Parte da história do Brasil, mosteiro tricentenário pede ajuda

O mosteiro ocupa uma área de 11,5 mil m2 e está  completando 303  anos de fundação

O mosteiro ocupa uma área de 11,5 mil m2 e está completando 303 anos

“Abrace Macaúbas” é o título da campanha que será lançada na terça-feira, 5 de setembro, para arrecadar fundos que serão investidos na preservação desta construção, na região metropolitana de BH, de grande valor histórico não só para Minas, mas para o Brasil. “Macaúbas é uma das mais importantes edificações coloniais do interior do país e a única, de Minas, com características de convento”, lembra o presidente da Associação Cultural Comunitária de Santa Luzia, Adalberto Mateus, neste artigo de Gustavo Werneck para o jornal Estado de Minas. A campanha é liderada pela abadessa Maria Imaculada de Jesus Hóstia, 78, que vive enclausurada há 62 anos – uma vida inteira dedicada à “Casa de Nossa Senhora”, como ela se refere ao mosteiro. Sendo luziense, faço questão de participar desta campanha para preservar uma das pérolas da arquitetura do Brasil colonial.

Leia:

Um dos mais importantes monumentos arquitetônicos do patrimônio brasileiro pede ajuda para preservar mais de três séculos de história. Será lançada na próxima terça-feira a campanha Abrace Macaúbas, iniciativa com objetivo de garantir recursos para obras de manutenção do Mosteiro de Macaúbas, localizado em Santa Luzia, na Grande BH. Cupim nas madeiras, parte elétrica obsoleta, buraco no piso e degradação de outros pontos põem em risco a construção de 11,5 mil metros quadrados tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha) e Prefeitura de Santa Luzia. A solenidade, na Sala Capitular do mosteiro, às 10h, terá a presença do arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, dom Walmor Oliveira de Azevedo, da madre Maria Imaculada de Jesus Hóstia e das monjas da Ordem da Imaculada Conceição e de autoridades do patrimônio.

O presidente da Associação Cultural Comunitária de Santa Luzia, Adalberto Mateus, destaca a importância da construção do início do século 18, às margens do Rio das Velhas. “Macaúbas é uma das mais importantes edificações coloniais do interior do país e a única, de Minas, com características de convento. Em tempos de discussão sobre o protagonismo feminino na sociedade, vale destacar que sempre foi um território feminino por excelência, por ter sido recolhimento, colégio e depois mosteiro”, diz Adalberto. A associação integra a comissão responsável pela captação de recursos, que tem ainda o Memorial da Arquidiocese de Belo Horizonte. Em 1962, o arquiteto do Iphan, Paulo Thedim Barreto, ressaltou: “Trata-se de um conjunto do maior interesse histórico e arquitetônico (…) Pelo seu vulto, grandeza e destino, é edifício digno de apreço”.

A abadessa Maria Imaculada de Jesus Hóstia, 78, vive no mosteiro há 62 anos

A abadessa Maria Imaculada de Jesus Hóstia, 78, vive no mosteiro há 62 anos

Na manhã de ontem, a abadessa Maria Imaculada de Jesus Hóstia, que chama o mosteiro de “casa de Nossa Senhora”, mostrou os lugares de maior preocupação, entre eles o “coro baixo”, na capela de Nossa Senhora da Conceição, aberta todos os dias a moradores e visitantes para missas das 7h e, aos domingos, na acolhida da tradicional celebração das 10h30 com um coral da região. Ajudando a arrastar um banco, ela mostrou o rombo no piso de madeira. E falou da sua confiança e esperança no sucesso da campanha: “Aqui não é um lugar de luxo, mas de muita história de Minas e do Brasil. A parte elétrica já foi condenada pelo Corpo de Bombeiros. Tenho certeza que muitos vão colaborar”.

URGÊNCIA – Há três anos, a abadessa comandou uma grande campanha para compra das latas de tinta, que deram vida nova ao azul colonial das portas e janelas e branco das paredes com um metro e meio de largura e prepararam o mosteiro para a festa do tricentenário. Acompanhando a visita, Adalberto disse que “quem vê cara não vê coração”. Traduzindo: “Macaúbas impressiona pelas dimensões e conservação externa, mas, por dentro, precisa de reforma imediata de todo o sistema elétrico, descupinização, enfim, de obra de restauro. Apesar da boa aparência, tem problemas gravíssimos”.

Basta olhar para o madeirame e ver a necessidade urgente de conservação do prédio que abrigou uma das primeiras escolas femininas das Gerais. Em alguns cantos, os cupins deixaram seu rastro em montinhos de madeira devorada, enquanto, ao pisar as tábuas corridas, ouve-se o estalo de perigo. O forro da capela, pintado no início do século 19, por Joaquim Gonçalves da Rocha, de Sabará, também demanda ação urgente para não sair de cena. Os olhos atentos vão descobrir gambiarra de fios, colunas com perdas de reboco, buracos em madeiras, como se fosse um queijo suíço e outros sinais de deterioração. “Vamos conseguir o dinheiro. Deus está conosco”, repete a abadessa ao lado da irmã Maria de São Miguel. Logo depois, ao meio-dia, ouvem-se as vozes das religiosas entoando os cânticos na “hora sexta”.

As irmãs Marisa de Fátima Costa, Maria Imaculada Hóstia e Maria Helena da Silva: resguardadas por treliças de madeira

Três das 14 irmãs que vivem no Mosteiro: Marisa de Fátima Costa, Maria Imaculada Hóstia e Maria Helena da Silva

RECOLHIMENTO – Conhecer o Convento de Macaúbas, como é carinhosamente chamado, representa experiência única: ali estão freiras, roseiras para fazer vinho, muitas orações e trabalho duro. Na entrada principal, onde se lê a palavra clausura, vê-se em destaque a pintura de um personagem fundamental nesta história tricentenária: o eremita Félix da Costa, que veio da cidade de Penedo (AL), em 1708, pelo Rio São Francisco, na companhia de irmãos e sobrinhos. Demorou três anos para chegar a Santa Luzia, onde construiu uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, de quem era devoto. Mas, antes disso, bem no encontro das águas do Velho Chico com o Rio das Velhas, na Barra do Guaicuí, em Várzea da Palma, Região Norte do estado, ele teve a visão de um monge com hábito branco, escapulário, manto azul e chapéu caído nas costas. Conforme o relato da madre superiora, “ele se viu ali” e “foi o ponto de partida para a fundação do Recolhimento de Macaúbas”.

No século 18, quando as ordens religiosas estavam proibidas de se instalar nas regiões de mineração por ordem da coroa portuguesa, para que o ouro e os diamantes não fossem desviados para a Igreja, havia apenas dois recolhimentos femininos em Minas: além de Macaúbas, em Chapada do Norte, no Vale do Jequitinhonha. Conforme os estudos, tais espaços recebiam mulheres de várias origens, as quais podiam solicitar reclusão definitiva ou passageira. Havia, portanto, uma complexidade e diversidade de tipos de reclusas, devido à falta de estabelecimentos específicos para suprir as necessidades delas. Assim, os locais abrigavam meninas e mulheres adultas, órfãs, pensionistas, devotas, algumas que se estabeleciam temporariamente, para “guardar a honra”, enquanto maridos e pais estavam ausentes da colônia, ou ainda como refúgio para aquelas consideradas desonradas pela sociedade da época.

“Macaúbas é uma das mais importantes edificações coloniais do interior do país e a única, de Minas, com características de convento. Em tempos de discussão sobre o protagonismo feminino na sociedade, vale destacar que sempre foi um território feminino por excelência, por ter sido recolhimento, colégio e depois mosteiro”

“Macaúbas é uma das mais importantes edificações coloniais do interior do país e a única, de Minas, com características de convento. Em tempos de discussão sobre o protagonismo feminino na sociedade, vale destacar que sempre foi um território feminino por excelência, por ter sido recolhimento, colégio e depois mosteiro”

Na época do recolhimento, Macaúbas recebeu figuras ilustres, como as filhas da escrava alforriada Chica da Silva, que vivia com o contratador de diamantes João Fernandes. A casa na qual Chica se hospedava fica ao lado do convento. Como parte do pagamento do dote das filhas, Fernandes mandou construir, entre 1767 e 1768, a chamada Ala do Serro, com mirante e 10 celas (quartos para as religiosas). Em 1770, o mestre de campo Ignácio Correa Pamplona assinou contrato para construir a ala da direita da sacristia (Retiro), igualmente dividida em celas. A construção tem ainda as alas da Imaculada Conceição, Félix da Costa (a mais antiga) e a de Santa Beatriz, onde se encontra o noviciado do mosteiro.

Em 1847, foi instalado oficialmente em Macaúbas um colégio feminino, com orientação dos padres do Caraça. Novos tempos chegaram em 1933, quando a escola foi desativada e instalado o mosteiro, hoje com 14 freiras.

Esta reportagem mostrada no vídeo foi feita em 2014, quando o Mosteiro completou 300 anos. Dá uma boa ideia da imensa construção:

SERVIÇO
Para participar e fazer doações de qualquer quantia

Campanha Abrace Macaúbas
Caixa Econômica Federal – Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição Macaúbas
Agência: 1066 – Operação 013
Conta poupança: 75.403/4 – CNPJ: 19.538.388/0001-07
Informações no site: abracemacaubas.com.br

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7 comentários

  1. Jornalista Maya Santana, agradecemos o apoio. Desde sempre contamos com seu abraço de carinho e admiração. Muito obrigado.

  2. Pe. José William Barbosa Costa

    Hoje moro em Goiânia. Conheci Macaúbas em outubro de 1993, qdo Pe. Januário era o Pároco em Santa Luzia.
    Irei contribuir mensalmente(com pouco mas com fidelidade) até o fim de todo o Projeto.

    • Padre José, que prazer ler o seu comentário. Macaúbas é nossa joia em Santa Luzia. Por isso há um esforço da cidade para preservar o convento tricentenário. Muito obrigada pela sua generosidade. Forte abraço.

      • Maya, boa tarde!
        Vc tem notícias se alguma coisa já foi feita lá no Mosteiro?
        As irmãs são pouco dadas às redes sociais e não há fotos de alguma obra em andamento.
        Grato, Pe. jw

        • Bom dia, padre José! O que posso dizer é que, aos poucos, as obras vão sendo feitas. As irmãs continuam fazendo campanha por doações e parece que a Prefeitura vai ajudar com alguma coisa. Se o senhor quiser informações mais precisas, por favor, ligue para José Carlos, 31.36414751. Forte abraço para o senhor.

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