Três séculos de escravidão: “A mais terrível de nossas heranças”

“Todos nós, brasileiros, somos, por igual, a mão possessa que os supliciou”

Maya Santana, 50emais

Uma mancha na História brasileira. Uma vergonha! Um absurdo inominável! Difícil imaginar palavras capazes de descrever o que significou a escravidão no Brasil, cujo fim se deu com a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, assinada pela princesa Isabel. Homens, mulheres e crianças, retiradas à força de países africanos como Angola, Moçambique, Congo, Guiné Bissau, Cabo Verde, Nigéria e outros, vieram parar aqui no Brasil. Foram cerca de três milhões e seiscentos mil escravizados. Durante mais de 300 anos, do século 16 ao século 18, o tráfico negreiro permaneceu intenso, transformando o Brasil no país que mais importou escravos. A viagem da África para cá era feita em condições indescritíveis. Milhares de negros não suportaram e morreram na travessia. Chegando aqui, vendidos para fazendeiros e gente abastada, eram tratados com impiedade, trabalhando 16 horas por dia e sofrendo castigos monstruosos. O reflexo desses acontecimentos teve profundo impacto na formação dos brasileiros, como mostra este texto magistral do sociólogo e antropólogo Darcy Ribeiro (1922/1997), que publico novamente, a propósito do Dia Nascional da Consciência Negra, neste 20 de novembro.

Leia:

“Apresado aos quinze anos em sua terra, como se fosse uma caça apanhada numa armadilha, ele era arrastado pelo pombeiro – mercador africano de escravos – para a praia, onde seria resgatado em troca de tabaco, aguardente e bugigangas.

Ilustração do livro Viagens Pitorescas e Histórica ao Brasil , 1835,

Ilustração do livro Viagens Pitorescas e Histórica ao Brasil , 1835, de Jean Baptiste Debret

Dali partiam em comboios, pescoço atado a pescoço com outros negros, numa corda puxada até o corpo e o tumbeiro. Metido no navio, era deitado no meio de cem outros para ocupar, por meios e meio, o exíguo espaço do seu tamanho, mal comendo, mal cagando ali mesmo, no meio da fedentina mais hedionda. Escapando vivo à travessia, caía no outro mercado, no lado de cá, onde era examinado como um cavalo magro. Avaliado pelos dentes, pela grossura dos tornozelos e nos punhos, era arrematado.

Outro comboio, agora de correntes, o levava à terra adentro, ao senhor das minas ou dos açúcares, para viver o destino que lhe havia prescrito a civilização: trabalhar dezoito horas por dia todos os dias do ano. No domingo, podia cultivar uma rocinha, devorar faminto a parca e porca ração de bicho com que restaurava sua capacidade de trabalhar, no dia seguinte, até à exaustão.

Outra ilustração de Debret mostra a crueldade dos castigos impostos ao negro

Outra ilustração de Debret mostra a crueldade dos castigos impostos ao negro

Sem amor de ninguém, sem família, sem sexo que não fosse a masturbação, sem nenhuma identificação possível com ninguém – seu capataz podia ser um negro, seus companheiros de infortúnio, inimigos –, maltrapilho e sujo, feio e fedido, perebento e enfermo, sem qualquer gozo ou orgulho do corpo, vivia a sua rotina. Esta era sofrer todo o dia o castigo diário das chicotadas soltas para trabalhar atento e tenso.

Semanalmente, vinha um castigo preventivo, pedagógico, para não pensar em fuga, e, quando chamava atenção, recaía sobre ele um castigo exemplar, na forma de mutilação de dedos, do furo de seio, de queimaduras com tição, de ter todos os dentes quebrados criteriosamente, ou dos açoites no pelourinho, sob 300 chicotadas de uma vez, para matar, ou 50 chicotadas diárias, para sobreviver. Se fugia e era apanhado, podia ser marcado com ferro em brasa, tendo um tendão cortado, viver peado com uma bola de ferro, ser queimado vivo, em dias de agonia, na boca da fornalha ou, de uma vez só, jogado nela para arder como um graveto oleoso.

O Brasil foi o país que mais importou negros africanos para escravizá-los

O Brasil foi o país que mais importou africanos para escravizá-los

Nenhum povo que passasse por isso como sua rotina de vida através de séculos sairia dela sem ficar marcado indelevelmente. Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós, brasileiros, somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal que também somos. Descendentes de escravos e senhores de escravos seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria.

A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista. Ela é que incandesce, ainda hoje, em tanta autoridade brasileira predisposta a torturar, seviciar e machucar os pobres que lhes caem às mãos. Ela, porém, provocando crescente indignação nos dará forças, amanhã, para conter os possessos e criar aqui uma sociedade solidária.” (Do livro “O povo brasileiro”, editora Companhia das Letras, 1995).

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Um comentário

  1. Nem todos. Esqueceram das levas de imigrantes q aqui se miscigenaram, havendo trabalhado e sofrido tanto quanto, embora ditos livres. Somos esse caldo.

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