Vamos todos gritar bem alto: “Abaixo a cultura do estupro”

Um dos muitos protestos Brasil afora contra o estupro coletivo no Rio de Janeiro

Um dos muitos protestos Brasil afora contra o estupro coletivo no Rio de Janeiro

Déa Januzzi

Não me interessa se é gordo ou magro. Se é bonito ou feio. Se é alto ou baixo. Se tem deficiência, se é louco ou muito normal. Se é gênio ou burro. Se é macho ou gay. Se é branco ou negro. Se tem namoradas(os) de menos ou demais. Se homem ou mulher.

O que me incomoda é que um ser humano, seja filho ou filha, trate mal a mãe, a avó, os tios, os mais velhos. Se não cede lugar no ônibus para as mulheres grávidas. Se ele(a) senta no lugar reservado aos idosos e nem enxerga se algum deles está em pé.

O que me incomoda é que não consiga olhar para o próximo com compreensão e generosidade, se fecha o vidro do carro quando surge a primeira pessoa pobre. Que não tenha indignação suficiente para mudar o que precisa ser mudado. O que me incomoda é não respeitar o professor, o colega ao lado, o segurança, o porteiro, a faxineira. Que seja sempre uma pessoa mais ou menos, morna.

Não me incomoda se não fez primeira comunhão, se vai ou não à missa, se reza dez vezes ao dia. O que me incomoda é que não tenha fé na vida e na humanidade, é não perceber que existem pessoas dignas em todos os lugares. O que me incomoda é que não se comova diante das desigualdades sociais, com o enorme fosso que separa pobres e ricos. O que me incomoda é que não lute para transformar a sociedade, que não fique escandalizado com o sofrimento do outro. Não me interessa se um filho nasceu homem ou mulher, mas me incomoda quando compactua com a mesmice das coisas.

O que me agrada é ver um filho, seja homem ou mulher, respeitar a verdade, ter valores eternos. Não me incomoda se um filho anda de fusca ou de Mercedes, se a filha vai ser bruxa ou princesa. Se vai ter um sapatinho de vidro ou de cristal, se vai ser a megera ou a Cinderela da história. Se vai casar com um príncipe ou um sapo. Se anda de saia curta e decote. Se mostra os ombros, os seios, as costas e o corpo.

Interessa se tem lágrimas para chorar diante das injustiças. Interessa é o arrepio na pele diante do pôr-do-sol ou da imensidão do mar, é ficar íntimo da magia de viver. O que me importa é que seja do bem, com todos os acertos e desacertos. Que tenha o direito de errar. Que seja uma pessoa agradável, doce, terna, em meio à aridez do mundo e que saiba resolver os impasses da vida, que vença o medo e a insegurança, que não tenha que se exibir, se travestir de coragem para manter as aparências. Que saiba ir e voltar, mudar de opinião quantas vezes quiser. Que faça uma revolução em seu coração, que conquiste territórios desconhecidos, mas fuja da guerra de cada dia. Que vença os inimigos da vida e aceite as diferenças. O que interessa é que mundo não precisa mais de domadores de búfalos, mas de homens que também saibam cozinhar, cooperar e somar.

O que me importa é que tenha garra, mas alma leve. Força suficiente para se enternecer. O que me incomoda é que um filho não possa chorar quando tiver vontade, que tenha vergonha de ser gentil, que não possa se vestir de rosa desde bebê. Que um filho use a cabeça para planejar, administrar e vencer, mas seja também uma grande pessoa, capaz de entender e respeitar as mulheres e suas conquistas, que dê ouvidos aos seus sentimentos, que não compactue com as estatísticas de violência contra a mulher. A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil e, geralmente, por familiares e pessoas que ela conhece.

O que me importa é que uma filha tenha força para vencer as barreiras e não fique esperando que o príncipe encantado venha salvá-la de si mesma, num cavalo branco. É que ela não seja violentada nem roubem a poesia que insiste em morar dentro dela. Que não estuprem os sonhos. Nem joguem a dignidade na lama!

O que me comove é ter um filho com sentimentos alvos, é que ele também tenha o direito de ser frágil. O que me importa é que uma filha possa ser tão livre e independente quanto o filho. Que a filha tenha o mesmo poder do filho, a mesma importância. O que me interessa é que homens e mulheres sejam iguais perante a vida. Não me importa se um filho vai ser poeta ou médico, bailarino ou mecânico. Se minha filha vai ser astronauta ou professora ou operária, mas que seja livre para escolher.

Não me importa se é católico, protestante, evangélico ou ateu, mas que seja firme em suas decisões, que creia em si mesmo, que beba na taça da fraternidade e da Justiça, que tenha fé num mundo novo, independente de ser homem ou mulher. Não me importa que chova canivete ou caiam estrelas, mas que os filhos tenham livre arbítrio, independentemente de ser homem ou mulher.

O que preciso dizer hoje para o mundo é que mulheres e homens têm que se unir e gritar bem alto, até perderem a voz: “Abaixo a cultura do estupro!”!

2 comentários

  1. Déa que texto! Fui tocada no coração!
    Muito triste o que inúmeras pessoas passam, sejam mulheres, homens, crianças ou adultos.
    Vamos unir e gritar por um mundo sem este tipo de dor.

  2. MARINEZ MARAVALHAS

    Parabéns Déa. Seu texto é belo e conscientizador.

Deixe seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos marcados com asterisco são obrigatórios. *

*