Grã-Bretanha cria ministério para lidar com a solidão

A maioria das pessoas com mais de 75 anos no Reino Unido vive sozinha

Maya Santana, 50emais

Para entender a decisão da primeira-ministra Thereza May, 61, de criar o Ministério da Solidão, é preciso lembrar que a Grã-Bretanha , ao lado do Japão, Alemanha, Grécia, Portugal, Itália e outros, está entre os países com população mais envelhecida do planeta.

Daqui a duas décadas, um em cada sete de seus habitantes terá mais de 75 anos, de acordo com estudo da Cruz Vermelha Internacional. Hoje, de seus quase 66 milhões de habitantes, mais de nove milhões dizem viver sozinhos ou ficar muito tempo sozinhos. São pessoas isoladas socialmente. Muitas delas passam até mais de um mês sem trocar uma palavra com parentes ou amigos. como resultado desse quadro, multiplicaram-se os casos de depressão, suicídio e mortes.

O jornalista especializado em envelhecimento populacional Jorge Felix atribui as agruras da Grã-Bretanha com o envelhecer de sua população, sobretudo, às políticas econômicas adotadas pelo país desde a época da Primeira-ministra Margaret Thatcher, a partir de 1979. Como consequência, os britânicos estão “ficando para trás na revolução da longevidade. Não estão apenas morrendo sozinhos, mas estão morrendo mais cedo.”

O primeiro alarme na constatação da situação grave que vive o país, segundo Jorge Félix, “foi soado pelo médico Michael Marmot ao verificar que a expectativa de vida dos britânicos parou de crescer desde 2010 e caiu já em 2011. Nas cidades em processo de desindustrialização (pós-industriais) e nas áreas rurais isoladas da Inglaterra as pessoas estão morrendo mais jovens, enquanto os londrinos e moradores do sudeste ainda conseguem sustentar a taxa média nacional, mesmo assim, em patamar decepcionante.”

1ª Ministra Thereza May, 61

Querem falar com alguém
Ao lado da política econômica que não beneficiou a camada mais baixa da população, o próprio jeito do britânico ser, com seu senso agudo de privacidade, contribui para esse isolamento social. Durante anos, no período em que morei em Londres, visitei uma vez por semana uma senhora de 85 anos, viúva de um jornalista inglês que trabalhou como correspondente de um grande jornal brasileiro. Ela tinha uns poucos parentes no interior da Inglaterra, que nunca apareciam.

Quando se aproximava do dia da visita, ela, ansiosa, me ligava para confirmar, ter certeza que eu iria. Vivia num belíssimo apartamento, de cômodos amplos e mobiliário de época, perto do Hyde Park, o famoso parque no centro de Londres. Eu e o pessoal do serviço público de assistência éramos os únicos contatos dela com o mundo cá fora. Para mim, essa senhora era a personificação da solidão. Conheci muitas na situação dela.

Algumas vivendo um momento até pior. A organização Campanha Para Por Fim à Solidão divulgou que Médicos britânicos atendem todos os dias pacientes que não apresentam qualquer problema de saúde, mas querem conversar com alguém, confessam que se sentem solitários. E essa sensação de solidão tende a se aguçar nessa época do ano, quando os rigores do inverno – no hemisfério norte – tornam mais difícil o contato com outras pessoas.

A Ministra Tracey Crouch, 42

Grã-Bretanha = Santa Catarina
O jornalista Jorge Félix faz uma comparação entre a decadência da Grã-Bretanha e o avanço de certos países da Europa quando a questão é envelhecimento. “Enquanto assistem a outros europeus viverem muito mais, as mulheres inglesas estacionaram em uma expectativa de 82.9 anos e os homens em menos de 80 (79.2), o que é considerado bem modesto para um país rico. Ou seja, um britânico tem a mesma expectativa de vida, ao nascer, de um brasileiro de Santa Catarina. Um processo de latinização. E acelerado. Dezenove países europeus estão em melhor situação. O Reino Unido, assim, acompanha a tendência dos Estados Unidos entre os “deixados para trás” (left behind) na grande conquista do século XXI: a longevidade.”

Os britânicos têm medo de estarem assistindo em seu próprio país a uma repetição do que está acontecendo nos Estados Unidos, “onde estudo do prêmio Nobel de Economia Angus Deaton e da economista Anne Case encontraram também uma queda inédita na expectativa de vida de homens, brancos, não-hispânicos entre 45 e 54 anos. O principal motivo apontado por Deaton e Case foi a redução da cobertura da seguridade social. A falta de perspectiva de que um dia poderiam se aposentar como seus pais e avós está causando desilusão nesse segmento etário, vítima do fenômeno da “fragilização da segunda metade da carreira” ou, simplesmente, sem satisfação no trabalho pela ausência de qualquer chance de expressividade no que fazem.”

Jorge Felix faz um paralelo entre o que vive a Grã-Bretanha e o que pode acontecer com o Brasil, já que está havendo aqui a chamada “reprivatização da velhice”. Segundo ele, “sofisticação tecnológica, os tipos de integração no mercado de trabalho, cuidados na primeira infância e rede de suporte social à pessoa idosa são fatores, hoje, negligenciados. Eles degradam a saúde, operam contra a economia da longevidade e, certamente, ampliam a necessidade de no futuro o Brasil ser obrigado a também criar o seu Ministério da Solidão.”

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