Nunca escondi a idade, porque nunca tive motivos

Continuo achando que ainda tenho tempo de planejar um futuro que nunca esteve nos meus planos

Continuo achando que ainda tenho tempo de planejar um futuro que nunca esteve nos meus planos

Déa Januzzi

Vivi os 20, 30, 40, com tamanha intensidade que às vezes parecia exagerada. Confesso que hoje só bebo vinho, mas continuo cometendo excessos aos 60 ou mais. Tenho sede de poesia e da embriaguez dos sentidos, voo demais e por isso nunca me lembro das coisas objetivas. Confesso que quero parar de fumar. Todas as amigas da minha geração conseguiram. Eu não, mas continuo achando que ainda tenho tempo de planejar um futuro que nunca esteve nos meus planos.Vivi o tempo todo no presente, usufruindo o melhor dele, mas não lembrei de aprender um outro idioma, de comprar uma casa e de tirar carteira de motorista.

Aí, cheguei aos 58  – e entrei em crise. Fiquei doente ao descobrir que não tenho onde morar, um lugar para fechar a porta e transformá-lo em ninho para as minhas certezas e incertezas. Não sei falar inglês nem francês nem espanhol, imagine alemão e mandarim. Estou presa à língua pátria e sou dependente de um tradutor nas minhas viagens por outros mundos.

Meu filho, de 33 anos, diz que eu só sei escrever, nada mais. Mas . Escrever para mim é libertar os meus fantasmas, é dedicar o melhor de mim aos leitores, é abrir as portas internas, mergulhar no oceano profundo das minhas emoções.

Decisão número 1: Fazer a inscrição na Aliança Francesa, onde duas vezes por semana tentarei recuperar o meu francês de escola. Podem me chamar de louca ou de desvairada, porque a língua oficial hoje é o inglês e os meus amigos que já dominam esse idioma que todos falam, já estão partindo para o mandarim ou alemão. E eu, lá, com saudades imensas do meu francês!

Mas voltando à crise dos 58 anos, confesso que passei boa parte das minhas férias tentando refazer o caminho e saber como viver o resto de tempo que ainda tenho. Mais 20? Minha mãe viveu até 91 e foi emborar apenas há dois, mas deixou umr ombo enorme na minha vida. Por isso tive que tomar algumas decisões objetivas aos 50 ou mais.

Decisão número 2: Quero ter mais tempo para mim mesma e acho que vou fazer como aquela música da Elis Regina: “Quero uma casa no campo, para levar meus amigos, meus discos e livros e nada mais. E, hoje, um notebook. Quem sabe eu viro uma escritora de verdade?

Decisão número 3: Lá em Caeté, em Minas Gerais, tem um projeto de vida que vou correr atrás: de morar numa ecovila autosustentável. Quero uma casa bem simples, mas ousada. Já descobri um arquiteto em Minas, o Flávio Duarte, que acaba de projetar e construir uma casa em forma de estrela lá em Rio Manso. Tudo dentro dos princípios ecológicos, com tijolos de adobe e materiais alternativos. A piscina é em forma de meia-lua. E sabe como é que ele começa os projetos? Pede para que a gente mande uma carta de intenções. Pode ser um poema ou um texto sobre a casa que quero morar.. Espero que ele seja o arquiteto dos meus sonhos. E também voe comigo. Você não acha que já é um bom começo para quem tem 50 anos ou mais?

Esta crônica da jornalita e escritora Déa Januzzi foi publicada pela primeira vez no 50emais em junho de 2014.

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4 comentários

  1. Maria fo Carmo Fleury Lobo

    Adorei seu texto, Déa, me vi em quase todas as situaćoes. Vá em frente com seus planos, escritora!

  2. Conheci essa cronica em outubro de 2014, quando apos conhecer esse Blog durante os anos anteriores, comecei a postar meus comentarios; nessa epoca assim me manifestei:

    Dea,
    Acompanho voce faz tanto tempo e mais ainda porque sempre me identifiquei com tanta coisa sua…eu e minha irmã que lá em Valadares, ainda tem jornais amarelados pelo tempo, que guardam o que voce escreveu e que disse igualmente de nossos sonhos.
    Pois bem, fiz 61 anos em março, aposentei sem ter casa propria, nunca dirigi, ando mais a pé que muita gente, nunca escondi a idade (e sempre acham que tenho bem menos), não falo outro idioma e ….ADORO ESCREVER!
    Quer mais? Não se sinta sozinha, pois para minha sonhada casinha em uma “Vila para Gente Madura” quero apenas continuar como sempre sou, mas tambem levando meu notebook, meus livros, meus cds e dvds e estar rodeada de gente que gosta de conversar, comer sem culpa e viver de forma solidaria e confiante.
    AH! Conheço o Projeto da Ecovila de Caeté atraves de reportagem que tambem guardei.

    Dois anos se passaram e meu maior projeto é sempre continuar dando conta cuidar de mim mesma e fortalecer os laços de convivencia, desejando que se transformem em laços afetivos…

    Meu abraço,
    Genoveva

  3. Pois é, ao 52 quero aprender inglês, finalmente!!! Vou tentar, afinal, acho que ainda tenho tempo!

  4. Déa, te reencontrei. Te acompanhava no Estado de Minas. Hoje perguntei ao Google: – “Aonde andará Déa Januzzi? E ele não falha me trouxe até aqui. Guardo bem guardada a crônica “Para Amélia”. abraços

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