Moradia: coabitação ganha cada vez mais adeptos entre idosos

Morar junto, mas com independência é a filosofia da cohabitação

Morar junto, mas com independência é a filosofia da cohabitação

Déa Januzzi

Jorge Félix tem 49 anos e foi o primeiro pesquisador (CNPq) a citar o conceito economia da longevidade (silvereconomy) no Brasil. Doutorando em Sociologia e mestre em Economia Política, ele nasceu no Rio de Janeiro, mas mora em São Paulo. É jornalista e escreveu o livro “Viver Muito”, da Editora Leya, sobre o envelhecimento populacional. Eu o conheci durante a solenidade de entrega do II Prêmio de Jornalismo Bradesco, em São Paulo, onde Jorge Félix era um dos palestrantes. Neste artigo, ele fala sobre novas formas de morar para uma população que envelhece e que não quer viver em instituições de longa permanência ou na casa dos filhos. A geração baby boom, que tem hoje entre 60 e 75 anos, não quer dar trabalho, afinal, alguns optaram por ter um ou dois filhos e até em não ser pai nem mãe.

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“Eu não quero ser um problema para os meus filhos”. A frase é recorrente quando o tema é envelhecer. Ela costuma ser acompanhada por revelações de desejos de permanecer morando em sua própria casa, se possível, perto dos filhos e dos netos, e quase sempre ouve-se ainda palavras duras de rejeição a asilos. O fato de todos estarmos vivendo muito mais está transformando esse sonho bastante comum em negócio. A vontade de manter a autonomia na velhice e, ao mesmo tempo, conviver com pessoas de várias idades, promete impulsionar no Brasil uma das maiores tendências mundiais no setor imobiliário. O fenômeno da coabitação (ou cohousing, em inglês) ganha cada vez mais espaço nos países em processo de envelhecimento populacional, como Grã-Bretanha, Estados Unidos, Alemanha, Itália entre outros e atrai investidores atentos às oportunidades de negócios suscitadas pela nova dinâmica demográfica do planeta.

Embora em quase todos esses países ainda prevaleça os modelos de centros-dias (as “creches” para idosos), instituições de longa permanência (os asilos tradicionais) ou as repúblicas de idosos, as coabitações avançam com a onda de resgate de um estilo de vida comunitária, compartilhada e mais comprometida com o meio ambiente (environment friedly). Nos Países Baixos, já existem 200 moradias no modelo de coabitação, segundo a UK Cohousing Network, rede sediada no Reino Unido cujo objetivo é reunir pessoas dispostas a adquirir esses imóveis. O esquema existe desde os anos 1970 na Europa, a maioria formada por voluntarismo de amigos, só que agora atingiu o auge e amadureceu como business. Nos próximos meses, a OlderWomen´sCohousingGroup (www.owch.org.uk), vinte mulheres entre 55 e 80 anos, inaugura em Barnet, no norte de Londres, o primeiro empreendimento “feito por e para idosos” na Grã-Bretanha.

O conceito de coabitação é carregado de um sentido filosófico que se opõe ao individualismo dos nossos tempos e procura enfrentar o isolamento do ser humano nas megalópoles globais. Ou seja, a solidão. O outro ponto chave é abolir qualquer tipo de hierarquia na gestão do local. Os imóveis guardam algumas características dos pequenos condomínios ou vilas, no entanto, são projetados com espaços comuns como uma cozinha grande para refeições em grupo. “A ideia nasce com a intenção de tecer vínculos que desapareceram ao longo do tempo e, quando se concretiza esse tipo de moradia, as possibilidades de compartilhamento surgem e se multiplicam”, acredita a arquiteta Lilian AviviaLubochinski, pioneira no Brasil em estudos desse modelo.

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Atualmente, Lilian está em fase de montagem de uma coabitação na Granja Viana (bairro paulistano às margens da Rodovia Raposo Tavares) e ela mesma será uma das moradoras. “Os mais entusiasmados são os baby boomers como eu, mas há pessoas de várias idades. A urgência por uma solução digna e desejável de moradia é dos idosos, porém nos outros países a cohousing é um estilo de vida intergeracional. Você faz o arroz e divide, você cuida da criança do outro, tem uma farra entre os moradores, uma cumplicidade”, conta Lilian que visitou cohousings nos Estados Unidos. Sua intenção é encontrar um investidor para sua consultoria start-up, a Cohousing Brasil, e espalhar a ideia pelo país.

Depois de trabalhar em ecovilas na Escócia e em Portugal, o também arquiteto Rodrigo Munhoz lançou a proposta de cohousing em Piracicaba, cidade a 164 km da capital de São Paulo. São sete famílias interessadas que buscam investidores ou proprietários de terrenos na região dispostos a abraçar o projeto. “A questão central é que ainda existem muitos entraves na legislação brasileira, principalmente no que diz respeito a financiamentos, formas de construção e posse coletiva de terrenos, inviabilizando o empreendimento se não houver a participação de algum tipo de investidor”, diz Munhoz. Ele garante, no entanto, que apesar das dificuldades a procura é alta. “Começa a surgir interesse de diversos grupos da sociedade, incluindo a terceira idade, que se beneficiaria muito da possibilidade de viver coletivamente ao mesmo tempo em que mantém o seu espaço individual”, afirma. O projeto de coabitação em Piracicaba prevê sete apartamentos de cerca de 50 metros quadrados e está orçado em 1,1 milhão de reais. O empreendimento prevê cozinha coletiva, estacionamento, bicicletário e piscina.

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Com a intenção de vencer as dificuldades para implantação de coabitações, o Reino Unido discute atualmente uma lei para estimular o mercado imobiliário a facilitar construções comunitárias. É apenas um primeiro passo para regulamentar esse novo sistema e criar um ambiente de negócios favorável no setor de real state. O texto prevê um cadastro nacional de interessados em adquirir imóveis ou negociar terrenos, estímulo fiscal por meio do IPTU e auxílio de consultorias especializadas. De acordo com o jornal The Guardian, o governo britânico espera que a lei amplie os negócios e o número de projetos salte dos atuais 12 para centenas. Várias possibilidades de financiamentos imobiliários especiais ou subsidiados também estão sendo debatidas em vários países.

Dissolver a responsabilidade dos cuidados de longa duração com idosos para uma comunidade por meio de coabitação é uma estratégia da economia da longevidade nos países envelhecidos. De acordo com cálculos da OCDE, os cuidados com a população idosa já atingem 1% do Produto Nacional Bruto (PNB) do grupo dos países mais ricos. Os gastos públicos no segmento atingem 10% do orçamento da Saúde. Além de uma promessa de aquecimento do mercado imobiliário pós-crise financeira, a coabitação está sendo apontada como a alternativa para frear a grande exportação de idosos para a Europa do Leste, onde os custos de cuidados são menores em euro. Mais de 3 mil alemães já foram enviados para morar na República Tcheca e mais de 600 para a Eslováquia.

Pesquisas indicam que a qualidade física, mental e emocional dos moradores de coabitações são melhores do que a de pessoas (de várias idades) residentes em modelos tradicionais de moradia. “O co-cuidado gera uma melhora de saúde pela convivência”, afirma Lilian Lubochinski. Por outro lado, os desafios são grandes e já bem explorados por especialistas como Charles Durret, autor do livro “SeniorCohousingHandbook” (2009). Um deles é o cuidado com os mais idosos, aqueles acima dos 80 anos, segmento que mais cresce na população brasileira. De acordo com o grau de dependência, a coabitação pode ser uma excelente solução ou se mostrar inviável. De qualquer forma, como provam as experiências internacionais, ela reduz gastos com saúde e adia, por alguns anos, uma institucionalização ou uma transferência para a casa de filhos ou netos.

Diante da imensa procura em todo o mundo, os pesquisadores, sobretudo juristas, começam a buscar formas de equacionar os riscos do negócio e criar segurança jurídica para os empreendimentos. Por exemplo, se houver dissolução dos laços depois de um tempo de convivência pelo desgaste das relações como é feita a substituição do co-morador. Em quais situações ele pode ser expulso da comunidade? E em caso de morte? Quais as regras para herdeiros? São todas questões em pauta nos escritórios de advogados dedicados ao setor imobiliário nos Estados Unidos e na Europa. Apesar das dúvidas legais, apostam os especialistas, o marco regulatório, quando estiver aprovado, será um grande passo para muita gente realizar o sonho de viver o máximo de anos possíveis no lugar que escolheu para envelhecer.

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6 comentários

  1. Espetacular….me interessei. Há muito tempo venho pensando nisso….
    Traduziram meus desejos….

  2. muito bom o artigo. Gostaria de obter um contato com o projeto de Piracicaba, pois precisamos de subsídios e troca de ideias para um projeto que estamos desenvolvendo em Oliveira MG.

  3. Muito interessante.Isso deveria se tornar possível em todos os estados e grandes cidades.

  4. Achei a proposta maravilhosa. E o tempo todo Déa, lembrei-me de seu projeto de fazer a cohabitação com uma empresária numa cidade próxima de BH. E de cara me interessei. Na verdade, não reclamo da minha solidão. Eu a amo, mas sinto falta de conversar sobre meus atuais valores com pessoas da faixa etária acima de 60 anos. Aguardar para ver o que acontece no Brasil e/ou em Minas com seu projeto Déinha. Beijos!

  5. gostaria de saber mais sobre o assunto, onde posso encontrar informações sobre work shopping
    grata

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