Tarot da Semana: Os truques do dia-a-dia

Show de mágica é sempre uma experiência mais do que interessante

Show de mágica é sempre uma experiência mais do que interessante

Alexandre Moreira, Tarólogo

Gosto quando numa leitura de tarot, a carta número 1, a do Mago, aparece. Vamos convir: não há quem nunca tenha se deslumbrado, ou pelo menos ficado com “a pulga atrás da orelha”, ao assistir a um show de mágica. É sempre uma experiência mais do que interessante, pois vamos a ela por vontade própria, sabendo desde o princípio que aquilo não é mais do que um truque, que seremos literalmente enganados, confundidos, tapeados mas, mesmo assim, nos deixamos seduzir pelo truque.

Magos somos todos nós: aqueles que estão nos palcos, nos circos, nos programas de TV, que ganham a vida criando e vendendo ilusões momentâneas, e cada um de nós, em nossas vidas que às vezes parecem tão comuns, tão pouco emocionantes, tão previsíveis. A carta do Mago, no tarot, é a primeira e existe para nos lembrar exatamente disso: que somos criadores de tudo aquilo que acontece em nossas vidas. Em alguns essa noção é praticamente uma questão de fé em si mesmo. Em outros, um elaborado programa destinado a atingir as metas desejadas. Seja por autoconfiança ou disciplina, todos podemos realizar nossos desejos, dar forma aos nossos sonhos, concretizar aquilo que imaginamos.

A tal da criatividade é uma das palavras que definem essas “mágicas”. Lembram-se de uma publicidade em que o marido ligava para a mulher dizendo que ia levar alguns colegas de trabalho, daí a pouco, para jantar e ela, ainda que pega de surpresa, tinha a brilhante ideia de abrir uma lata de creme de leite e juntar ao simples picadinho de carne que estava preparando e… VOILÀ! Um maravilhoso estrogonofe estava pronto para ser servido e receber os maiores elogios. Lembram-se disso? Pois é, essa é a “mágica” que tantas e tantas pessoas fazem diariamente dentro de uma cozinha, por exemplo.

Mas, como sempre eu procuro recordar, todas as cartas oraculares tem um lado “sombra”, um aspecto negativo que deve ser, também, levado em consideração. Querem um exemplo corriqueiro? Quando não tenho dinheiro suficiente em conta para comprar aquele produto (roupa, sapato, perfume, celular, bolsa, joia, etc) sem o qual eu “não poderei viver mais um dia” e decido por minha capa de mágico, pego minha cartola e varinha de condão e me dirijo ao caixa eletrônico do meu banco onde faço, com pouquíssimos toques de dedos, aquele empréstimo a perder de vista e saio com o dinheiro desejado.

Aí, sem dúvida, aparece o lado perigoso, os bastidores do truque: vou resolver magicamente uma situação, realizar um desejo, obter uma satisfação (e, por favor, observem que eu não estou falando em coisas realmente necessárias, mas em supérfluos que podem aguardar melhor época para serem adquiridos) mas é só mesmo um truque, uma tapeação momentânea. Até liquidar todas as parcelas do empréstimo, acrescidas de juros exorbitantes, aquele tão desejado produto, em verdade, não é meu. Posso tê-lo usado, posso ter satisfeito um desejo momentâneo, posso guarda-lo em minha casa, mas ele pertence, legalmente, ao dono da máquina onde eu, usando cartões de plástico e digitando senhas, consegui transformar sonho em realidade. Aliás, para o dono daquele caixa eletrônico, essa mágica operação tem outro nome: contrato legal de pagamento de prestações em número e prazo determinado acrescidas de juros pré-estabelecidos, encargos bancários e demais taxas aplicáveis.

Amanhã talvez seja necessário fazer-se um novo espetáculo e torcer, com muita fé, para que saia um coelho dessa cartola que resolva esse novo problema. Mas afinal, somos ou não Magos?

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