Precisamos fazer a revolução dos cabelos brancos

As mulheres não podem deixar os cabelos sem pintar, porque se tornam invisíveis mais do que já são depois dos 60 anos

As mulheres não podem deixar os cabelos sem pintar, porque se tornam invisíveis mais do que já são depois dos 60 anos

Déa Januzzi –

Acordei de madrugada com vontade de escrever uma carta a mão, com papel de linho e caneta tinteiro. Caprichei na caligrafia, afinal, tenho letra bonita, redonda, igual à de uma professora primária. Será que hoje é ensino fundamental? Não sei mais, mas vou desenhar as letras, bordar palavra por palavra, porque perdi a medida do tempo, confundi noite e dia. O sol ainda está longe de surgir e eu me lembro que tenho de pintar os cabelos. Já estão bem brancos. Mas será que tenho mesmo de continuar pintando os cabelos?

Teve um tempo que eu escrevia crônicas em guardanapo, em pedaços de papel de pão ou qualquer papel que estivesse ao meu alcance. As frases saíam soltas, limpas, como se a poesia nascesse do papel. No dia seguinte, ia para a redação do jornal onde trabalhava e as mais jovens riam dos meus pedaços de papel rabiscados. Elas se divertiam com a cronista que escrevia a mão em pedaços de papel. E só depois transcrevia para o computador.

Hoje, quando acordo de madrugada e lembro que tenho de pintar os cabelos urgentemente e que algumas amigas da mesma idade já assumiram o branco total, me pergunto: porque eu, que sempre fui rebelde, ousada, libertária ainda não consigo? Pintar os cabelos para esconder a idade? Lembro-me de um amigo jornalista que um dia deixou escapar: “Eu estou ficando com os cabelos brancos e as minhas amigas cada vez mais ruivas e loiras”. Bem colocado, amigo, ser mulher tem dessas coisas. Será que pintar os cabelos apaga as marcas do tempo? Pelo menos nós mulheres achamos que sim, que é desleixo deixar os cabelos brancos em desalinho, principalmente eu que tenho os cabelos anelados, rebeldes.

Penso que tive a mesma inquietação quando começaram a me chamar de senhora numa dessas lojas de roupas. Olhei para um lado e para o outro para ver quem era a senhora ali e não é que não tinha mais ninguém na loja? A senhora era eu mesma. Confesso que até hoje o senhora me dá medo de reconhecer a própria idade.

É por isso que amanhã bem cedo vou correr para o salão. Vou pintar os cabelos e quem sabe as sobrancelhas, para ver se me sinto mais jovem, se param de me chamar de senhora. Nessa carta que escrevo à mão, com papel de linho e caneta tinteiro que já revela a minha idade, vou falar assim: “Nós mulheres precisamos fazer a rebelião dos cabelos brancos, um protesto contra as tintas, um manifesto contra a juventude eterna. Será que não podemos envelhecer?”

Pior que não. Ontem mesmo decidi ir a uma reunião de trabalho importante com os cabelos rebelados e sem o meu boné-esconderijo de fios brancos, um boné que me foi presenteado por uma das maiores chapeleiras da cidade, Lenice Bismarcker. Ela já partiu, mas o boné-esconderijo continua comigo. O preto do boné está ficando amarelado, mas ele é o meu guia, a minha identidade quando não posso colorir os cabelos. O boné é parte do meu corpo, como eram as lentes de contato há tempos. Perdi as lentes, coloquei óculos, mas o boné continua como uma espécie de bandeira, de transgressão. Sinal de outros tempos. Será que alguém se lembra do eterno boné de Che Guevara? O meu boné é isso: uma espécie de símbolo da guerrilha. Apesar de saber que, hoje, preciso fazer outra revolução – a dos velhos, se quiser ocupar um lugar em um mundo que envelhece, envelhece e envelhece.

Confesso que a experiência da importante reunião com os cabelos destampados e brancos me deixou insegura, principalmente porque o encontro era com um empresário jovem, com 30 e poucos anos. Mas a minha amiga foi ao encontro com os cabelos brancos. Ela decidiu não pintar mais. Então, tomei coragem, deixei o boné em casa, tentei ficar em paz comigo mesma, mas não é que atrapalhou? Tive vontade de enfiar a mão na bolsa à procura do boné-identidade, mas ele tinha ficado em casa. E agora o que eu faço? É relaxar, mas fiquei incomodada, tentando esconder os cabelos brancos, vocês imaginam?

Agora às cinco da manhã, quando escrevo com papel de linho e caneta tinteiro, tenho que confessar. O mundo ainda não está preparado para assumir os seus cabelos brancos, apesar da verdade demográfica do envelhecimento populacional. As mulheres não podem deixar os cabelos sem pintar, porque se tornam invisíveis mais do que já são depois dos 60 anos. Pego um táxi em silêncio mortal com a minha insegurança. Chego em casa, pago o taxista que me agradece: “Obrigada, senhora!”.

Esta crônica da jornalista e escritora Déa Januzzi foi publicada pela primeira vez no 50emais em abril de 2015.

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19 comentários

  1. Eu estou a um passo de parar com essa palhaçada. Vou raspar a cabeça num ritual budista e deixá-los crescer branquinhos. Este ano ainda.

  2. Eu o fiz e estou me sentindo melhor que imaginei.

  3. Amei o texto! Há alguns meses me rebelei contra as tintas. Eram retoques a cada 15 dias, anos e anos colorindo os cabelos. Agora praticamente todo branco, venho aprendendo a aceitar as marcas do tempo e a conviver com todo tipo de opiniões alheias, as ditas e as não ditas! Rsrs

  4. Pois eu passei a vida inteira pintando os cabelos, usei quase todas as cores possíveis e a partir dos 50 anos decidi não mais pintar e assumi meus brancos e estou amando, ainda mais que os fios estão lindos, com brilho e cabelos com movimento pois a pintura acaba com as madeixas. E ficar sem aquela obrigação de 15 em 15 dias fazer retoque de pintura não tem preço…

  5. Assumi os meus desde o começo, sou mto alérgica e acredito que mesmo que não fosse não entraria nessa de pintura, não seria eu mesma.
    Faço um curso de terceira idade sou a mais nova e qdo entrei grande maioria pintava, agora muitas estão as tintas de lado e assumindo os cabelos brancos.
    Recebo sempre elogios pela tonalidade dos meus branquinhos.

  6. Adorei a cronica…pinto meus cabelos porque me sinto bem, e confesso a sociedade e preconceituosa,a imagem que foi criada ,de que a velhinha de cabelos branquinhos deve ficar esperando os netinhos com bolinhos e tricotando ainda esta incrustada no subconsciente da humanidade e faz que os cabelos brancos te identifiquem como frágil…mas de qualquer forma eu chego ka e darei um basta a tintura .

  7. Assumi os cabelos brancos logo após completar 50 anos. Só parei de pintar e pronto. Meu cabelo sempre teve uma cor diferente da original desde os dezesseis anos de idade. Chegou uma hora q disse basta , não me sinto nem mais velha nem mais nova. Adoro a cor original deles, pq estão meio cinza, a coloração dos meus cabelos é muita escura, reforço com xampus pra cabelos grisalhos , fica ótimo, td mundo elogia.

  8. Parei de pintar meu cabelo no ano que fiz 50 anos… tive cabelos longos por 35 anos, e decidida a mudar, radicalizei e cortei curto… resultado: as pessoas dizem que rejuvenesci, que to ótima! Já me perguntaram se é natural ou se eu que pintei assim… Ontem uma me disse que não aparento a idade que tenho, pois não tenho rugas… mas isso tudo é porque eu to curtindo muito, to amando essa mudança! Se vai ser pra sempre? Não sei… só o tempo vai dizer…

  9. Não gosto de mim com cabelos brancos. Para falar a verdade não gosto de brancos em quase ninguém, homem ou mulher. Envelhece muito,e se existe a possibilidade de eu me sentir mais ajeitada com cabelos tintos,não sei porque não continuar com meu hábito.A não ser que ,por motivos de saúde, eu seja obrigada a deixar de pintar meus cabelos, mas não vejo motivo em deixar meus cabelos brancos, assim como adoro usar maquiagem diariamente, adoro me vestir bem diariamente, e nada disso tem a ver com não assumir minha idade,pois nem adianta querer esconder algo evidente.Nunca fiz plásticas,mas se precisar vou fazer.Não para esconder,mas para me sentir bem com meu espelho e para oferecer às pessoas a minha melhor aparência.

  10. Me sinto livre como sempre fui, mais nova mais velha… Sim a cor dos cabelos pode fazer a diferença, loiros , ruivos , brancos, azuis, cor de rosa , verdes…
    Não mudarão quem eu sou, se sou agora chamada de senhora, no começo a gente estranha sim. Mas agora tanto faz, senhora vc, não mudam quem eu sou. Ditadura? Não aceito nenhuma….Sou assim msm, não tenho q ter os cabelos brancos nem de outra cor, decido pelo q me faz bem…

  11. Convivo a um ano com meus cabelos brancos e me sinto maravilhosa!
    Batom vermelho para dar contraste e vida que corre.
    Chega de escravidão do salão, da opinião dos outros e dessa sociedade hipócrita, que não tem sensibilidade para respeitar as escolhas, e os diferentes!
    Viva a liberdade de escolha!

  12. Maria Augusta Matola Pacheco

    Abandonei as tintas! Minha vaidade é inversamente proporcional ao valor do tempo que desperdiçaria nos salões! A quem pretendemos enganar?!?
    Não são os cabelos brancos, as seis décadas já vividas que nos tornam invisíveis. Os olhos dos que não acreditam que vão vivenciar a mesma desconsideração é que não nos vêm!
    Viva a prata nos cabelos e o vermelho vibrante no sentir!

  13. Parei de pintar os cabelos faz 3 meses. Estou amando! Eu já os pintava no tom mais claro de louro, logo, nem espanta o visual… Se eu não gostar, volto a pintá-los. Não me contrario, só faço o que me deixa feliz. Assim, como os cabelos brancos vão surgindo enquanto envelhecemos, a gente aprende com o tempo a se amar mais.

  14. Maria Inês Nobre de Castro Pessoa

    Estou deixando o branquinho fluir, e gostando mesmo. É a vida surpreendendo a todo instante. Nunca pensei, mas estou conseguindo. E, é porque já tenho ‘meia sete’ kkkk! Agora difícil e agradável são os comentários de todos, às vezes me sinto tão mais visível! E olhe que, voltando no tempo, lembro que aprendi que o branco não é ausência de cor não é mesmo? Então, mergulhemos nas cores do tempo e sejamos felizes!

  15. Elaine Bandeira Lopes

    Deixar de pintar o cabelo é libertador!

  16. Sempre pintei meus cabelos e alisava-os também. Agora este ano 2018 decidi ,náo pintar mais e nem alisa-los.Assumi,aceito os meus 56 anos,alias nunca tive problemas com idade,porque?porque nunca estive em coma.Neste 56 anos de vida,sempre acordei ,abri a janela e la estava o sol.Portanto se vivi bem ou mal o tempo não teve culpa.Rugas também não são problemas para mim,pois cada ruga do meu rosto tem uma historia,um motivo de estar ali,e esta é minha historia,historia que eu mesma escrevi….

  17. Maria Carmelita de Mesquita Leite

    Eu acho que só estava precisando dessa força pra criar coragem e partir pro branco. Não aguento mais essa obrigatoriedade de estar sempre de cabelos castanhos. Vai ser meio chocante para alguns amigos e, principalmente, pro meu marido que não quer que eu envelheça, né? Quem me dera!
    Depois conto como as coisas se passaram. Obrigada a todas e em especial a Nani Castro, amiga de longos anos!

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