Censurada pela ditatura, Joan Baez canta “Cálice”

Ao lado de Gil e Milton, ela emocionou a platéia

Ao lado de Gil e Milton, ela emocionou a platéia

Quase 33 anos depois de ter seu show no Brasil vetado pelo governo do general João Figueiredo, em 1981, Joan Baez, 73, fez uma apresentação emocionante ontem, no Rio, ao lado de Gilberto Gil e Milton Nascimento, cantando a belíssima “Cálice”. Por ironia, a cantora desembarcou no Brasil quando o país prepara-se para marcar os 50 da ditadura (1964-1985), que mergulhou a nação inteira na total escuridão cultural por mais de duas décadas. O vídeo (abaixo) dos três cantando é imperdível.

Leia o artigo publicado por O Globo:

Teve a sua boa (e particularmente emocionante) dose de acerto de contas com o passado o show que a americana Joan Baez fez na noite de sexta-feira no Rio de Janeiro, no Teatro Bradesco. Três décadas depois de sua primeira visita ao Brasil, na qual foi impedida de cantar pelo regime militar de exceção instaurado em 1964, a musa da canção folk política se viu no palco, junto com Gilberto Gil (artista exilado pela ditadura) e Milton Nascimento entoando os duros versos, que ela leu num papel, de “Cálice”, canção de Milton e Chico Buarque que combatia e que foi combatida nos anos 1970 pelos detentores do poder.

A musa do protesto político

A musa do protesto político aos 73 anos

Saudada pelo artífice do Clube da Esquina como “uma deusa nossa”, Joan já tinha sinalizado suas intenções, antes do encontro, ao entoar “Pra não dizer que não falei das flores (caminhando)”, de Geraldo Vandré. E, no declarado propósito de não deixar a oportunidade passar em branco, ela seguiu com os dois na celebração de utopias de “Imagine”, de John Lennon. Momentos altos de um show que teve política, mas também muito boa música.

Aos 73 anos de idade e mais de 50 de carreira, Joan Baez não é só uma veterana do inconformismo. É a voz que – ainda incrivelmente cristalina e rica – ecoa nas de gerações e gerações de seguidoras, mesmo as muito jovens, da novíssima cena do folk. Pequena e esguia, apenas com os cabelos grisalhos a dar pista do seu setentismo, Joan adentrou o palco só com violão e abriu a noite com “God is God” (de Steve Earle), recorrendo à primeira de uma série de leituras de papéis com bem-humoradas sinopses em português das canções que interpretaria. O toque econômico e inconfundível nas cordas se manteve em “Farewell, Angelina”, a primeira das canções de ex-namorado Bob Dylan que ela mostraria na noite. No terceiro número, “Flora”, canção tradicional irlandesa, entraram em campo seus dois músicos: o multinstrumentista Dirk Powell (empunhando, nessa, um banjo) e o percussionista Gabriel Harris, filho da cantora.

Multicultural por toda a sua carreira, Joan apresentou no show muitas das canções em espanhol de seu repertório, como “La llorona”, “El preso número nueve” e, como não poderia deixar de ser, o seu grande sucesso “Gracias a la vida” (da chilena Violeta Parra). “Mulher rendeira” e “Acorda, Maria Bonita”, conhecidos temas compostos pelo cangaceiro Volta Sêca, do temido bando de Lampião, representaram o Brasil no apanhado do folk mundial que a cantora faz em seu show. Clique aqui para ler mais.

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Um comentário

  1. ainda bem que vivemos essa época dura, mas criativa, quando o único inimigo era a ditdura e não como hoje que o inimigo pode estar ao seu lado. rindo da sua cara e torturando os seus sentimentos e sonhos, todos hoje colocados na prisão de nossos dias.

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