Chamar de “descontrole” o ato de bater na mulher é um deboche

Pedro Paulo Carvalho, apoiado pelo prefeito Eduardo Paes, e a ex-mulher, Alexadra

Pedro Paulo Carvalho e a ex-mulher, Alexandra: violência doméstica é inadmissível

Sou de uma geração que sempre lutou contra o que se acostumou a chamar de violência doméstica – quase sempre um subterfúgio para violência contra a mulher. Eu me rebelava contra a subserviência das contemporâneas da minha mãe. Por isso, dá muita esperança ver que um dos grandes temas em discussão no Brasil neste momento é exatamente a violência de que a mulher é vítima. Os números de agressões e mortes no país chegaram a um ponto que não dá mais para ignorar: pelo menos 13 mulheres são assassinadas todos os dias no país por motivos passionais, segundo dados oficiais. Assim, não é de se admirar a repercussão que vem tento o caso de Pedro Paulo Carvalho, pré-candidato do PMDB à prefeitura do Rio de Janeiro, nas eleições do ano que vem. Pedro Paulo, descobriu-se, agrediu a então esposa Alexandra Marcondes pelo menos duas vezes. Numa delas, quebrou um dente da mulher. Agora que o fato tornou-se público, parte da sociedade carioca pressiona para que ele renuncie à candidatura. Mas, para surpresa de muitos, quem não quer deixar que Pedro Paulo desista é o próprio Eduardo Paes. Com seus interesses políticos falando mais alto, o prefeito carioca, aparentemente uma cabeça arejada, defende o indefensável, agindo assim de maneira atrasada, como um homem de antigamente.

Leia o artigo de Ricardo Noblat, de O Globo:

De duas, uma. Ao dizer que descarta a ideia de trocar seu secretário Pedro Paulo Carvalho por outro nome que concorra à prefeitura do Rio em 2016, Eduardo Paes apenas ganha tempo para encontrar um novo candidato. Ou então: apesar da enrascada em que Pedro Paulo se meteu, Eduardo, de fato, não abre mão de ser sucedido por ele, amigo de fé, parceiro há 18 anos, camarada.

O plano de Eduardo de disputar em 2018 o governo do Rio ou a vaga de Dilma passa pela eleição de Pedro Paulo para prefeito. Só que o futuro de Pedro Paulo já não pertence ao prefeito, mas aos cariocas que começam a reagir, indignados, contra o que ele fez. Especialmente as cariocas, chocadas com a descoberta de que Pedro Paulo espancou sua ex-mulher duas vezes.

“Eu acho que aconteceu uma coisa de casal, que só interessa a eles”, disparou Eduardo afinado com Pedro Paulo e desafinado com as ruas. “O que deve valer para o eleitor é tentar compreender quais são as propostas dele para a cidade. É preparado? Que realizações tem? É disso que se trata a eleição”. Não é só disso. E espanta que o prefeito de uma cidade cosmopolita como o Rio pense assim.

O que aconteceu com Pedro Paulo e Alexandra somente caberia a eles se Pedro Paulo não fosse um homem público. Os eleitores têm o direito de conhecer como os aspirantes a governá-los se comportam longe dos refletores. A Pedro Paulo não se pode negar o direito ao arrependimento. Mas tampouco aos eleitores o direito de julgá-lo pelo que fez de bom ou de ruim.

Não existem duas morais, uma pública e outra privada. Exige-se do homem público que seja coerente com o que prega. Se para atrair votos ele condena a violência, não pode na intimidade da família ou dos amigos agredir quem quer que seja. “Eu me descontrolei”, desculpou-se Pedro Paulo, orientado por especialistas em crises de imagem que o treinaram para mentir melhor.

Chamar de “descontrole” o ato de bater em uma mulher é debochar da nossa inteligência. É uma confissão de ignorância abissal dos meios mais civilizados de se resolver conflitos entre humanos. No limite – quem sabe? -, pode ser também uma forma de disfarçar um possível traço de misoginia sempre tão comum entre aqueles que levam uma vida dupla, obrigados a mentir o tempo todo.

Há um mês, quando a VEJA revelou que em 2010 ele surrara Alexandra no apartamento do casal na Barra da Tijuca, Pedro Paulo negou. E distribuiu um documento assinado por Alexandra aonde ela negava que tivesse apanhado. O documento era falso. Ouvida pelo Ministério Público, Alexandra confirmou tudo o que registrara em delegacia, na época.

Fora traída pelo marido com uma mulher que parecia um travesti. E ao cobrar satisfações, Pedro Paulo respondeu com socos e chutes que a deixaram coberta de marcas. Um dos socos arrancou-lhe um dente. Confrontado com o que dissera Alexandra, só restou a Pedro Paulo apelar novamente para a mentira: “É importante dizer que foi um episódio único na minha vida”. Não foi!

Na semana passada, soube-se que ele espancara Alexandra na noite do Natal de 2008, e diante da filha do casal, Manuela, de 10 anos. O ato final da humilhação de Alexandra ocorreu na quinta-feira. Forçada pelo ex-marido a defendê-lo, Alexandra jurou que só apanhou dele duas vezes. “Pedro nunca foi um cara agressivo”, recitou.

Agressivo, mentiroso e egocêntrico, Pedro pede seu voto para governar o Rio.

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Um comentário

  1. Eu não voto em covardes, meu votos são para mulheres, está provado que sexo masculino já deu o que tinha que dar que foi nada em muitos seguimentos, á vez é da mulher ! Lugar de mulher é no plenário !

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