A reação de uma mãe que perdeu os filhos e o neto em Brumadinho

O lema do Instituto Camila e Luiz Taliberti, criado pela mãe Helena Taliberti, 62, para ajudar outras vítimas de tragédias é ‘Nos enterraram, mas não sabiam que a gente era semente’. Foto: Marcus Leoni/CLAUDIA

Helena Taliberti jamais imaginou que, aos 62 anos, estaria sozinha, sem ninguém da família que constituiu e com a qual conviveu até janeiro de 2019. Perdeu de uma vez os dois filhos, Camila e Luiz, um neto em vias de chegar, além do ex-marido. Todos se encontravam em Brumadinho naquele trágico 25 de janeiro, quando uma barragem da Vale se rompeu, soterrando 270 pessoas e matando um rio inteiro, o Paraopeba. Para dar vazão à dor que “não passa”, ela criou um instituto com o nome dos filhos. A duas semanas de completar um ano do desaparecimento de Camila e Luiz, Helena resume assim, neste relato feito à Bárbara dos Anjos Lima, do site da revista Cláudia, o drama de centenas de famílias que perderam entes queridos na tragédia: “A dor permanece aqui e é enorme .”

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Os planos de Helena Taliberti, 62 anos, eram se aposentar e curtir o neto que estava por vir. O projeto foi interrompido pelo rompimento da barragem de Brumadinho. De uma vez, ela perdeu a filha, o filho, a nora grávida (de um menino que se chamaria Lorenzo), o ex-marido e a esposa dele. Um ano depois, transformou o luto em ação ao criar um instituto para levar adiante os ideais dos filhos. Veja o depoimento dela:

“A dor é imensa. Não passa. Ainda mais nesta época do ano. No dia 18 de dezembro, meu filho, Luiz, teria feito 32 anos. Depois veio o Natal e, no dia 3 de janeiro, seria o aniversário de 34 anos da minha filha, Camila. Esse era sempre um período de muitas festas. Quando falo deles e do que aconteceu, sinto como se não fosse um assunto normal. Não é o luto comum. Porque todo dia a gente fica sabendo que aquilo poderia ter sido evitado. A dor vem e vai, mas, aos poucos, vou seguindo a vida. Tem dias de extremo desespero, em que eu ainda acho que eles vão entrar pela porta e falar: ‘Mãe, estávamos de férias, acabou a bateria do celular e não tinha tomada’. E tem dias em que estou mais disposta.

Meus filhos passavam por uma ótima fase da vida. A Camila fazia o que gostava, estava apaixonada. O Luiz tinha sido nomeado diretor do escritório de arquitetura onde trabalhava, na Austrália. Ele e a esposa, Fernanda, estavam radiantes com o bebê que chegaria em breve.

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Naquele 25 de janeiro, eu passeava pelas ruas de São Paulo quando recebi a notícia de que uma barragem havia se rompido em Brumadinho, em Minas Gerais. Meus filhos, o pai deles e a madrasta estavam na região para visitar o museu de Inhotim. Sem entender muito bem o que estava acontecendo, voltei para casa em busca de informações. Depois disso, foi um turbilhão de emoções. Aos poucos, as notícias foram chegando. O corpo do Luiz foi o primeiro a ser encontrado, no dia 29. Acharam a Camila junto do pai, no dia 31. A Fernanda, só 22 dias depois da queda, em 16 de fevereiro. O corpo da madrasta dos meus filhos não foi encontrado até hoje, acredita?

“Tem dias de extremo desespero, em que eu ainda acho que eles vão entrar pela porta. E tem dias em que estou mais disposta”. Foto: Marcus Leoni/CLAUDIA

Essa ruptura causou em mim muita indignação no início, muita dor. Então, comecei a perceber que o impacto nas outras pessoas também tinha sido imenso. Logo após a morte deles, fizemos uma missa em São Paulo. Mais de 700 pessoas compareceram. Um mês depois, os amigos da Camila e do Luiz fizeram uma homenagem, e foram quase 300 pessoas. Naquele dia, eles nos propuseram criar uma fundação. O Instituto Camila e Luiz Taliberti é o legado dos meus filhos.

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Hoje eu sei que ter raiva não adianta. Só faz mal para o hospedeiro. Precisamos diferenciar a raiva da dor. A raiva a gente sente e resolve de outro jeito. Eu fiz umas meditações e ainda tenho que enfrentar meus problemas de raiva, de sentimentos ruins. A dor permanece aqui e é enorme. Também doeu em muitas outras pessoas. O lema do instituto é ‘Nos enterraram, mas não sabiam que a gente era semente’. Quero que os valores dos meus filhos ajudem outras pessoas, que sejam revertidos em ações positivas para a defesa do meio ambiente.

O período é difícil para mim. Mas, de alguma forma, eu estou me realizando com esse trabalho. A Camila tinha razão. Não dá pra parar enquanto todo mundo não tiver as mesmas oportunidades que nós. A gente pode fazer pouco, mas tem que falar muita coisa. Estou satisfeita porque vejo o engajamento de muita gente. Eu ganhei filhos e filhas. E netos. A Camila e o Luiz deixaram sementes de amor e justiça.”

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Um comentário

  1. Maria Noemia Rodrigues Staviski

    Maravilhosa atitude, sempre sonhei com um lugar como esse. Espero que surjam vários pontos aqui no Brasil

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