“Inadmissível, inaceitável e insuportável”

A ministra, 62: É inadmissível, inaceitável e insuportável ter de conviver sequer com a ideia de violência contra a mulher em nível tão assustadoramente hediondo e degradante

Ministra Carmem Lúcia, 62, sobre estupro coletivo: É inadmissível, inaceitável e insuportável ter de conviver sequer com a ideia de violência contra a mulher em nível tão assustadoramente hediondo e degradante

Maya Santana

Esta manhã, um amigo me ligou. Lá pelo meio da conversa, comentei a grande repercussão que vem tendo o estupro coletivo de uma adolescente de 16 anos, no Rio de Janeiro. Meu amigo, então, me disse: “É sobre isso que estava falando há pouco com um motorista de táxi. Mas o motorista duvida da versão da menina, porque, segundo ele, estas meninas são todas iguais: gostam de ir para festas nas favelas e de manter relações sexuais com os rapazes. É um tipo de lazer para elas.” Fiquei calada, guardando a minha indignação. E meu amigo continuou:”O motorista não acredita no que ela disse. Como é que ela conseguiu contar mais de 30 homens em cima dela?”

Depois que desliguei o telefone, fiquei pensando – a maioria dos homens brasileiros é tão machista que não consegue – e não se interessa em – imaginar o drama da mulher vítima de estupro. Falta sensibilidade. Eles também se esquecem que têm mãe, filhas, irmãs, primas, amigas. Qualquer uma delas pode ser vítima desses caras cheios de si, inescrupulosos, estúpidos.

A esperança é que as brasileiras estão acordando e começam a reagir. A manifestação da ministra Carmem Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, logo depois que a notícia do estupro foi divulgada, fala por todas nós:

“Não pergunto o nome da vítima: é cada uma e todas nós mulheres e até mesmo os homens civilizados, que se põem contra a barbárie deste crime, escancarado feito cancro de perversidade e horror a todo o mundo.

O gravíssimo delito praticado contra essa menor – mulher e, nessa condição, sujeita a todos os tipos de violência em nossa sociedade – repugna qualquer ideia de civilização ou mesmo de humanidade.

É inadmissível, inaceitável e insuportável ter de conviver sequer com a ideia de violência contra a mulher em nível tão assustadoramente hediondo e degradante. Não é a vítima que é apenas violentada. É cada ser humano capaz de ver o outro e no outro a sua própria identidade.

A luta contra tal crueldade é intensa, permanente, cabendo a cada um de nós – mais ainda juízes – atuar para dar cobro e resposta à sociedade contra tal chaga da sociedade.

O que ocorreu não é apenas uma injustiça a se corrigir; é uma violência a se responsabilizar e a se prevenir para que outras não aconteçam.

Repito: a nós mulheres não cabe perguntar quem é a vítima: é cada uma e todas nós. Nosso corpo como flagelo, nossa alma como lixo. É o que pensam e praticam os criminosos que haverão de ser devida e rapidamente responsabilizados.”

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Um comentário

  1. Causa indignação tamanha brutalidade com um ser humano

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