Atuando no palco e na TV, Nathalia Timberg chega aos 90 anos

Maya Santana, 50emais

A atriz, que atua na novela A Dona do Pedaço e na peça “Através da Iris”, está completando 90 anos nesta segunda-feira , 05 de agosto

Hoje, mais cedo, conversava com uma amiga sobre atores, como Nathalia Timberg ou Fernanda Montenegro, que, além de viver muito, continuam trabalhando e a mente, ao contrário de tanta gente até mais nova do que elas, permanece intacta, ativa, ainda capaz de memorizar longos textos.

É um enorme feito, que merece muita comemoração. No caso específico de Nathalia Timberg, que está completando 90 anos de vida hoje, dá para ficar assombrado: ela está atuando ao mesmo tempo na novela “A Dona do Pedaço” e, no palco, faz a excêntrica e fantástica novaiorquina Iris Murdoch, na peça Através da Iris.

Eu me lembro perfeitamente do primeiro papel que Nathália fez na televisão: o de soror Maria Helena, na novela Direito de Nascer(1964/1965), há mais de 50 anos.

Na novela A Dona do Pedaço, ela interpreta o papel de Gladys

Leia a entrevista que ela concedeu a Maria Fortuna, de O Globo:

No dia que eu parar, é porque morri e esqueci de cair”. A frase de Nathalia Timberg faz todo o sentido para alguém que dedicou a vida à profissão (“só me sinto feliz trabalhando”). Tanto que, em 2016, ganhou um teatro com seu nome. Aos 90 anos, completados hoje, a atriz concilia a peça “Através da Iris”, em cartaz na sala Petra Gold, no Leblon, com a novela “A dona do pedaço”, em que interpreta Gladys, uma mulher de família tradicional, que perdeu tudo, menos a pose. Tem dias que emenda set e palco.

Ainda tem fôlego para a série de comemorações pelo seu aniversário, que começaram sexta, com as filmagens de documentário sobre sua vida, e seguem hoje, com um festão num hotel na Barra (“nunca vi tanta confirmação, até o Fagundes vai”, diz Marcus Montenegro, empresário da atriz há 25 anos).

— Parece a semana da Pátria — brinca. — Me sinto como criança diante de Papai Noel.

Mas Nathalia troca qualquer badalação pelo estudo. A determinação profissional muitas vezes fez com que deixasse em segundo plano a vida pessoal. Viúva do escritor Sylvan Paezzo, com quem foi casada por 15 anos, decidiu não ter filhos. Não se arrepende.

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Sua trajetória, que começou aos 6 anos no filme “O grito da mocidade”, foi e segue dedicada ao desenvolvimento de sua formação. Reflexo de uma prioridade familiar. De origem judia, filha de pai holandês (diamantário) e mãe belga (do lar), ela conta que os pais davam muito valor aos estudos dos rebentos (além dela, havia Antoniete, a mais velha, e Felipe, o caçula, ambos já falecidos).

— Os judeus sempre foram obrigados a emigrar, e o saber é algo que sempre se pode levar junto consigo — diz a carioca, criada entre Tijuca e Copacabana, e hoje moradora do Jardim Oceânico, na Barra, onde vive só.

Sonhava em ser médica, mas formou-se em Belas Artes influenciada pelo gosto do pai pela pintura. No entanto, foi no palco que encontrou sua vocação. Pela atuação em “A dama da madrugada”, no Teatro Universitário, ganhou bolsa do governo francês para estudar Artes Cênicas em Paris. De volta, aos 25 anos, estreou profissionalmente em “Senhora dos afogados”, dirigida por Bibi Ferreira, na Companhia Dramática Nacional. Viveu sua primeira grande personagem na TV, a atormentada freira Maria Helena, em “O direito de nascer”, na Tupi.

— Aí, não parou mais. É a atriz que mais trabalhou nesse país — afirma Cacau Hygino, autor da fotobiografia “Nathalia Timberg: Momentos” e também do espetáculo “Através da Iris”.

Veja ela aqui:

Olha para trás e gosta do que vê, da sua trajetória?

Sempre penso: “Meu Deus, quanta coisa aconteceu!”. Acho que não errei o meu caminho. Mas, sabe, não me atenho muito à Nathalia, não é meu assunto preferido. Tem um poema emblemático do Fernando Pessoa, que diz: “Aconteceu-me do alto do infinito. Esta vida”. É isso, minha vida me aconteceu.

Não é de ficar se analisando ou problematizando muito…

Tenho tanta coisa para problematizar dos meus personagens que não sobra tempo para mim. Olho a Nathalia de vez em quando, para ver se está fazendo tudo direito, puxo minha orelha, mas vou em frente.

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O que a fez escolher o teatro?

É uma das atividades que vai mais longe na análise do ser humano, que é infinita. Perceber o mundo de maneira diferente da minha ótica, o mergulho em outras vidas e universos. Tenho necessidade de perceber o homem no mund em que vivo.

A senhora sempre foi muito estudiosa. Como enxerga a formação dos atores hoje?

O principal não é onde se busca a formação, mas o que se quer. Quer trabalhar o desenvolvimento de expressão artística ou procura um meio de exibição? Só levo em conta quem busca a formação. Eu tinha uma tessitura forte já no Teatro Universitário, me via às voltas com personagens além da minha capacidade de resolvê-los, e isso me fez procurar um amadurecimento antes de iniciar a profissão. Queria estar preparada para enfrentar isso do que ter que recorrer aos truques.

Por isso foi estudar Artes Cênicas em Paris, aos 18 anos…

De todas as artes, acho que o ator é quem tem o instrumento mais complexo: ele mesmo. Para enfrentar o que uma dramaturgia propõe, é preciso estar um nível de desenvolvimento além do precário. Na verdade, sempre vai continuar precário, porque não tem fim, o nosso horizonte caminha conosco, vai se dar até o meu último dia. Não podemos nunca parar de abrir o leque. Quando é que se estabelecerá limites para o desenvolvimento de uma pessoa? Espero que minha lucidez me acompanhe ainda por um tempo.

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É verdade que teve gastrite quando interpretou a vilã Constância Eugênia, em “O dono do mundo”? Como as personagens te afetam?

Somos um todo, que vibra com energia positiva ou negativa. Quando se vive figuras tão negativas, aquilo se acumula em algum lugar. Claro que, para fazer Nero não vai matar a sua mãe, mas é preciso assumir os estados desagradáveis. Tive turning points com personagens e você tem que ir lá no desconforto, se não, mentiu a vida inteira e não é um intérprete, quer apenas fazer a coisa enquanto está gostosinho.

Como lidou com a repercussão negativa, por parte do público conservador, do casal que interpretou com Fernanda Montenegro em “Babilônia”?

Com visão crítica do mundo em que vivemos, a gente percebe as limitações dos outros, além das nossas. Me causa espécie a disparidade entre o discurso e o comportamento das pessoas e isso foi estranho nesse trabalho. No lançamento da novela, fui abordada por gente da imprensa, que já chegou dizendo “você vai fazer um casal com a Fernanda Montenegro!”. Respondi: “Não acha que essa situação deveria estar absorvida pela sociedade como uma realidade?”. Eles diziam “acho”, mas continuavam colocando um foco de escândalo naquilo, contribuindo para aquele olhar.

Como enxerga o atual momento político do país?

Obscuro. Há tempos acho que se faz tábua rasa da formação do brasileiro e cada intervenção nos projetos sociais é para pior. No momento em que se abandona a cultura humanística, se pretende que o ser humano não tenha condição de raciocínio e discernimento. Estamos postulando uma ignorância especializada. Com um povo sem formação terá condição de escolher seus dirigentes?

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São mais de 100 trabalhos em TV, teatro e cinema. Sua dedicação ao ofício fez com que abdicasse muito da vida pessoal?

Não abdiquei porque minha vida pessoal é o trabalho. Só me sinto feliz trabalhando. Ele me tirou um pouco da vida social, me sinto em falta com as pessoas. Quando não estou trabalhando, estou desenvolvendo as condições de fazer frente ao que tanto gosto. As pessoas gostam de dizer “eu sou assim, assado”. Eu não sei como é que eu sou.

Se arrepende de não ter tido filhos?

Não, sou tranquilíssima com essa decisão. Me sinto até aliviada. É tão difícil preparar um ser para o mundo que aí está. Eu não saberia o que fazer, acho que a natureza fez muito bem. Também me causa espécie as pessoas que têm filhos pra si, para que sejam cuidadas na velhice. Não é o que acontece hoje, as famílias estão fragmentadas.

Quais as dificuldades e belezas da passagem do tempo, que vai levando embora os amigos, como Ruth de Souza, a quem a senhora era muito ligada?

A Ruth, eu a conhecia desde 1948… Mas a gente não passa a vida computando o que é bom e ruim. Procuro fazer dela o melhor que posso, com consciência. As perguntas que vêm a seguir, eu não sei. Sou um ser humano que consegue conviver com o “não sei”, não invento histórias para preencher o que não sei. O que estou fazendo aqui? Não sei. Teatro.

Veja a reportagem da GloboNews sobre Nathália Timberg:


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