Uma delicada reflexão do que significa chegar aos 80 anos

A jornalista e escritora Marina Colasanti chegou ao 80 em setembro

Maya Santana, 50emais

Marina Colasanti completou 80 anos há poucas semanas, em 26 de setembro. Quando a gente assiste ao vídeo abaixo, no qual ela faz uma espécie de balanço de suas oito décadas de vida, falando bastante do tempo e da morte, é fácil se encantar com o jeito delicado desta jornalista e escritora. Nascida na Eritreia, na África, então uma colônia italiana, Marina viveria na Líbia, outro país africano, e na Itália, antes de vir com a família para o Brasil, em 1948. Aqui, casou-se com o também escritor Affonso Romano de Sant’Anna. Ela publicou 50 livros, entre contos, poesia, prosa, literatura infantil e infanto-juvenil. E é detentora dos prêmios literários mais importantes.

Leia a sensível reflexão sobre sua chegada aos 80 anos:

“E assim, aconteceu que esta semana eu fizesse 80 anos!

Nunca imaginei chegar tão longe. Filha de uma mãe que morreu aos 40, considerava-me destinada a curto percurso. E a vida não parecia ter por mim grande apreço; tentou me matar de pneumonia aos seis anos, dardejou-me uma meningite aos oito, castigou-me com inúmeras pneumonias ao longo de todo o percurso e, já no terceiro ato, coroou o conjunto com uma tuberculose. Mas, como se disputasse uma maratona, cheguei aos 80 esbaforida somente pelo trabalho.

80 anos são uma tremenda esquina da vida.

Com certeza chegamos a ela mais frágeis, porque a possibilidade de morte, que sempre foi a mesma mas que antes parecia eventual, ganha uma certa concretude.

E, ao mesmo tempo, chegamos mais fortes porque a maior parte do caminho foi percorrida, as inseguranças da juventude ficaram para trás, alguma tantas perguntas já foram respondidas, e o que havia a fazer já foi feito.

Certas coisas mudam, porém, aos 80.

Não terei mais cão, porque um cão correria o risco de viver mais do que eu, e não quero prometer proteção e amor a alguém para de repente descumprir a promessa. Não faço mais projetos a longo prazo; vou até alguns meses à frente, aos compromissos já marcados, embora sabendo que para o ano que vem marcarei outros. Não vou mais imaginar-me mergulhada em estudos de alemão, como sempre fiz, e muito menos de mandarim, como minha curiosidade me ordenaria.

No capítulo viagens, dou uma fechadinha no leque; não conhecerei o Himalaia, não enfrentarei falta de hotel ou de banheiro, não caminharei tardes inteiras atendendo minha ânsia turística. E até nos museus, minha sempre paixão, terei que ser menos gulosa.

Fecho o leque da realidade, mas tenho outro para abrir. As minhas viagens, tantas, estão anotadas em cadernos e cadernetas. Ali estão datas, descrições e até desenhos ou rabiscos retendo aquilo que ameaçava diluir. Agora, me basta abrir qualquer um deles para retomar a estrada.

Isso, quanto às viagens facultativas e aventurosas. As outras, de trabalho, continuam na ordem do dia, levando-me a arrastar minha malinha de rodas pelos aeroportos da vida.

Aos 80, considero todo dia como um presente dos deuses, embora até hoje não saiba quem são eles. E toda noite agradeço com gratidão, mesmo com a indecisão do endereço.

Até essa esquina olha-se para a frente. Chegando a ela, o retrovisor se impõe.

Olho para trás e o que vejo me agrada. Vivi com abundância, a palavra melhor é essa. Abundância biográfica de países, de línguas e culturas. Abundância de situações, as favoráveis e as adversas. Abundância de encontros com pessoas preciosas, com criaturas admiráveis, e alguns poucos canalhas, úteis como referência. Trabalhei em muitas coisas diferentes e de todas gostei, porque de cada uma fiz um degrau de aprendizado que me permitiu desempenhar a próxima. Li quase todos os dias da minha vida, fosse pouco ou muito, enchendo a mochila de dados que eu embaralharia, de nomes que se iriam no vento, mas conservando as emoções que os livros me davam. Não escrevi tanto quanto li, nem teria sido possível. Mas o que escrevi está de acordo comigo e me representa mais generosamente que uma selfie.

Considero estar pronta para o embarque. Mas enquanto meu vôo não é anunciado, vou estruturando — como faço com frequência em aeroportos — ideias e frases de um próximo livro.”

Veja Marina Colassanti no vídeo gravado poucos meses antes dela completar 80 anos, em setembro deste ano:

28 comentários

  1. Sempre admirei Marina Colasanti. Gostava muito de ler as crônicas da revista, não me lembro mais de qual revista, mas nunca me esqueci do nome dela. Amei essa entrevista, nos dando um pouco mais de si…..Marina ….

  2. Chegou muito bem!!! Linda e brilhante

  3. Parabéns vizinha ,sempre a vejo elegante em toda e qualquer circunstância ! Bela a sua tragetoria de vida ,um abraço.

  4. Sempre achei uma mulher maravilhosa! Agora, gosto ainda mais dela!

  5. Parabéns ! Maravilhosa….

  6. Uma maravilha, uma suavidade na fala é nós contos. Adoro.
    Quem me dera ter esse dom!

  7. ELA CONSEGUIU COLOCAREM PALAVRAS COMO ME SINTO HOJE AOS 72 ANOS DE IDADE.

    • Ana, estou com 66 e ja estou indo pelo mesmo caminho, com as metas, finalidades e desejos. Tambem olho para tras para ver o tapete colorido de minhas experiencias mas ainda com os olhos no agora e quem sabe, amanha.
      Gostaria muito de falar com Marina pessoalmente. Quem sabe ela ainda vem pros meus lados? Como dizem por aqui: ‘something to look forward to’.

  8. Pbns a essa gde escritora q sempre me despertou como leitora.

  9. Linda, leve e lúcida aos 80, como deveria ser com todas nós…

  10. FRANCISCA CONCEIÇÃO CRUZ

    Que admiração essa mulher me causa, por tudo, pela beleza, pela suavidade, pela sabedoria, até sua voz é doce…nem parece que tem 80 anos, é uma deusa é uma dádiva é exemplo de ser humano.

  11. Sonia Clara Ghiveldet

    Marina,

    Há em seu depoimento uma fecunda partitura que não se esgotou porque o tempo eh indeterminado.
    Emocionante.
    Bjos, carinho
    Sonia

  12. Simplesmente…linda…inspiradora

  13. É extremamente vital ouvir alguém, com o alcance de Marina, falar das inquietações e reflexões que habitam teu coração. Tudo o que diz traz o sinete da vida, da verdadeira vida. Sua mensagem vem corroborar que a Velhice é a idade da essência e não da circunstância! E ela soube e sabe vivê-la com rara simplicidade. Obrigada, Marina!

  14. É essencial para vida.A Simplicidade.
    Obrigado!

  15. So apaixonada pela Marina Colasanti. Ela é o que há de melhor!!!!

  16. Delicia de entrevista!!
    Sempre gostei muito de Marina, agora gosto mais , depois de ouví-la!!
    Parabéns menina!!!

  17. Sensacional! Uma história de vida linda!

  18. Ela escrevia para a revista Claudia maravilhosamente Lúcida e linda!!

  19. Marina,

    Teus comentários, além de pertinentes, refletem não só a tua idade mas a tua acuidade e sensibilidade na percepção da vida. Comentários feitos com tua famosa capacidade de expressão onde cada palavra conta.
    Tenho 81 e…vamos em frente!!!!

  20. Uma reflexão que me trouxe muita calma!
    Parabéns pela belíssima vida!
    Avante!

  21. Marina, esse vídeo-presente me chegou às mãos por um post do Facebook.
    Você me encantou nos tempos da Estrutural, me emocionou como parceira do meu cunhado Rogério, embeleza o meu “family room” com o seu Mulher de Chapéu Amarelo e hoje quase morro de susto ao me dar conta que o tempo passou não só para mim.
    Pelo jeito, você ainda não entendeu que é eterna.
    Por favor, aceite um abraço muito apertado e um carinho sem fim.

  22. Marina, quanto tempo. Volta a fita para 1968, ante-sala de Alberto Dines: lá estava eu, como sempre te admirando como pessoa e profissional. Vc é uma pessoa que certamente eu reconheceria se passasse por mim na rua. Embora vc não saiba, tivemos algo em comum.: a leitura. Receba um abraço carinhoso e vamos em frente até onde der pra ir.

  23. Estive ao lado dela na agência do Correios da Praça General Osório. Sentei – me a seu lado, puxei conversa e dei um fora enorme cotando uma crônica que não era dela. Acho que foi a emoção. Adorei o que Você escreveu, também sou dê 37…Abraço afetuoso, Poeta!

  24. Linda , especial e diz o que eu com 62 já digo .A vida é preciosa e precisa e com tempo vamos tomando consciência dessas condições.E como ela tbm , .apesar de amar os animais não posso mais tê-los .Parabéns linda Marina vc é super especial.

  25. fantastica! Sempre pequenos frascos contem grandes perfumes. Saude e admiracao!

Deixe seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos marcados com asterisco são obrigatórios. *

*