Cora Coralina: “Assim eu vejo a vida”

Cora Coralina nasceu em Goiás, em 20 de agosto de 1887

Cora Coralina nasceu em Goiás, em 20 de agosto de 1889

Maya Santana, 50emais

Se conosco ainda estivesse e a vida se esticasse para além do tempo, Cora Coralina, a doce poeta goiana, completaria neste domingo, 20 de agosto, 138 anos. Uma excelente desculpa para publicar aqui alguns dos poemas da artista, de quem Carlos Drummond de Andrade escreveu o seguinte, numa carta endereçada a ela: “Minha querida amiga Cora Coralina: Seu Vintém de Cobre (título de um livro dela) é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia.”

Nesta altura, Cora Coralina – ou Ana Lins dos Guimarães Peixoto, seu nome de batismo – já tinha 90 anos (nasceu em 20 de agosto de 1889) e passara grande parte de sua vida como doceira. Desde muito jovem, ela escrevia poesia, mas seu primeiro livro, Poemas dos becos de Goiás e estórias, só foi publicado em 1965, às vésperas de ela completar 75 anos. Esta mulher, que partiu para sua derradeira viagem em abril de 1985, é uma inspiração em todos os sentidos. Escolhi três poemas dela para saudar e dar mais luz a este dia:

Não Sei

Não sei… se a vida é curta…
Não sei…
Não sei…
se a vida é curta
ou longa demais para nós.

Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura…
enquanto durar.

Homenagem do Google à poeta, que faria aniversário  neste domingo

Homenagem do Google à poeta, que faria aniversário neste domingo

Assim eu vejo a vida…

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

Minha Infância

Éramos quatro as filhas de minha mãe. Entre elas ocupei sempre o pior lugar. Duas me precederam – eram lindas, mimadas. Devia ser a última, no entanto, veio outra que ficou sendo a caçula.

Quando nasci, meu velho Pai agonizava, logo após morria. Cresci filha sem pai, secundária na turma das irmãs.
Eu era triste, nervosa e feia. Amarela, de rosto empalamado. De pernas moles, caindo à toa. Os que assim me viam – diziam: “- Essa menina é o retrato vivo do velho pai doente”.

Tinha medo das estórias que ouvia, então, contar: assombração, lobisomem, mula sem cabeça. Almas penadas do outro mundo e do capeta. Tinha as pernas moles e os joelhos sempre machucados, feridos, esfolados. De tanto que caía. Caía à toa.

Caía nos degraus. Caía no lajedo do terreiro. Chorava, importunava. De dentro a casa comandava: “- Levanta, moleirona”. Minhas pernas moles desajudavam. Gritava, gemia. De dentro a casa respondia: “- Levanta, pandorga”.

Caía à toa…nos degraus da escada, no lajeado do terreiro. Chorava. Chamava. Reclamava. De dentro a casa se impacientava: ” – Levanta, perna-mole…” E a moleirona, pandorga, perna-mole se levantava com seu próprio esforço.

Meus brinquedos… Coquilhos de palmeira. Bonecas de pano. Caquinhos de louça. Cavalinhos de orquilha. Viagens infindáveis…Meu mundo imaginário mesclado à realidade.

E a casa me cortava: “menina inzoneira!” Companhia indesejável – sempre pronta a sair com minhas irmãs, era de ver as arrelias e as tramas que faziam para saírem juntas e me deixarem sozinha, sempre em casa.

A rua… a rua!… (Atração lúdica, anseio vivo da criança, mundo sugestivo de maravilhosas descobertas) – proibida às meninas do meu tempo. Rígidos preconceitos familiares, normas abusivas de educação – emparedavam.

A rua. A ponte. Gente que passava, o rio mesmo, correndo debaixo da janela, eu via por um vidro quebrado, da vidraça empanada. Na quietude sepulcral da casa, era proibida, incomodava, a fala alta, a risada franca, o grito espontâneo, a turbulência ativa das crianças.

Contenção… motivação…Comportamento estreito, limitando, estreitando exuberâncias, pisando sensibilidades. A gesta dentro de mim… Um mundo heroico, sublimado,superposto, insuspeitado, misturado à realidade.

E a casa alheada, sem pressentir a gestação, acrimoniosa repisava: ” – Menina inzoneira!” O sinapismo do ablativo queimava.

Intimidada, diminuída. Incompreendida. Atitudes impostas, falsas, contrafeitas. Repreensões ferinas, humilhantes. E o medo de falar… E a certeza de estar sempre errando…Aprender a ficar calada. Menina abobada, ouvindo sem responder.

Daí, no fim da minha vida, esta cinza que me cobre… Este desejo obscuro, amargo, anárquico de me esconder, mudar o ser, não ser, sumir, desaparecer, e reaparecer numa anônima criatura sem compromisso de classe, de família.

Eu era triste, nervosa e feia. Chorona. Amarela de rosto empalamado, de pernas moles, caindo à toa. Um velho tio que assim me via dizia: “- Esta filha de minha sobrinha é idiota. Melhor fora não ter nascido!”

Melhor fora não ter nascido…Feia, medrosa e triste. Criada à moda antiga,- ralhos e castigos. Espezinhada, domada. Que trabalho imenso dei à casa para me torcer, retorcer, medir e desmedir. E me fazer tão outra, diferente, do que eu deveria ser. Triste, nervosa e feia. Amarela de rosto empapuçado. De pernas moles, caindo à toa. Retrato vivo de um velho doente. Indesejável entre as irmãs.

Sem carinho de Mãe. Sem proteção de Pai…- melhor fora não ter nascido. E nunca realizei nada na vida. Sempre a inferioridade me tolheu. E foi assim, sem luta, que me acomodei na mediocridade de meu destino.

Retirado do livro Melhores Poemas; seleção e apresentação Darcy França Denófrio. São Paulo: Global, 3a edição, 2008. 4a reimpressão, 2011. ps. 95 a 100)

Obras de Cora Coralina

– Estórias da Casa Velha da Ponte
– Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais
– Meninos Verdes (infantil)
– Meu livro de cordel
– O Tesouro da Casa Velha
– Vintém de Cobre
– A Moeda de Ouro que o Pato Engoliu (Infantil)
– Cora Coragem Cora Poesia (biografia escrita por sua filha Vicência Bretas Than)

Compartilhe!

Sobre Maya Santana

Maya iniciou suas atividades como jornalista na década de 1970. Trabalhou em alguns dos principais veículos nacionais, como O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil. Mas a maior parte da sua carreira foi construída no exterior, trabalhando para a emissora britânica BBC, em Londres, onde viveu durante mais de 16 anos.

2 comentários

  1. Cora Coralina, sempre viva em meu coração! Que essa Estrela continue brilhando…

  2. Cora, absurda Cora. Adoro.

Deixe seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos marcados com asterisco são obrigatórios. *

*