Zuenir Ventura: Os 50 anos da Tropicália e a saudade do passado

Os Doces Bárbaros que marcaram tanto o seu tempo

Maya Santana, 50emais

Foi o grande jornalista Zuenir Ventura quem publicou esta crônica em O Globo, neste sábado, como uma espécie de tributo ao tropicalismo, que está completando meio século e precisa ser lembrado. O Brasil em plena ditadura, mas efervescente em todas as expressões da sua cultura. Zuenir afirma e ele tem razão: o tropicalismo foi um movimento da nossa cultura de extrema importância para o Brasil, para todos nós, não só os que viveram aquela época. Mais importante, inclusive, do que a Bossa Nova.

Veja por quê:

Apesar de velho, não sou saudosista. Peço licença a Paulinho da Viola para plagiá-lo: “Meu tempo é hoje. Não vivo no passado, o passado vive em mim”. E de vez em quando, ele irrompe em forma de nostalgia, como agora, em que se comemora meio século do tropicalismo, um dos movimentos culturais mais importantes do século XX no Brasil, mais até do que a bossa nova, porque não se limitou à música — estendeu-se ao cinema, ao teatro, às artes plásticas, à moda e aos costumes, como as roupas e o corte de cabelo andróginos.

Se tivesse que concentrar em um momento, as reminiscências sonoras de 50 anos atrás, eu escolheria a noite de 21 de outubro de 1967, quando o 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record foi disputado por cinco jovens artistas com pouco mais de 20 anos — Caetano Veloso, Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil, Edu Lobo e Roberto Carlos — que apresentaram respectivamente “Alegria, alegria”, “Roda viva”, “Domingo no parque”, “Ponteio” e “Maria, carnaval e cinzas”, todas com chance de vencer, menos uma, que continuou praticamente desconhecida até hoje, embora tivesse sido cantada por ninguém menos que Roberto Carlos. Duvido que alguém seja capaz de cantarolar de cor os versos “Nasceu Maria quando a folia/Perdia a noite, ganhava o dia”.

É difícil imaginar hoje uma competição com tantos sucessos de uma só vez. O primeiro lugar do festival coube a “Ponteio” (com letra de Capinan) interpretado pelo próprio Edu e Marília Medalha. O segundo ficou com “Domingo no parque”, o terceiro, “Roda viva”, e o quarto, “Alegria, alegria”. Um delicioso documentário realizado em 2010 e cujo título é justamente “Uma noite em 67”, de Ricardo Calil e Renato Terra, devolve o clima desses eventos em que a plateia participava como protagonista, aplaudindo e vaiando apaixonadamente.

É engraçado ver as imagens de época com quase todo mundo fumando, o apresentador chamando Caetano de “Veloso” e se esforçando para entender a explicação do que era “pop”. Como pano de fundo, a guerra entre o samba de “raiz” e a invasão estrangeira das guitarras elétricas.

Por coincidência, estava surfando nessa onda nostálgica, quando recebi o e-mail de uma leitora estarrecida com o ódio que grassa atualmente nas mídias sociais. “Pessoas ignorantes, pessoas cultas, não importa, ricas e pobres destilam um ódio inacreditável — ódio na esquerda, na direita, em tudo. Estamos mal. Saudades do passado”.

Entendi o que ela quis dizer com seu “desabafo”. Não pretendeu fazer o elogio da ditadura, claro, mas lembrar com ironia que naquele tempo dirigíamos nosso ódio contra os militares, não contra nós mesmos, como agora.

Veja a última noite do festival:

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