gostamos, mas trabalhamos porque precisamos para nos sustentar. E quanto mais cedo nos livrarmos desse “ fardo”, que é o trabalho, melhor. Daí porque, no imaginário popular, o rico não trabalha e, quem tem sorte, consegue passar num concurso público para trabalhar pouco e ganhar muito e ter assegurada uma aposentadoria.

Vânia Cristino é jornalista especialidade

Repórter de economia deste 1979, vencedora do prêmio Esso de jornalismo em 2009, Vânia Cristino é especialista na área de previdência e trabalho

Mudar aquilo que está entranhado na cultura do país é muito difícil. Daí porque a reforma da Previdência Social, mesmo se aprovada, começa mal. A maioria é contra porque está convencida de que o governo está retirando direitos. O argumento de que o país está falido, gasta mais do que arrecada e que podemos ser a Grécia de amanhã – sem dinheiro para pagar servidores ativos e inativos – não convence, não comove e nem une as pessoas, apesar do exemplo gritante do estado do Rio de Janeiro.

O que nos convencerá, então, como nação? Para mim é saber que a conta será paga por nossos filhos e netos. Ou seja, eles terão que trabalhar muito mais anos do que nós e, provavelmente, terão uma aposentadoria pública – bancada pelo Estado – suficiente apenas para a subsistência. Mas não é assim, hoje? Não. Apesar de muitos considerarem o teto da aposentadoria bancada pelo Estado baixa, em torno de R$ 5,3 mil por mês, ele cobre na integralidade o salário de parte expressiva da população.

Todos nós sonhamos com o Estado do Bem Estar Social, aquele que garante saúde e educação de qualidade para todos, segurança e previdência social. Ele existe, mas custa caro. A pergunta é: Temos condições de bancar? E não adianta vir com histórias para boi dormir como, por exemplo, se o governo não pagasse os juros da dívida pública sobraria dinheiro etc e tal.

Tem dinheiro aplicado? Quem defende esse argumento se esquece que quem sustenta o Estado brasileiro somos nós, cidadãos que pagamos impostos e colocamos nossa poupança em Fundos de Investimento, forrados com papéis do governo. Um calote do Tesouro Nacional significará simplesmente que aquele tão suado dinheirinho guardado no banco para umas férias ou uma emergência virará pó.

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Se você tem alguma dúvida com relação à Previdência Social, escreva para Vania Cristino: vania.cristino1@gmail.com

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2 comentários

  1. Enquanto isso, “Na corrida para garantir os 308 votos necessários à aprovação da reforma da Previdência na Câmara, o governo Temer negocia com ruralistas um programa de parcelamento (Refis) de 15anos para dívidas em atraso da contribuição ao Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (Funrural) e acena com novas mudanças na proposta”. Ou seja, você vota para mim e eu perdoou suas dívidas. Tá claro?

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