As cantadas ofendem

 Pesquisa mostra que 83% das mulheres rejeitam certos tipos de cantada

Pesquisa mostra que 83% das mulheres rejeitam certos tipos de cantada

Quem me mandou este texto de Karin Hueck, da revista Época, foi o meu amigo, homem sensível, Ingo Ostrovsky. O artigo da jornalista trata de um tema que simplesmente não é discutido: o verdadeiro assédio que a grande maioria das mulheres, sobretudo as mais jovens, sofre nas ruas das cidades. É raro encontrar uma que não tenha passado por situação desagradável. Agora, surge uma campanha para acabar com isso, “Chega de Fiu-Fiu”, lançada por um blog.

Leia o artigo:

Natália, de 28 anos, andava por uma avenida movimentada de São Paulo com uma amiga. O rapaz que vinha na direção oposta se esgueirou entre as duas. Encarou-as de alto a baixo e soltou: “Sem calcinha vocês devem ser uma delícia”. Débora, de 29 anos, esperava o semáforo abrir para atravessar uma avenida. Foi abordada por um estranho que a convidava para um café. Puxou-a pelo braço, insistiu e depois começou a segui-la. Thatiane, de 23 anos, estava numa festa. Sentiu alguém deslizar a mão por seu corpo. Ela se voltou para tirar satisfação, e o rapaz a chamou de vagabunda. Thatiane jogou o conteúdo do copo que tinha nas mãos sobre ele. Levou um tapa na cara. Laura tinha 14 anos, estudava no centro de Porto Alegre e saiu para almoçar. Três homens cruzaram seu caminho, passaram a mão no meio de suas pernas e discorreram sobre suas partes íntimas, com uma frase que jamais poderia ser publicada em Época.

Natália, Débora, Thatiane e Laura são minhas amigas. Não precisei ir longe para reunir essas histórias assustadoras, porque elas não são exceção. Assim como minhas amigas e eu, já passaram por situações constrangedoras nas ruas 99,6% das quase 8 mil mulheres que responderam a um questionário on-line elaborado por mim. O levantamento, promovido entre julho e agosto, faz parte da campanha “Chega de Fiu-Fiu”, organizada pelo blog Think Olga, um espaço virtual para discutir questões femininas. O percentual de mais de 99% é parecido com o encontrado num trabalho feito nos Estados Unidos pela organização Stop Street Harassment (Parem com Assédio nas Ruas). Lá, 99% das mulheres afirmaram ser incomodadas nas ruas. Como não sou pesquisadora e não usei metodologia científica, sei que meus resultados podem não ser exatos. Mas eles traçam um bom panorama do que as mulheres enfrentam – e do que sentem – quando andam pelas ruas. Como mulher e jornalista, foi a maneira que encontrei de mostrar que esse tipo de “elogio” não agrada. Ofende, humilha e causa medo.

O cartaz com a mensagem de indignação da jovem

O cartaz com a mensagem de indignação da jovem

É tão comum que uma mulher ouça cantadas ou passe por situações que beiram ao assédio que o assunto é pouquíssimo discutido. Parece apenas mais um fato da existência. A chuva molha. Seres humanos envelhecem. Mulheres são importunadas nas ruas. É tão frequente que algumas dizem não se importar. Parecem ter se conformado. De acordo com a pesquisa, 17% consideram cantadas algo legal. Imaginando que algum comentário sobre nosso corpo feito por estranhos seja admissível, qual o limite entre o elogio aceitável e a cantada ofensiva? Pode chamar de princesa? Pode passar a mão no cabelo? E colocar a mão no corpo, pode? Parece que muitos acham que sim.

No levantamento, 85% das mulheres afirmaram já ter sido tocadas ao andar sozinhas. Nas nádegas (88%), na cintura (56%), nos seios (20%), entre as pernas (17%). Se isso não é agressão sexual, o que será? Todas essas “cantadas” – da “princesa” à passada de mão – violam a intimidade feminina. O assediador parte de um princípio: o corpo da mulher é visto como público, algo sobre o qual se pode opinar e, por que não, do qual pode se servir à vontade. Como essa percepção é generalizada, a mulher que decide se manifestar contra o assédio corre o risco de ser ofendida. Vira metida, baranga e outros insultos que não cabem neste artigo.

Entre as voluntárias que responderam ao questionário, 68% relataram ter sofrido intimidações verbais ao revidar. Talvez por isso, poucas mulheres reajam às cantadas que ouvem: apenas 27%. “Medo de apanhar” é uma das principais justificativas para o silêncio delas, e faz sentido. Dados da Secretaria de Política para as Mulheres mostram que 37% das brasileiras foram agredidas em vias públicas, e 29% foram atacadas por desconhecidos. Clique aqui para ler mais.

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Um comentário

  1. Como uma matéria dessas não foi comentada ainda? sensacional a iniciativa! Eu estou extremamente impaciente nos últimos tempos com esse tipo de abuso. Chega desses homens de merda fica desrespeitando as mulheres diariamente e ninguém fazer nada. Chega disso!

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