Criador e criaturas

" Rezo muito e peço sempre a Deus para me ensinar a envelhecer com dignidade"

” Rezo muito e peço sempre a Deus para me ensinar a envelhecer com dignidade”

Mary Arantes

Um exercício fascinante é olhar as pessoas. Fico maravilhada com a criatividade de Deus. Pensar que cada pessoa é única me comove. Tenho pensado na trabalheira que Deus teve ao nos fazer tão diferentes uns dos outros. E morro de dó d’Ele. Imagino-o sentado, pensativo, unindo cromossomos, somando genes, trocando x por y, multiplicando belezas, diminuindo feiúras, inventando diferenciações: uma pintinha aqui, uma manchinha ali, às vezes, até um defeitinho charmoso. E tudo isso para nadaa!

Uma famosa cadeia de cosméticos descobriu, em pesquisa recente a imensa insatisfação das mulheres quanto às próprias imagens. Na verdade, só existem no mundo, mais ou menos, cinco mulheres estilo Gisele Bündchen, assim mais-que-perfeitas. E, no entanto, ficamos querendo parecer com elas. Tudo o que não queremos é ser semelhantes a nós mesmos.

Envelhecer, então, é uma arte. Rezo muito e peço sempre a Deus para me ensinar a envelhecer com dignidade neste mundo de aparências, que teima em ser jovem.

Tenho ídolas como Adélia Prado e Fernanda Montenegro. Adélia tem um texto que diz: “É assim mesmo, Senhor, caem pele do rosto e sonhos?” Admiro cada ruga dessas duas mulheres, sem contar a alma iluminada, despojamento e simplicidade. Bebo os ensinamentos delas e recorro a elas nas minhas aflições no envelhecer.

Queria ter o direito de olhar para o espelho e me econhecer, ter orgulho de cada ruga, de cada fio de cabelo branco. Mas entristeço quando pareço estar sozinha no mundo.

Outro dia, uma vendedora de loja disse que eu deveria fazer uma cirurgia de pálpebras, já que as minhas estavam caídas. Receitou a cirurgia como quem indica um salão de beleza ou um restaurante, tamanha banalização. Claro, sei que não fez por mal.

Certa vez, fiz como a vendedora que me receitou cirurgia para as pálpebras. E invadi a privacidade de uma amiga, com a qual julgo ter intimidade suficiente. Perguntei-lhe se já tinha reparado que estava com as sobrancelhas cheias de cabelos brancos. Ela respondeu sorrindo: “Claro que não, Meiroca! Quando Deus nos dá cabelos brancos, já nos tirou também um pouco da visão!”

A simplicidade de sua resposta me levou, mais uma vez, a pensar em Deus. Sua delicadeza na feitura do nosso corpo. Tudo magistralmente pensado, arquitetado, do florescer ao fenecer. E aí senti uma imensa pena dos homens, raça tão humana, que teima em transformar essa máquina tão perfeita. Adia idades, altera rugas, modela corpos, transforma e transplanta rostos. Retoca emoções, deforma sonhos, plastifica almas.

Mary Figueiredo Arantes é estilista, escritora e designer de bijuterias.

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3 comentários

  1. Lindo e verdadeiro texto!

  2. Que lindo texto, deve ter mexido com a alma de toda mulher, mas é muito bom ter chegado nos cinqüenta, sessenta ou mais, sei lá , estou super curtindo, e agora a essencia, não mais o corpo como antigamente, de uma outra forma, uma forma renovada de olhar o corpo com suas marcas, e rugas, e manchas, e flacidez e so mesmo tempo parceiro de uma alma vicosa, forte e tão linda que ama tudo que a vida lhe oferece.

  3. Olá,

    Amei seu texto! Tomei a liberdade de utilizá-lo junto com algo que eu escrevi para homenagear amiga que completará 50 anos.
    Ficou ótimo. Que Deus continue a inspirar você.

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