Síndrome do ninho vazio: o impacto da saída dos filhos de casa

Depois de sofrer muito com a ausência da filha, que se casou, Francisca aproveitou o tempo sozinha para estudar e virar professora

Maya Santana, 50emais

De uma maneira geral, o pai também sofre, mas o impacto mais forte da saída dos filhos de casa costuma recair sobre a mãe. Muitas mães entram em depressão, por não conseguirem levar a vida sozinhas, sem os filhos. Esse sentimento de perda, de angústia causada pela ausência, ganhou o nome de síndrome do ninho vazio. A psicóloga Adriana Sartori, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, afirma que há poucos estudos sobre o tema no Brasil e que a síndrome é difícil de ser diagnosticada, pois costuma ocorrer simultaneamente a outros processos – como a aposentadoria, o envelhecimento e o adoecimento dos próprios pais.

Leia a reportagem de Alessandra Goes Alves para a BBC Brasil:

Apesar de sentir-se realizada ao ver a única filha casar e estruturar uma nova vida, Hebe desmoronou quando se viu sozinha em casa, em 2017.

“Quando eu falava dela, sentia uma vontade incontrolável de chorar. A razão dizia que eu precisava construir novos laços, mas o sentimento era de não querer conversar com outras pessoas”, conta Hebe, hoje com 52 anos e viúva há 13.

Formada em Economia, ela trabalha como bancária há 29 anos em Jundiaí (SP). Apesar de gostar do trabalho, não conseguia lidar com a solidão e sentiu dificuldades para recriar a rotina, agora voltada para si e não mais para a filha Ana Carolina.

“É difícil não ter mais uma pessoa para cuidar e conversar. Eu não fazia muita coisa sozinha, a maioria do meu tempo era para ela, com ela e por ela”, diz Hebe. “Ela tinha atividades durante o dia, mas a gente sempre conversava quando ela chegava em casa, mesmo que fosse tarde da noite. Eu não ficava totalmente sozinha.”

Após a saída da filha, Hebe começou a apresentar sintomas depressivos: só saía de casa para trabalhar e visitar os pais, sentia dores intensas no corpo e vontade constante de chorar.

Em abril de 2018, após 11 meses, Hebe decidiu buscar uma psicóloga e foi diagnosticada com a síndrome do ninho vazio (SNV), caracterizada pelo sofrimento dos pais após o esvaziamento da casa pela saída dos filhos.

“Abri mão das minhas coisas pensando apenas nela. A gente se apega e acaba se esquecendo um pouco da gente”, afirma.

Apesar de não se arrepender da dedicação à filha, Hebe hoje reconhece a importância de buscar outras atividades de seu interesse e de construir si mesma em outros papéis além da maternidade.

“Se eu já tivesse feito isso antes dela sair, talvez não sentisse tanto essa ausência. Não é largar os filhos, mas criar vida além deles.”

Se antes esperava convites para sair de casa, agora Hebe busca viver de outra maneira. “Chorava a ausência dela e pensava que alguém poderia me convidar para sair. Agora não fico mais lamentando e tento convidar as pessoas”, conta.

Hoje, Hebe acompanha Ana Carolina por telefone e nos almoços de fins de semana. Apesar de ainda sentir falta da filha, ela considera que o contato não se perde: apenas se transforma. “Os filhos precisam seguir o caminho deles e nós que temos que buscar o nosso, sem a presença deles tão constante.”

Dificuldades para diagnosticar
Segundo a psicóloga Adriana Sartori, mestra no tema pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), a síndrome do ninho vazio (SNV) começa como uma tristeza leve e pode evoluir até a depressão.

“Só se pode falar em SNV quando esse sofrimento se estende por mais de seis meses e impossibilita os pais de continuarem sua rotina com o mesmo prazer que tinham antes dos filhos saírem”, explica a psicóloga.

Um comentário

  1. Essa síndrome não ocorre somente com relação à filhos. Me senti assim quando percebi que outras pessoas da minha família, que nunca moraram comigo,de seguiram suas vidas e não precisavam mais da minha atenção. Depois de um longo período tentando negar que eu estava deprimida, resolvi encarar a realidade, porque essa era a única chance de sair do sofrimento,sofrer até a última gota.A pior atitude,embora inconsciente, é fingir que não é tão grave essa dor. É um luto que deve ser vivido e sofrido , um luto solitário, que só começa a melhorar depois que temos a coragem de entender que temos forças para seguir sozinhas. E como qualquer superação, saímos machucadas,mas aprendemos a nos reciclar.

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