Rubem Alves: Quando se chega à fase crepuscular da vida

Fernando Pessoa: "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce"

Fernando Pessoa: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”

Esta entrevista de Rubem Alves foi concedida a Marília Camargo Cesar, do jornal Valor Econômico, algum tempo antes de morrer, aos 81 anos, em julho de 2014. A entrevista, publicada com o título “Coma os morangos”, foi feita a propósito do lançamento do livro “Pimentas – Para Provocar Um Incêndio Não É Preciso Fogo” (Editora Planeta), no qual o escritor, psicanalista e teólogo mineiro fala com profundidade e uma ponta de nostalgia do crepúsculo da existência, do envelhecer, da morte.

Leia a entrevista:

Eu descobri que estava velho numa situação surpreendente. Isso foi há 20 anos. Estava em São Paulo, peguei o metrô, estava lotado. Eu era jovem, pernas fortes, segurei no balaústre e comecei a olhar para os rostos das pessoas. Rostos contam histórias. Olhando para as pessoas você pode imaginar contos, muitas coisas. Eu estava ali, imaginando as crônicas que poderia escrever, quando vi uma moça me olhando com mansidão, quase com ternura. Fiquei comovido com aquele olhar. Eu olhava para ela, ela olhava para mim. Percebi que ela devia estar comovida com minha presença. Houve um momento de suspensão romântica. Pensei num título para meu conto: ‘Rubem Alves encontra inesperadamente no metrô o grande amor de sua vida’. Comecei a ter fantasias. Foi nesse momento que ela me fez um gesto de carinho. Levantou e me ofereceu o lugar. Quando ela fez isso, é como se dissesse para mim: o senhor (certamente ela estava pensando em senhor, não em você) não pertence ao meu mundo. O senhor deve ter pernas bambas. Naquele instante eu percebi que estava perto dela, mas estava muito longe dela.

Cite algumas de suas conclusões sobre esse episódio.

A gente é velho quando as moças nos oferecem lugar no metrô. A gente é velho quando uma moça lhe dá o braço para ajudar a subir a escada e você tem que aceitar a delicadeza. Eu agora tenho que ter cuidado, tenho que olhar pro chão e medir meus passos.

Mas o senhor não está se concentrando muito no aspecto físico do envelhecimento?

É, mas o olhar das pessoas também muda.

O que muda nesse olhar?

Você deixa de ser o homem másculo, viril, objeto de contemplação das jovens, e passa a um ser crepuscular. O que é o crepúsculo? Nele, o tempo passa mais rápido. Neste instante, estou sentado na minha varanda, o céu está muito azul, o tempo está parado. Assim é a juventude – na juventude, o tempo para. Mas, quando chega o crepúsculo, começa a haver transformações rápidas no céu. Rapidamente, as cores vão se alterando, o azul fica verde, o verde fica amarelo, amarelo fica abóbora, abóbora fica vermelho, o sol está se pondo, tudo fica roxo e logo o céu está mergulhado na escuridão. A percepção é que a hora de partir está chegando. O crepúsculo é essa consciência de que o tempo passa rapidamente, a vida passa rapidamente.

O senhor cita numa das crônicas o livro de Eclesiastes, quando fala do envelhecer como os anos nos quais o homem não encontra mais prazer nenhum.

Aqui na minha varanda tem duas frases que mandei gravar em madeira: Tempus fugit. Se o tempo foge, preciso correr. Então mandei gravar Carpe diem, colha o dia. Viva o momento. Mas isso dá uma tristeza na gente…

Envelhecer também não é sobre perder a capacidade de sonhar?

Tem uma frase de Fernando Pessoa que diz “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. Talvez essa pressa em produzir tenha a ver com a sensação de que os dias passam muito rapidamente. Comecei a ler esses dias um livro enorme de John dos Passos, um livro monumental. Não tenho mais tempo para escrever livros enormes. O tempo me foge. Não tenho mais tempo para escrever um romance. Não tenho mais tempo para escrever uma coisa com começo, meio e fim. “Pimentas” é uma coleção de fragmentos. Sou um retratista. Olha aí, eu já disse uma palavra que revela a idade. Jovem não fala retrato, fala foto. Tenho que escrever rápido, porque não sei quando vou partir.

O senhor parece cansado.

Uma das coisas da velhice é o cansaço. Dá uma canseira de viver, sabe? Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Mas a gente não tem mais disposição para fazer a obra nascer. A gente tem que agarrar o que resta. Gosto de contar a história de um homem que ia caminhando pela floresta, a mata estava escura. De repente, ele ouve o rugido de um leão e sai correndo, mas, como está escuro, cai num precipício. Ele se agarra a um galho preso no abismo, olha para cima; o leão, para baixo, o abismo. Então ele nota que, bem à sua frente, está brotando um galho com uma fruta vermelha. É um morango. Estende o braço, come o morango e se delicia. As pessoas perguntam qual é o fim da história. O homem caiu? Respondo que não tem final, é só isso mesmo. Você não entendeu? Quem está pendurado sobre o abismo sou eu, é você, todos estamos sobre o abismo. Portanto, o que nos resta fazer é comer os morangos.

E quais são os morangos que o senhor tem apreciado atualmente?

São coisas pequenas, simples. Ontem, por exemplo, ouvi pela internet a Pour Elise, de Beethoven, tocada num órgão feito de taças de cristal, um som inesperado, que vai surgindo aos poucos. Qual é a importância disso? Nenhuma. Mas me senti feliz naquele momento. Clique aqui para ler mais.

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2 comentários

  1. Adoooooooro! Mágico com as palavras!!!!!!!

  2. Ouvi Beethoven lindo …qual a importância disso??? Tô assim tbem

    Vamos só comer os morangos, pronto!

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