Brasil ganha biblioteca com mais de 50 mil livros

Guita e José Mindin, em foto de Maria Carreira de 1988

Guita e José Mindin, que doaram os livros, em foto de Bia Parreiras, 1989

Carolina Giovanelli

Em seus últimos tempos de vida, o empresário paulistano José Mindlin, falecido em 2010, aos 95 anos de idade, foi aos poucos perdendo a visão. A enfermidade acabou por privá-lo de desfrutar seu maior prazer: ler livros. Para quem devorava até 1.500 páginas por mês, frequentemente sentado em sua poltrona marrom, com um pedaço de marzipã ou chocolate ao lado, a situação parecia desesperadora. Ele deu um jeito, entretanto, de contornar o problema. Chamou amigos e parentes para que lhe contassem as histórias em voz alta. A paixão por livros, principalmente os raros, veio da juventude: aos 13 anos, Mindlin adquiriu, por pura curiosidade, seu primeiro exemplar antigo, Discurso sobre a História Universal, de Jacob Benigno Bossuet, editado em 1740.

Na jornada das letras que iniciava ali e seria alimentada pelas oito décadas seguintes, o fã ardoroso de Machado de Assis e Marcel Proust garimpou em sebos do mundo inteiro, trombando pelo caminho com pérolas únicas, em línguas como russo, latim e alemão, que ele, entre outras, dominava. Em sua tranquila residência na Rua Princesa Isabel, no Brooklin, os volumes foram tomando a sala e os quartos, até se estender para dois anexos próximos. O empresário formou, assim, a mais importante biblioteca particular do país. “Quem não lê não sabe o que está perdendo”, dizia.

Parte do tesouro, que era antes restrito à consulta de pesquisadores que visitavam sua residência da Zona Sul, será agora disponibilizada ao público. No sábado (23) acontecerá a festa de abertura da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, instalada na Cidade Universitária. O espaço começa com suas atividades normais já no dia 25. “A inauguração é de enorme importância para a cidade e torna mais direta a consulta desse acervo tão bem selecionado”, diz Samuel Titan Jr., professor da USP e coordenador executivo do Instituto Moreira Salles. O projeto ganhou vida graças a um desejo antigo de Mindlin, que não viveu para ver seu sonho realizado.

Livros distribuídos por três andares do edifício da Biblioteca Mindlin, na USP

Maior conjunto de livros sobre o Brasil, distribuído por três andares na USP, será inaugurado neste sábado

Como grande incentivador da leitura, o filho de judeus russos resolveu doar, em 1999, sua inestimável coleção brasiliana, com livros, mapas e manuscritos ligados à cultura nacional. Foi firme ao recusar propostas de renomadas instituições estrangeiras que pretendiam adquiri-la, a exemplo das americanas Stanford e Ucla, pois queria que o espólio permanecesse no país. Escolheu a Universidade de São Paulo, onde, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, se formara na década de 30 e conhecera a então caloura Guita Kauffmann, com quem foi casado por quase setenta anos e teve quatro filhos: a antropóloga Betty, a artista gráfica Diana, o administrador de empresas Sérgio e a cantora Sonia. Eles herdaram o restante dos volumes, que não pertencem à coleção brasiliana. Trata-se de uma estimativa de pelo menos 20.000 exemplares — entre eles, a primeira edição de Os Lusíadas, de 1572 —, que serão doados, vendidos ou divididos de acordo com o interesse dos familiares.

Em um incomum gesto de generosidade, Mindlin criou uma biblioteca pública de peso. Surpreendentemente, enfrentou, para isso, um processo lento e burocrático. De início, pensou em criar uma fundação privada que serviria como receptora dos livros. Descobriu, entretanto, que para fazer a transação precisaria pagar um imposto altíssimo. A saída foi criar na própria USP um órgão da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária, que receberia diretamente a benfeitoria e, em contrapartida, deveria construir o prédio e gerir a biblioteca. Os 39.000 títulos e 55.000 volumes, avaliados por especialistas em cerca de 100 milhões de reais, ficarão em estantes num prédio de cinco pavimentos e 6 500 metros quadrados. O edifício faz parte de um portentoso complexo de 20.950 metros quadrados que deve receber no segundo semestre o Instituto de Estudos Brasileiros (que conta com 580.000 itens, também da cultura nacional), o Sistema Integrado de Bibliotecas e uma biblioteca central de obras raras e especiais, todos ligados à universidade. Leia mais em vejasp.com.br

Compartilhe!

Deixe seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos marcados com asterisco são obrigatórios. *

*

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.