A vida é isso, pequenas felicidades sorvidas gole a gole

Ela já tentou inclusive fazer dança flamenca, mas descobriu que a essa altura da vida parece difícil coordenar braços, pernas e castanholas

Ela já tentou inclusive fazer dança flamenca, mas descobriu que a essa altura da vida parece difícil coordenar braços, pernas e castanholas

Déa Januzzi –

O filho saiu, resolveu bater asas – e ela ficou sozinha piando sozinha nesta gaiola doméstica. Pensou que poderia fazer o que quisesse, mas o que ela quer mesmo? Ela queria liberdade? Para que mesmo serve a liberdade? Se ela está aposentada, a faxineira veio para deixar a casa limpa e perfumada? Antes, com certeza, iria à Feira das Flores, no Bairro Funcionários, para comprar antúrios e enfeitar a mesa e a própria vida. Chamaria amigos para um jantar com massas e vinho, mas onde estão os amigos? Alguns deles partiram e só deixaram saudades de um tempo mais largo.

Ela anda de um lado para o outro, até que a irmã liga e diz que vai à casa dela com um amigo. A preguiça invade – e ela diz que hoje não, talvez amanhã. Afinal, o que deu nela, não era de companhia que ela estava reclamando? Resolve abrir um vinho, hoje sem o olhar de reprovação do filho, sem a ladainha de que todo dia ela bebe. Livre para fazer o que pensa que gosta, ela volta a ler “O Irmão Alemão”, de Chico Buarque, e acha que gosta mais do compositor do que do escritor, apesar de ter começado a leitura, mas parou na página 20.

Procura pela música “Cálice” no Youtube, porque afinal ninguém mais precisa deaparelhos de som. Ela tem todos, desde a radiola para os discos de vinil que o filho coleciona e conserva, com toda playlist da vida dela, até os CDs, com músicas clássicas, ciganas, MPB antiga e atual. Escolhe um tango flamenco, cujas guitarras choram entre si, levando o ouvinte para lugares desconhecidos e delirantes. Ela já tentou inclusive fazer dança flamenca, mas descobriu que a essa altura da vida parece difícil coordenar braços, pernas e castanholas. Reconhece que ama saias rodadas,sapateado, leques e flores nos cabelos – vestuário de uma dançarina flamenca. Quem sabe ainda dá tempo de dançar com a professora Fátima Carretero? Ela diz que dá. Mas falta coragem.

Ela abre o vinho e deixa o líquido escorrer por todo o céu interior, para ver se resgata o universo do seu ser. No caminho entre a mesa e a boca, para degustar o vinho naquela esplêndida taça de cristal vermelha, algum mistério se instaura. Acende velas e incenso de benjoim para limpar os cantos mais secretos, para liberar a mulher escondida, reprimida, que acha que depois dos 60 não pode mais ser sensual. O efeito vinho, taça vermelha de cristal, música cigana e velas, acende nela um desejo irresistível. As emoções pegam fogo. Ela gira pela sala e se lembra de que felicidade é isso, que ser livre é estar só diante dos seus incontáveis prazeres. Ela dança, movimenta os braços, libera sonhos, até que tem vontade de escrever – a magia da escrita sempre foi a sua redenção.

Ela quer fazer uma revolução com as palavras, que surgem na tela branca do computador. Ela quer preencher a página com metáforas temperadas com manjericão e pimenta caiena, sabores exóticos, perfeitos para as exigências de uma mulher sozinha, mas inteira. Uma mulher que tem 60 anos e o mundo inteiro à disposição. Ela pode neste momento mergulhar nos seus desejos, rir de si mesma echorar a vontade. Limpar o corpo com a água benta das lágrimas.

Ela vai para a cozinha harmonizar palavras, vinho, temperos e o silêncio que paira na casa. Não é que ela faz uma massa divina, dessas de comer com os olhos e se fartar de alegria? Então põe a mesa com toalha de linho branco. Serve no prato onde está escrito: “Uma mancha de vinho na toalha. Alguém foi feliz aqui…” Um prato que ela comprou há muito num restaurante italiano que nem existe mais.

Ela lembrou que vida é isso, pequenos segredos revestidos de requinte e prazer. Pequenas felicidades sorvidas gole a gole – e vai dormir com essa paz conquistada!

PS: Para agradecer a todos que escreveram sobre a “Aldeia da Sabedoria” que está em pleno vapor e, com certeza, será uma comunidade para envelhecer com ternura e cuidados. Para dizer que, no próximo sábado, darei os detalhes e os passos a seguirpara morar na aldeia, que está virando realidade.

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4 comentários

  1. Ei Déa, lendo o texto já tô querendo para amanhã esta “aldéa”…rsrs…bjs.

  2. Deinha, você já está a caminho da verdadeira liberdade. Além da noite linda da mulher de 60 anos, que se reencontra num ambiente tão acolhedor e rico como tão bem descrito, este é o caminho da verdadeira liberdade, que é a liberdade de SER. Beijos grandes com a admiração constante da amiga MaGrace

  3. Déa, eu vi e vivi toda a cena! Bailamos juntas nessas palavras. Lindo, como sempre!

  4. E ela encantou-se com a magia escondida na rotina, enxergou o belo nos pequenos momentos!
    Um brinde a este momento e outros que virão!
    Aguardo ansiosa os detalhes sobre a “Aldeia da Sabedoria”.
    Beijos Querida Déa

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