As sogras e o sentido da vida na velhice

O pai dele é um amor. O problema é a mãe dele

“O pai dele é um amor. O problema é a mãe dele”

Leonardo Martins, Brasil Post

Domingo é o dia da sogra. Desde o início do namoro, isso nunca esteve em discussão: domingo é dia de acordar cedo, ir para a casa dos pais dele e almoçar em família.

Mas não é o fim do mundo. O pai dele é um amor e sempre cuidou de você com muito carinho. O problema é a mãe dele. Apesar das boas intenções que você leva no coração, ela sempre te olhou de forma estranha. Parece um olhar de quem cultivou um tesouro por décadas, montou uma complexa estrutura de segurança e, quando menos esperava, viu seu sistema ser invadido, seu tesouro roubado e não pode fazer nada para reaver o que é seu de direito. Enfim, é realmente estranho, mas é como a mãe dele costumava te olhar.

Talvez por isso, os domingos também se transformaram no dia da contagem regressiva. “Quando terminar o almoço, vamos embora”. E assim foi por anos, até que… vocês tiveram filhos. Digo, sua sogra teve netos. “Por que? Por que não fizemos isso antes?”, é tudo o que se passa na sua cabeça quando observa como seus filhos fazem jorrar leite e mel de onde emanava um olhar de quem teve seus direitos usurpados. As crianças se tornaram sua carta da invulnerabilidade e transformaram os domingos em dias mais leves. E o dia da sogra deixou de ser o dia da contagem regressiva.

Vim, vi, venci

Grosso modo, velhice é o que acontece depois que você já fez o que tinha de ser feito – imagine permanecer voluntariamente na casa da sogra depois de terminado o almoço… E, ao que tudo indica, a tarefa primordial do ser humano é a reprodução. Embora a dobradinha Deus + evolução natural ainda seja tema de litígio, já sabemos que os autores do nosso código genético capricharam na parte da história que vai até a maturidade sexual. Até essa fase da vida, gozamos de um sistema de manutenção excelente, investindo pesado nos reparos que precisamos fazer ao longo do caminho: a identificação e resposta ao estresse intra- e extracelular, reparo do DNA nuclear e mitocondrial, substituição de macromoléculas danificadas, regeneração de tecidos, entre outros. E o que determina esse processo todo? A acurácia com que somos capazes de ler e executar as informações contidas nos genes. Os biogerontologistas chamam isso de preservação da fidelidade molecular: quanto melhor conseguimos manter a estrutura e a função das biomoléculas ao longo do tempo, melhor é a nossa saúde.

Vamos embora depois do almoço, combinado?

O problema é que a sequência dessa história, a vida posterior à maturidade sexual, ficou mal escrita. Aparentemente isso acontece porque a natureza não tem muito a ganhar com a manutenção de organismos senis. Depois da reprodução, já cumprimos a missão de repassar genes adiante, então não teríamos mais contribuições a oferecer. O organismo já investiu muita energia na manutenção da vitalidade até esse momento, nosso tanque de combustível já não pode mais ser reposto como antes e dependemos cada vez mais do que armazenamos na reserva… No fim das contas, depois dos 40 ou 50, começa o aparecimento inevitável e progressivo dos sinais de envelhecimento.

Agora, imagine isso acontecendo em um ambiente hostil. Retome a cena em que você faz contagem regressiva para o almoço e, depois da refeição, vai embora rapidamente. De certa forma, é como se você tivesse gastado muita energia e não pudesse mais sobreviver àquele ambiente, tornando-se presa fácil. Em contextos naturais, é o que acontece todos os dias. Consegue se lembrar de alguma cena do Natural Geographic em que o leopardo estende a mão a uma gazela caída? Pois é, ambientes naturais são tão hostis que é necessária toda a potência contida no nosso DNA para sobreviver. Quando ela começa a decair, os organismos se tornam vítimas iminentes. Sim, iminentes: na selva, o ambiente é tão ameaçador que não há chances de envelhecer. Mesmo os bons cinegrafistas da Natural Geographic têm dificuldade em encontrar gnus ou zebras na melhor idade.Clique aqui para ler mais.

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