A delicada homenagem de uma neta apaixonada pela avó

Ruth Manus é advogada, professora universitária e blogueira

Ruth Manus é advogada, professora universitária e blogueira

Ruth Manus, Estadão

Uma vez, ouvi em um filme que a grande diferença entre a juventude e a velhice é a distância. Quando somos jovens tudo parece perto, acessível, fácil. Até a Sibéria parece viável. Já quando envelhecemos as distâncias aumentam, os caminhos parecem mais longos e incertos. Ir à padaria torna-se um desafio.

Percebi que isso era mesmo verdade por causa da minha avó, que faz 88 anos no mês que vem. Tirá-la de casa é sempre uma tarefa árdua porque ela tem todas as desculpas na ponta da língua: as roupas do varal, o capítulo decisivo da novela, o frango descongelando ou, pura e simplesmente, não posso deixar “a casa sozinha”. Até os programas mais simples e os trajetos mais curtos são sempre enfeitados por ela com dezenas de empecilhos – que, no fundo, talvez possam ser todos resumidos no desejo de não querer incomodar ninguém.

Eu, do alto do frescor dos meus 20 e muitos anos, decidi viver em Portugal. Ela, do auge da serenidade dos seus quase 90, prometeu orar sempre por mim. Mas eu não queria apenas a oração e o pensamento, eu queria presença. Queria mostrar a minha casa, os meus dias, meu céu azul lisboeta. Porém nunca me ocorreu que suas décadas pudessem encarar meus quilômetros.

Mas então, de repente, ela veio. Os pés incharam no voo, a diferença de fuso horário confundiu o sono e uma tosse pesada encheu seu peito. Mesmo assim, ela estava aqui, com o sorriso no rosto e os abraços permanentes. Eu mal podia acreditar.

Andamos de braços dados pela cidade. Subimos juntas, um por um, os muitos (para ela) e poucos (para mim) degraus do Mosteiro dos Jerónimos. Contemplamos o Tejo. Tomamos vinho do Douro. Dividimos doces de ovos. Rimos nas tantas vezes em que ela não entendia o que os portugueses diziam, apesar do avô de Vila Nova de Gaia.
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No último dia, fui com ela ao supermercado. Disse para ela comprar tudo o que tivesse vontade. Ela, sempre tão comedida, levou a sério o meu discurso. Saímos do mercado com azeite, vinho, doces, sabonetes, chocolates, chá, bacalhau enlatado, azeitonas recheadas. Eu mal aguentava as sacolas.

Na volta, um senhor passou por nós e, me vendo tão carregada, de mãos dadas com ela, disse “é muita sorte ter uma neta assim”. Eu sorri. Mas a resposta silenciosa era: sorte tenho eu, meu senhor. Uma imensa sorte de 1,55 e cabelos prateados.

Obrigada, Dona Rita. Obrigada por ter vindo, por encarar a distância e os medos. Obrigada por existir tanto.

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3 comentários

  1. Simples e linda esta história.

  2. Que encanto.Mas na verdade nem sempre é assim.Eu sinto-me agraciada por ter netos assim que me amam e gostam da minha presença muito mais que os filhos.Mas isso basta.Eu os amo muito e eles a mim.Gabi,gui,Duda,Valentina ,Laurinha,Raissa (presente de Deus)Beatriz.

  3. Que homenagem linda! A minha mãe também não gostava mais de sair de casa com estas desculpas que você mencionou. Homenageemos as pessoas queridas, elas nos ensinam sempre e o mais importante nos amam!!!

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