Aos 82 anos, morre gênio da neurociência Oliver Sacks

O famoso neurologista controu ao mundo  em fevereiro que sofria de câncer em estágio terminal

Neurologista contou ao mundo em fevereiro que sofria de câncer em estágio terminal

O neurologista e escritor best-seller britânico Oliver Sacks morreu aos 82 anos neste domingo, vítima de câncer. Segundo o “The New York Times”, que o descrevia como “o aclamado poeta da medicina moderna”. O autor de livros de sucesso como “Tempo de despertar” (1973), adaptado para o cinema em 1990 com Robin Williams e Robert De Niro, “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu” (1985) e “Um atropólogo em Marte” (1995) estava em sua casa, em Nova York.

Oliver Sacks, considerado um gênio da neurociência, chamou a atenção do mundo em fevereiro deste ano quando escreveu um longo artigo para o NYT contando da sua morte iminente, pois, confessou, vinha sendo consumido por um câncer. “Há um mês pensava que estava bem de saúde, inclusive muito bem”, escreveu. “Mas a minha sorte acabou. Umas semanas atrás soube que tenho várias metástases no fígado.” Em outro trecho, o neurologista chega a dizer: “Estou cara a cara com morte”. Apesar do avanço da doença, mais adiante, ele acrescenta: “Sinto-me intensamente vivo e quero, e espero que, no tempo que resta,eu possa aprofundar minhas amizades, dar adeus aos que amo, escrever mais e viajar, se tiver forças para tanto. Não posso fingir que não tenho medo. Mas o sentimento predominante é de gratidão.” Tomara que tenha tido tempo de fazer tudo que desejava.

Leia o artigo de Sacks, que teve imediata repercussão mundial:

“Um mês atrás, eu me sentia gozando de boa saúde; diria até que de uma saúde de ferro. Aos 81, ainda nado 1.600 metros por dia. Mas minha sorte se esgotou – há algumas semanas, soube que tinha múltiplas metástases no fígado. Nove anos atrás, descobri que eu tinha um tumor de olho raro, um melanoma ocular. Apesar de as radiações e do laser para eliminar o tumor terem me deixado cego daquele olho, era muito improvável que um tumor daquele tipo se alastrasse. Eu estou entre os 2% desfavorecidos pela sorte.

Sinto-me grato pelos nove anos produtivos e de boa saúde que tive após o diagnóstico original, mas agora estou cara a cara com a morte. A doença tomou um terço de meu fígado e, ainda que seja possível atrasar seu passo, o avanço desse tipo particular de câncer não pode ser impedido.

O que me cabe agora é decidir como viverei os meses que me restam. Devo vivê-los da maneira mais rica, profunda e produtiva que puder. Nisso sou encorajado pelas palavras de um de meus filósofos favoritos, David Hume, que, aos 65 anos, sabendo-se acometido por uma doença mortal, escreveu, em um só dia de abril de 1776, uma breve autobiografia. Ele a intitulou “Minha Vida”.

“Conto agora com uma morte rápida”, ele escreveu. “Tenho sofrido pouquíssima dor advinda de minha doença e, o que é mais estranho, apesar do rápido declínio de meu corpo, meu espírito nunca se abateu um momento sequer. […]Possuo o mesmo ardor de sempre pelos estudos, e a mesma alegria na companhia de outras pessoas.”

Tive muita sorte de poder passar dos 80, e os 15 anos que me foram concedidos além das seis décadas e meia que viveu Hume, eu os vivi de forma tão plena de trabalho e amor quanto ele. Nesse período, publiquei cinco livros e terminei uma autobiografia, um bocado mais extensa que a dele, a sair nos próximos meses;2 tenho vários outros livros quase concluídos.

Hume seguia: “Sou […] um homem de disposição cordial, senhor de si mesmo, de humor franco, social e jovial, capaz de amizade, mas pouco suscetível a inimizades e de grande moderação em todas as suas paixões”.
Nesse ponto minha experiência se afasta da dele. Embora eu tenha vivido amores e amizades e não tenha inimizades reais, não posso dizer (nem ninguém que me conhece poderia) que sou um homem de disposição cordial. Ao contrário, meu caráter é veemente, sou capaz de me entusiasmar de forma violenta e sou extremamente imoderado no que diz respeito a qualquer de minhas paixões.

Ainda assim, uma linha do ensaio de Hume me parece especialmente verdadeira: “É difícil”, escreve, “sentir maior distanciamento da vida do que este que sinto neste momento”. Clique aqui para ler mais.

Compartilhe!

Deixe seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos marcados com asterisco são obrigatórios. *

*

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.